Pneumonias (PAC) — capa Sindrômica Visual ENAMED

Pneumonia (PAC) no ENAMED: CURB-65 e tratamento

A pneumonia adquirida na comunidade (PAC) é o tipo de tema que o ENAMED adora porque mistura clínica, raciocínio de gravidade e conduta numa só questão. Quem decora “pneumonia = antibiótico” trava na hora de decidir onde tratar e com qual esquema. Quem domina a sequência sindrômica — confirmar, estratificar gravidade e tratar — resolve a questão em segundos.

resumo de 30 segundos
  • Quadro clínico: febre, tosse produtiva, dispneia, dor pleurítica + estertores/consolidação ao exame.
  • 1ª pergunta: é pneumonia? Clínica compatível + consolidação/broncograma aéreo no RX.
  • 2ª pergunta: qual a gravidade? CURB-65 decide o local de tratamento.
  • Agente mais comum: Streptococcus pneumoniae (típica). Atípicas: Mycoplasma, Chlamydophila, Legionella.
  • Tratamento empírico varia conforme o local: ambulatorial × enfermaria × UTI.

O caso que o ENAMED adora

Homem de 68 anos, hipertenso, com febre, tosse com expectoração amarelada e dispneia há 3 dias, associadas a dor torácica que piora à inspiração (pleurítica). Ao exame: confuso, FR 32 irpm, PA 88/58 mmHg, com estertores crepitantes e frêmito toracovocal aumentado em base direita. RX de tórax: consolidação com broncograma aéreo em lobo inferior direito. Ureia 62 mg/dL.

Antes de discutir “qual antibiótico”, o raciocínio sindrômico já organiza tudo: a clínica + a consolidação no RX confirmam pneumonia; e os achados — confusão, ureia alta, FR ≥ 30, PA baixa e idade ≥ 65 — somam CURB-65 alto, gritando internação, com avaliação para UTI. A escolha do esquema é só a consequência dessa estratificação.

Pneumonia lobar com consolidação e agente bacteriano — ilustração Sindrômica Visual
A pneumonia típica: consolidação lobar com broncograma aéreo, geralmente pelo pneumococo.

Apresentação: pneumonia típica × atípica

A PAC nasce da chegada do patógeno ao alvéolo, que se enche de exsudato inflamatório — daí a consolidação que você vê no RX e ausculta como estertores crepitantes. Classicamente divide-se em dois padrões, e reconhecê-los direciona o agente provável:

  • Típica → início abrupto, febre alta, calafrios, tosse produtiva com escarro purulento, dor pleurítica, consolidação lobar bem definida. Agente clássico: Streptococcus pneumoniae (o mais comum de toda PAC).
  • Atípica → início insidioso, sintomas extrapulmonares (cefaleia, mialgia, diarreia), tosse seca, “RX pior que a clínica”. Agentes: Mycoplasma pneumoniae (jovem), Chlamydophila e Legionella (esta cursa grave, com hiponatremia, diarreia e confusão).

1ª pergunta: é pneumonia? Confirmando o diagnóstico

O diagnóstico de PAC é clínico-radiológico: sintomas/sinais compatíveis somados a um infiltrado novo no RX de tórax. Sem imagem que confirme, falamos em infecção de via aérea — não em pneumonia.

o que confirma a pneumonia
DOMÍNIO ACHADO TÍPICO OBSERVAÇÃO
SintomasFebre, tosse produtiva, dispneia, dor pleuríticaIdoso pode ter quadro frustro (ver armadilha)
Exame físicoEstertores crepitantes, sopro tubário, frêmito ↑, macicez à percussãoSíndrome de consolidação pulmonar
Radiografia de tóraxConsolidação com broncograma aéreo; pode ter derrameExame que confirma o diagnóstico
LaboratórioLeucocitose com desvio; hemograma, ureia, função renalAjuda a estimar gravidade, não fecha diagnóstico

2ª pergunta: qual a gravidade? (CURB-65)

Confirmada a pneumonia, a pergunta que define a conduta é onde tratar. O escore CURB-65 resume isso em cinco itens, cada um valendo 1 ponto. Existe a variante CRB-65 (sem a ureia), útil no ambiente ambulatorial, onde nem sempre há exame laboratorial.

