O delirium é a causa mais subestimada de “idoso confuso” no pronto-socorro — e o ENAMED adora testar se você sabe separá-lo da demência. A pegadinha é simples: quando um paciente idoso fica desorientado de repente, o reflexo errado é pensar “demência” e pedir avaliação de neurologia. O delirium, na verdade, é um sinal de que existe uma doença orgânica aguda em curso, e ele é potencialmente reversível se você achar a causa.
Neste post você vai fixar o raciocínio que a prova cobra: reconhecer o delirium pelo início agudo e curso flutuante, diferenciá-lo da demência (crônica e progressiva) e da depressão (“pseudodemência”), aplicar o CAM à beira do leito e conduzir sem cometer o erro clássico de sedar o quadro com benzodiazepínico. Esse é um daqueles temas de alto rendimento no ENAMED, porque uma única questão bem montada testa reconhecimento, diagnóstico diferencial e conduta ao mesmo tempo.
- Delirium = início agudo (horas a dias), curso flutuante, alteração da atenção e da consciência; geralmente reversível.
- É sempre sintoma de doença orgânica: infecção (ITU, pneumonia), drogas, distúrbio hidroeletrolítico, dor, retenção urinária, abstinência.
- Demência = início insidioso, curso crônico e progressivo, declínio de memória com consciência preservada no início (Alzheimer é a mais comum).
- Ferramenta à beira do leito: CAM (Confusion Assessment Method).
- Conduta: achar e tratar a causa + medidas não farmacológicas; evitar benzodiazepínico (piora), exceto abstinência alcoólica.
- Não esqueça a depressão (“pseudodemência”) no diferencial do idoso confuso.
O caso que a prova monta: a idosa que “amanheceu diferente”
Mulher de 82 anos, previamente lúcida e independente, é levada ao PS pela filha porque “de ontem para hoje” ficou agitada, não reconhece os familiares e alterna momentos de sonolência com períodos de fala desconexa. A cena tem tudo o que o examinador quer: mudança brusca do estado mental, flutuação ao longo do dia e comprometimento da atenção. Esse é o retrato clássico do delirium, e não de uma demência que se instalaria ao longo de meses a anos.

O passo seguinte é entender que o delirium nunca é a doença em si — é a manifestação neuropsiquiátrica de um problema orgânico. Naquela senhora, a causa mais provável é uma infecção do trato urinário ou uma pneumonia; poderia ser também um distúrbio hidroeletrolítico, uma medicação nova (anticolinérgicos, opioides, benzodiazepínicos), dor mal controlada, retenção urinária ou constipação. Por isso, diante de um idoso agudamente confuso, o raciocínio correto é sempre “onde está a causa?”, e não “que sedativo eu dou?”.
Delirium × demência × depressão: a tabela que resolve a questão
A maioria das questões de “idoso confuso” se resolve com quatro eixos: início, curso, atenção e reversibilidade. Guarde essa matriz — ela é o coração do diagnóstico diferencial cobrado no ENAMED.
| CARACTERÍSTICA | DELIRIUM | DEMÊNCIA | DEPRESSÃO |
|---|---|---|---|
| Início | Agudo (horas a dias) | Insidioso (meses a anos) | Subagudo (semanas) |
| Curso | Flutuante (piora à noite) | Crônico e progressivo | Relativamente estável |
| Atenção | Muito comprometida | Preservada no início | Pode reduzir (desatenção) |
| Consciência | Alterada (nível oscila) | Preservada até fases tardias | Preservada |
| Memória | Prejudicada (por desatenção) | Recente > tardia (progressiva) | Queixa > déficit real (“não sei”) |
| Reversibilidade | Geralmente reversível | Irreversível (na maioria) | Reversível com tratamento |
Repare no detalhe que os elaboradores exploram: na demência inicial a consciência e a atenção estão preservadas — o que muda é a memória. Já no delirium, a marca registrada é a desatenção com nível de consciência que oscila. E a depressão do idoso (“pseudodemência”) entra na jogada quando o paciente responde “não sei” a tudo, valoriza mais a queixa do que apresenta déficit objetivo, e melhora quando o humor é tratado. Para aprofundar as condutas farmacológicas de cada cenário, vale ter à mão um material dedicado como Condutas e Prescrições em Psiquiatria, que organiza doses e escolhas de forma prática.
