Pneumonia (PAC) — capa Sindrômica Visual Clínica Médica

Pneumonia (PAC): CURB-65 e antibiótico

No plantão, pneumonia adquirida na comunidade (PAC) é decisão rápida e de alto impacto: o paciente fica em casa ou interna? Vai para a enfermaria ou para a UTI? Qual antibiótico empírico começar agora? Quem decora “a doença” trava; quem aplica o CURB-65 e encaixa o antibiótico ao local de tratamento resolve em minutos — e com segurança.

resumo de 30 segundos
  • Confirme a PAC: febre + tosse + dispneia/dor pleurítica + consolidação no RX (broncograma aéreo).
  • CURB-65 (1 ponto cada): Confusão · Ureia >50 · Respiração (FR) ≥30 · Blood pressure PAS<90 ou PAD≤60 · 65 anos ou mais.
  • 0–1 → ambulatorial · 2 → considerar internação · ≥3 → internar e avaliar UTI.
  • Antibiótico segue o local: casa = amoxicilina (± macrolídeo); enfermaria = betalactâmico + macrolídeo OU fluoroquinolona respiratória; UTI = betalactâmico + macrolídeo/fluoroquinolona.
  • Atípicos: jovem com RX pior que a clínica → Mycoplasma; hiponatremia + diarreia + confusão → Legionella.

O caso do plantão

Homem de 68 anos chega com tosse produtiva, febre, dispneia e dor pleurítica à direita há 3 dias. À ausculta, estertores crepitantes em base direita. Sinais: FR 32 irpm, PA 88×58 mmHg, e o acompanhante refere que ele está “mais confuso que o normal”. Exames: ureia 64 mg/dL; RX de tórax com consolidação lobar com broncograma aéreo à direita.

Antes de discutir qual germe, o protocolo já te guia: a clínica + o RX confirmam PAC. Aplicando o CURB-65 — confusão (1) + ureia >50 (1) + FR ≥30 (1) + PAS <90 (1) + idade ≥65 (1) — esse paciente soma 5 pontos. Isso não é “internar e ver depois”: é internação com avaliação imediata de UTI, antibiótico empírico precoce e ressuscitação volêmica pela hipotensão.

CURB-65 definindo o local de tratamento da pneumonia — ilustração Sindrômica Visual
CURB-65: Confusão, Ureia>50, FR≥30, PA baixa, ≥65 anos. 0–1 ambulatorial; 2 internação; ≥3 UTI.

Confirmar e classificar a gravidade

O diagnóstico de PAC é clínico + radiológico. Procure o quadro respiratório agudo e selo a consolidação na imagem:

  • Clínica: febre, tosse (seca ou produtiva), dispneia, dor pleurítica, às vezes calafrios.
  • Exame físico: estertores crepitantes, sinais de consolidação (frêmito aumentado, broncofonia, macicez à percussão).
  • RX de tórax: consolidação / opacidade alveolar com broncograma aéreo — confirma e ajuda a estimar extensão (lobar, multilobar, derrame).
  • Gravidade: não se baseia na “cara” do paciente — use o CURB-65 para objetivar a decisão de local de tratamento.

O CURB-65 passo a passo

São 5 variáveis, 1 ponto cada (0 a 5). Existe a variante CRB-65 — sem a ureia — para uso ambulatorial, quando não há laboratório à mão:

cada letra vale 1 ponto
LETRA CRITÉRIO PONTO DE CORTE
C — ConfusãoConfusão mental nova / desorientaçãoPresente = 1
U — UreiaUreia sérica elevada>50 mg/dL = 1
R — RespiraçãoFrequência respiratóriaFR ≥30 irpm = 1
B — Blood pressurePressão arterialPAS <90 ou PAD ≤60 mmHg = 1
65 — IdadeIdade do paciente≥65 anos = 1

