
A icterícia é a coloração amarelada da pele, mucosas e escleras causada pelo acúmulo de bilirrubina no sangue, tornando-se visível quando a bilirrubina total ultrapassa 2 a 3 mg/dL. Não é doença, e sim um sinal que reflete desequilíbrio entre produção, captação, conjugação ou excreção da bilirrubina. Diferencia-se da carotenodermia, que amarela a pele mas poupa as escleras.
- Icterícia = amarelo por bilirrubina > 2–3 mg/dL; começa nas escleras.
- Classifique por fração: indireta (hemólise, Gilbert) vs direta (colestase, hepatite).
- Colúria + acolia fecal = padrão colestático (bilirrubina direta).
- Primeiro exame: bilirrubinas + transaminases + fosfatase alcalina/GGT + ultrassom.
- Icterícia + febre + dor no hipocôndrio direito = colangite (tríade de Charcot).
O que é icterícia
A icterícia é a impregnação amarelada dos tecidos ricos em elastina — escleras, freio da língua, palato e pele — pela deposição de bilirrubina. Torna-se clinicamente detectável quando a bilirrubina total supera 2 a 3 mg/dL; abaixo disso, fala-se em subicterícia, mais bem vista nas escleras sob luz natural. É um sinal cardinal das doenças hepatobiliares e hemolíticas.
É preciso diferenciar a icterícia da carotenodermia, na qual o excesso de betacaroteno amarela palmas e plantas mas poupa as escleras — pista clássica de prova. Também difere da coloração por uso de medicamentos (como rifampicina). O ponto-chave é: se as escleras estão amarelas, é icterícia verdadeira por bilirrubina.
A abordagem racional da icterícia parte da fração predominante de bilirrubina. A bilirrubina indireta (não conjugada) acumula por hiperprodução (hemólise) ou falha de conjugação (síndrome de Gilbert). A bilirrubina direta (conjugada) acumula por doença hepatocelular ou colestase (obstrução do fluxo biliar). Essa divisão orienta toda a investigação.
Causas de icterícia
As causas de icterícia se agrupam pela fração de bilirrubina alterada. A tabela abaixo separa os mecanismos pré-hepático, hepático e pós-hepático, com exemplos frequentemente cobrados.
| MECANISMO | FRAÇÃO | EXEMPLOS |
|---|---|---|
| Pré-hepática | Indireta | Anemias hemolíticas, malária, reabsorção de hematomas |
| Hepática | Mista/direta | Hepatites virais, hepatite alcoólica, cirrose, Gilbert (indireta) |
| Pós-hepática | Direta | Coledocolitíase, câncer de cabeça de pâncreas, colangite |

Na prática, a icterícia com predomínio de bilirrubina direta cursa com colúria (urina escura) e, quando há obstrução completa, acolia fecal (fezes claras). Já a icterícia de bilirrubina indireta pura, como na hemólise ou no Gilbert, não gera colúria, pois a bilirrubina indireta não é filtrada pelo rim.
Como avaliar a icterícia
A anamnese busca o padrão: houve pródromos virais, uso de álcool ou medicamentos, contato com hepatotóxicos? Há colúria e acolia (colestase)? Dor abdominal em cólica sugere cálculo; perda de peso e icterícia indolor progressiva levantam neoplasia periampular. Prurido acompanha a colestase crônica. Febre com calafrios aponta colangite.
No exame físico, procure estigmas de hepatopatia crônica (aranhas vasculares, eritema palmar, ginecomastia, ascite), hepatoesplenomegalia, dor à palpação e o sinal de Courvoisier (vesícula palpável indolor com icterícia — sugere obstrução maligna). Palidez e esplenomegalia orientam para hemólise. Reconhecer sinais de gravidade é prioridade na avaliação da icterícia.
Icterícia + febre + dor no hipocôndrio direito = tríade de Charcot (colangite aguda). Se somar hipotensão e confusão mental, vira pêntade de Reynolds — emergência que exige antibiótico e drenagem biliar urgente.
Diagnóstico e exames na icterícia
A investigação começa com bilirrubinas fracionadas, transaminases, fosfatase alcalina, GGT e ultrassom de abdome. O padrão bioquímico separa lesão hepatocelular (transaminases altas) de colestase (fosfatase alcalina e GGT altas). A tabela orienta a leitura dos exames na icterícia.
| PADRÃO | ACHADOS |
|---|---|
| Hemolítico | ↑ Bilirrubina indireta, ↑ LDH, ↓ haptoglobina, reticulócitos altos |
| Hepatocelular | ↑↑ AST/ALT, bilirrubina mista, sorologias virais |
| Colestático | ↑↑ Fosfatase alcalina e GGT, ↑ bilirrubina direta, colúria |
| Imagem | Ultrassom (dilatação de vias biliares) → colangio-RM ou CPRE |
“Direta Deixa a urina Escura”
Bilirrubina Direta é hidrossolúvel, é filtrada e Deixa a urina escura (colúria). A indireta não passa pelo rim — icterícia sem colúria = hiperbilirrubinemia indireta (hemólise, Gilbert).
Conduta na icterícia
A conduta na icterícia é dirigida pela causa. Na hiperbilirrubinemia indireta por hemólise, trata-se a doença de base; a síndrome de Gilbert é benigna e não exige tratamento. Na icterícia hepatocelular por hepatite viral, o cuidado é de suporte e afastamento de hepatotóxicos, com seguimento das transaminases e sorologias.
Na icterícia colestática obstrutiva, a prioridade é desobstruir a via biliar: CPRE para coledocolitíase, drenagem endoscópica ou cirurgia em tumores periampulares. Sempre pesquisar e tratar colangite associada com antibiótico e drenagem urgente. Reconhecer precocemente o padrão da icterícia evita atraso em condições cirúrgicas e emergenciais.
Perguntas frequentes sobre icterícia
O que é icterícia?
Icterícia é a coloração amarelada da pele, mucosas e escleras causada pelo acúmulo de bilirrubina no sangue, geralmente visível quando a bilirrubina total ultrapassa 2 a 3 mg/dL. É um sinal, não uma doença, e reflete desequilíbrio na produção, conjugação ou excreção da bilirrubina.
Qual a diferença entre icterícia por bilirrubina direta e indireta?
A icterícia por bilirrubina indireta decorre de hemólise ou falha de conjugação (como a síndrome de Gilbert) e não causa colúria. A por bilirrubina direta vem de doença hepatocelular ou colestase, cursa com urina escura (colúria) e, na obstrução completa, com fezes claras (acolia).
Quais exames pedir na icterícia?
A investigação inicial inclui bilirrubinas fracionadas, transaminases (AST/ALT), fosfatase alcalina, GGT e ultrassom de abdome. Esse conjunto separa padrão hemolítico, hepatocelular e colestático, orientando exames complementares como sorologias virais, colangio-RM ou CPRE conforme a suspeita.
- Manual de Semiologia Médica — material recomendado do Amo Resumos para se aprofundar
- Ascite — líquido no abdome e sua relação com a hepatopatia.
- Esplenomegalia — baço aumentado, hipertensão portal e hemólise.
- Disfagia — dificuldade de engolir e o raciocínio esofágico.
Conclusão
A icterícia é um dos sinais mais ricos da clínica: partir da fração de bilirrubina, procurar colúria e acolia, ler o padrão de transaminases versus fosfatase alcalina e reconhecer a colangite são passos que resolvem a maioria das questões. Frente à icterícia, pense sempre “onde está o problema” — antes, no, ou depois do fígado.
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