De onde vem o delirium: as causas que você precisa procurar ativamente
Como o delirium é sempre secundário, a conduta começa por uma varredura ativa das causas. Vale memorizar os grandes grupos, porque as questões costumam trazer uma pista escondida (a “febre + disúria”, o “iniciou opioide ontem”, o “sódio de 118”).
| GRUPO | EXEMPLOS |
|---|---|
| Infecção | ITU, pneumonia, sepse — causa nº 1 no idoso |
| Drogas / medicações | Anticolinérgicos, opioides, benzodiazepínicos, polifarmácia |
| Metabólico | Distúrbio hidroeletrolítico (Na, Ca), hipo/hiperglicemia, uremia, hipóxia |
| Desconforto físico | Dor mal controlada, retenção urinária, constipação (fecaloma) |
| Abstinência | Álcool e benzodiazepínicos (atenção: única exceção que trata com BZD) |
| Ambientais / outros | Privação de sono, contenção, pós-operatório, UTI, déficit sensorial |
À beira do leito, a ferramenta que a prova cobra é o CAM (Confusion Assessment Method). O diagnóstico exige: (1) início agudo e curso flutuante, (2) desatenção, e mais (3) pensamento desorganizado ou (4) alteração do nível de consciência. Na prática do CAM, são obrigatórios os dois primeiros critérios mais pelo menos um dos dois últimos. É rápido, não exige equipamento e transforma uma impressão clínica em diagnóstico estruturado.
“AGUDO E FLUTUA = procure a CAUSA”
Se o quadro começou de repente (AGUDO) e oscila ao longo do dia (FLUTUA), pense delirium e vá caçar a causa orgânica — não é demência, que se instala devagar e não flutua assim.
Conduta no delirium: tratar a causa vem antes de qualquer sedativo
O pilar do tratamento do delirium é identificar e tratar a doença de base: antibiótico para a infecção, correção do sódio, analgesia adequada, alívio da retenção urinária, revisão e suspensão das medicações culpadas. Paralelamente, entram as medidas não farmacológicas, que têm o maior peso na prevenção e na recuperação: reorientação frequente (relógio, calendário, presença de familiares), higiene do sono com respeito ao ciclo dia-noite, mobilização precoce, controle de dor, hidratação e restituição de óculos e aparelhos auditivos.
Sobre a farmacologia, a regra de ouro que a prova quer é: evitar benzodiazepínico, porque ele piora a confusão e prolonga o delirium — a única exceção é a abstinência alcoólica (ou de BZD), em que o benzodiazepínico é exatamente o tratamento. O antipsicótico em dose baixa (por exemplo, haloperidol em baixa dose ou um atípico) fica reservado para agitação intensa com risco de dano ao paciente ou à equipe, sempre pelo menor tempo possível e nunca como substituto de investigar a causa.
Delirium é agudo, flutuante e geralmente reversível — trate-o como um sinal de alarme de doença orgânica e vá atrás da causa. Corrigir a causa costuma resolver o quadro melhor do que qualquer medicação sintomática.
Sedar o idoso confuso com benzodiazepínico “para acalmar” é o erro clássico: o BZD piora o delirium. A única situação em que ele é a escolha certa é a abstinência alcoólica (ou de benzodiazepínico).
O que levar para a prova
Diante do idoso confuso no ENAMED, comece pela cronologia: se começou de repente e flutua, é delirium até prova em contrário — busque a causa orgânica (infecção, drogas, distúrbio hidroeletrolítico, dor, retenção, abstinência), confirme com o CAM e trate a base junto com medidas não farmacológicas. Se o quadro é lento, progressivo, com perda de memória e consciência preservada, pense demência (Alzheimer à frente); se há humor deprimido, respostas “não sei” e queixa maior que o déficit, lembre da pseudodemência depressiva. E fixe a conduta que separa quem acerta de quem erra: no delirium, nada de benzodiazepínico — salvo abstinência alcoólica — e antipsicótico em dose baixa só quando houver agitação com risco. Para revisar as prescrições com segurança, apoie-se em Condutas e Prescrições em Psiquiatria.
Condutas e Prescrições em Psiquiatria
Doses, escolhas e condutas psiquiátricas organizadas de forma prática — do delirium ao manejo do idoso agitado, pronto para consultar no plantão e na prova.