Onde tratar e qual antibiótico

A pontuação define o local de tratamento, e o local define o esquema empírico. Comece o antibiótico precoce — não espere a cultura:

o escore aponta o local e o esquema
CURB-65 LOCAL ANTIBIÓTICO EMPÍRICO
0–1 pontoAmbulatorial (casa)Amoxicilina (± macrolídeo). Se comorbidade: betalactâmico + macrolídeo ou fluoroquinolona respiratória
2 pontosConsiderar internação (enfermaria)Betalactâmico + macrolídeo OU fluoroquinolona respiratória isolada
≥3 pontosInternação — avaliar UTIUTI: betalactâmico + macrolídeo OU betalactâmico + fluoroquinolona respiratória
Esquema de conduta — Pneumonia (PAC)
O fluxograma da conduta em um olhar.
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Quando pensar em UTI e agentes atípicos

O CURB-65 ≥3 acende o alerta, mas a indicação de UTI é refinada pelos critérios IDSA/ATS (maiores e menores). E, ao escolher o esquema, lembre dos atípicos — por isso o macrolídeo/fluoroquinolona entram na cobertura:

critérios de uti e pistas dos atípicos
ITEM DETALHE
Critérios MAIORES (IDSA/ATS)Choque séptico com vasopressor ou necessidade de ventilação mecânica → 1 maior já indica UTI
Critérios MENORESFR ≥30, PaO₂/FiO₂ ≤250, infiltrado multilobar, confusão, ureia elevada, leucopenia, plaquetopenia, hipotermia, hipotensão exigindo volume — ≥3 menores indicam UTI
Mycoplasma pneumoniaeJovem, quadro arrastado, RX pior que a clínica, tosse seca persistente
Legionella pneumophilaHiponatremia + diarreia + confusão, quadro grave; pesquisar antígeno urinário
★ mnemônico — gravidade da PAC

“CURB-65”

Confusão · Ureia >50 · Respiração (FR) ≥30 · Blood pressure (PAS<90 / PAD≤60) · 65 anos ou mais. 0–1 casa · 2 internar? · ≥3 internar + avaliar UTI.

Pérola de plantão e a armadilha clássica

💡 pérola de plantão

Legionella tem assinatura própria: pensar nela diante de hiponatremia + diarreia + confusão, geralmente em quadro grave. É um dos atípicos que exigem cobertura com macrolídeo ou fluoroquinolona respiratória — por isso esses agentes entram no esquema do paciente internado/grave. O antígeno urinário ajuda a confirmar rápido.

🚨 sinal de gravidade

Vá direto à UTI diante de choque séptico com necessidade de vasopressor ou insuficiência respiratória com necessidade de ventilação mecânica (critérios maiores IDSA/ATS — basta 1). Sem critério maior, some os menores: ≥3 também indicam cuidado intensivo. Não subestime o paciente que satura mal apesar do O₂.

⚠️ armadilha

O idoso pode ter PAC SEM febre. Muitas vezes o quadro se apresenta apenas como confusão mental, queda do estado geral ou queda da própria altura, sem o pico febril clássico. Não descarte pneumonia pela ausência de febre — peça o RX e aplique o CURB-65 mesmo assim.

O que levar para o plantão

Não decore a doença solta. Decore a sequência do plantão: (1) confirme PAC com clínica + RX; (2) aplique o CURB-65 para definir o local; (3) escolha o antibiótico empírico pelo local de tratamento; (4) refine a UTI pelos critérios maiores/menores IDSA/ATS e cubra os atípicos. Com esse fluxo, a PAC do plantão deixa de ser dúvida e vira protocolo. Para a abordagem sindrômica voltada à prova, veja Pneumonia (PAC) no ENAMED.

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Referências: Diretrizes de Pneumonia Adquirida na Comunidade — Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT, versão vigente). IDSA/ATS — Guideline on the Diagnosis and Treatment of Adults with Community-acquired Pneumonia (versão vigente). Kasper DL et al. — Medicina Interna de Harrison. Conteúdo de revisão para fins didáticos.