curb-65 — 1 ponto por critério
LETRA CRITÉRIO DEFINIÇÃO
C — ConfusionConfusão mentalDesorientação de início recente
U — UreaUreia elevadaUreia > 50 mg/dL (~7 mmol/L; ou ureia-N > 43)
R — Respiratory rateFrequência respiratóriaFR ≥ 30 irpm
B — Blood pressurePressão arterial baixaPAS < 90 ou PAD ≤ 60 mmHg
65 — idadeIdade avançada≥ 65 anos
0–1 pontoTratamento ambulatorialBaixa mortalidade
2 pontosConsiderar internaçãoInternação ou observação curta
≥ 3 pontosInternação; considerar UTIMortalidade alta; reavaliar gravidade
Esquema de raciocínio sindrômico — Pneumonias (PAC)
A árvore de decisão da síndrome em um olhar.
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Agentes e tratamento empírico

O esquema empírico cobre o pneumococo e, conforme a gravidade/local, também os atípicos. A escolha segue diretamente o resultado do CURB-65 e a presença de comorbidades:

esquema empírico por local de tratamento
LOCAL ESQUEMA OBSERVAÇÃO
Ambulatorial (hígido)Amoxicilina ± macrolídeoSem comorbidade; cobre pneumococo
Ambulatorial (comorbidade)Betalactâmico + macrolídeo ou fluoroquinolona respiratóriaDPOC, diabetes, cardiopatia etc.
Internado (enfermaria)Betalactâmico + macrolídeo OU fluoroquinolona respiratóriaCobre típicos e atípicos
UTI (grave)Betalactâmico + macrolídeo ou betalactâmico + fluoroquinolonaNão usar fluoroquinolona isolada na UTI

Conduta inicial

A abordagem sindrômica também ordena a conduta — você age na sequência que a gravidade dita, sem perder tempo:

  1. Avaliar gravidade — aplicar CURB-65 e checar a saturação de O₂ / sinais de insuficiência respiratória.
  2. Radiografia de tórax — confirmar a consolidação e procurar complicações (derrame, multilobar).
  3. Decidir o local de tratamento — ambulatorial, enfermaria ou UTI, conforme o escore.
  4. Iniciar antibiótico precoce — não atrasar a primeira dose; escolher o esquema pelo local.
  5. Suportehidratação, oxigênio se hipoxemia e monitorização; nos graves, suporte hemodinâmico.
★ mnemônico — gravidade da PAC

“CURB-65”

Confusão · Ureia > 50 · Respiração (FR ≥ 30) · Blood pressure (PA < 90/60) · 65 anos ou mais. Cada letra = 1 ponto. 0–1 casa · 2 considerar internar · ≥ 3 internar e pensar em UTI.

Pérola de prova e a armadilha clássica

💡 pérola de prova

Legionella é a atípica que mais cai: pensa nela quando o caso traz hiponatremia + diarreia + confusão mental, frequentemente em pneumonia grave. A tríade “sódio baixo + sintomas gastrointestinais + alteração neurológica” no contexto de PAC é o gatilho clássico para Legionella pneumophila.

🚨 sinal de gravidade

Critérios de UTI. Indicam UTI os critérios maiores (IDSA/ATS): choque séptico com necessidade de vasopressor ou insuficiência respiratória com necessidade de ventilação mecânica. Vários critérios menores (FR ≥ 30, PaO₂/FiO₂ ≤ 250, infiltrado multilobar, confusão, ureia elevada, leucopenia, hipotermia, hipotensão exigindo reposição) também apontam para terapia intensiva.

⚠️ armadilha

O idoso engana. Pode ter PAC sem febre e sem o quadro respiratório clássico, manifestando apenas confusão mental, queda do estado geral ou queda mecânica. Não exigir febre para pensar em pneumonia no idoso — pedir o RX mesmo na ausência dos sintomas típicos evita o diagnóstico tardio.

O que levar para a prova

Não decore lista solta de antibióticos. Decore as duas perguntas em sequência: (1) é pneumonia? — clínica compatível + consolidação no RX; (2) qual a gravidade? — CURB-65 define o local de tratamento, e o local define o esquema empírico. Lembre que o agente mais comum é o pneumococo, que Legionella traz hiponatremia/diarreia/confusão e que o idoso pode não ter febre. Com isso, qualquer questão de PAC do ENAMED vira um exercício de estratificação — exatamente como a abordagem sindrômica foi feita para funcionar.

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Referências: Diretrizes de Pneumonia Adquirida na Comunidade — Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT, versão vigente). IDSA/ATS — Guideline de Diagnóstico e Tratamento de Adultos com Pneumonia Adquirida na Comunidade (versão vigente). Kasper DL et al. — Medicina Interna de Harrison. Conteúdo de revisão para fins didáticos.