Hipercalemia — capa Sindrômica Visual Clínica Médica

Hipercalemia: conduta no ECG, gluconato e insulina

No plantão, poucos resultados de exame mudam a sua conduta tão rápido quanto um potássio alto. A hipercalemia (ou hiperpotassemia) é o distúrbio eletrolítico que mais mata de forma silenciosa: o paciente pode estar conversando enquanto o coração caminha para uma parada. Quem domina os 3 passos — estabilizar, deslocar, remover — resolve a emergência antes de a curva virar sinusoidal.

resumo de 30 segundos
  • Hipercalemia = K⁺ > 5,5 mEq/L; grave se > 6,5 ou com alteração no ECG.
  • A primeira coisa não é o potássio — é o ECG à beira-leito. ECG alterado = emergência.
  • Passo 1 — Estabilizar: gluconato de cálcio 10% EV (protege o coração, NÃO baixa o K⁺).
  • Passo 2 — Deslocar: insulina + glicose, beta-2 inalatório, bicarbonato (se acidose).
  • Passo 3 — Remover: furosemida, resina de troca, diálise se refratário/oligúrico.

O caso do plantão

Homem de 64 anos, diabético e com doença renal crônica, chega à emergência com fraqueza muscular progressiva e palpitações. Faz uso de enalapril e espironolactona. Pressão 130×80, FC 48 bpm, irregular. O laboratório retorna: potássio 7,2 mEq/L, creatinina 4,8, ureia 160, bicarbonato 16.

Antes de qualquer droga, a conduta correta é uma só: pedir um ECG imediatamente. Enquanto o traçado é feito, você já antecipa o plano — com K⁺ de 7,2 em um renal crônico usando dois fármacos que retêm potássio, o cenário é de hipercalemia grave com risco iminente de arritmia. O ECG vai dizer se o miocárdio já está em sofrimento, e isso define se o gluconato de cálcio entra agora.

Conduta na hipercalemia: estabilizar a membrana, deslocar e remover o potássio — ilustração Sindrômica Visual
Três passos: estabilizar a membrana (gluconato de cálcio), deslocar o K+ para dentro da célula (insulina+glicose, beta-2) e removê-lo (diurético, resina, diálise).

O ECG não pode esperar

As alterações do ECG seguem uma sequência previsível conforme o potássio sobe. Elas não são todas iguais em gravidade — quanto mais para o fim da sequência, mais perto da parada. Reconheça a ordem:

  1. Onda T apiculada (em tenda) — primeira e mais precoce alteração; T alta, estreita e pontiaguda.
  2. Achatamento/desaparecimento da onda P e intervalo PR longo — a despolarização atrial começa a falhar.
  3. Alargamento do QRS — a condução ventricular se arrasta; sinal de sofrimento miocárdico avançado.
  4. Onda sinusoidal — fusão de QRS alargado com a onda T; pré-parada.
  5. Fibrilação ventricular / assistolia — parada cardíaca.

Regra de ouro do plantão: qualquer alteração no ECG já é uma emergência e indica estabilizar a membrana com cálcio AGORA, sem esperar a recoleta ou a próxima dosagem. O valor numérico do potássio orienta, mas é o ECG que dita a urgência.

Os 3 passos: estabilizar, deslocar, remover

Esta é a sequência mental que resolve a hipercalemia grave. Os três grupos têm objetivos diferentes e se somam — nunca substitua um pelo outro:

  1. ESTABILIZAR a membranaGluconato de cálcio 10%, 10–20 mL EV em 2–3 min (indicado se há alterações no ECG). Protege o miocárdio antagonizando o efeito do potássio na membrana; NÃO baixa o potássio. Início rápido (1–3 min) e duração curta (30–60 min) — pode repetir se as alterações persistirem. Cautela na intoxicação digitálica.
  2. DESLOCAR o K⁺ para dentro da célulaInsulina regular 10 U EV + glicose (ex.: 25 g = 50 mL de glicose 50%, para evitar hipoglicemia); início em 15–30 min, dura 4–6 h. Associe beta-2 inalatório (salbutamol 10–20 mg nebulizado). Use bicarbonato de sódio EV apenas se houver acidose metabólica.
  3. REMOVER o K⁺ do corpoDiurético de alça (furosemida 40–80 mg EV) se função renal e diurese preservadas. Resina de troca (poliestirenossulfonato de cálcio/sódio VO ou retal) ou quelantes mais novos. Diálise se refratário, oligúrico/anúrico ou hipercalemia grave com instabilidade.

As drogas e seus papéis

O erro mais comum é confundir o que cada droga faz. Estabilizar, deslocar e remover são três ações distintas — esta tabela amarra cada fármaco à sua função, dose e tempo de ação:

o que cada droga faz, dose e tempo
DROGA PAPEL / DOSE INÍCIO / DURAÇÃO
Gluconato de cálcio 10%ESTABILIZA a membrana; 10–20 mL EV lento. NÃO baixa o K⁺1–3 min / 30–60 min
Insulina regular + glicoseDESLOCA p/ dentro da célula; 10 U EV + glicose 25 g15–30 min / 4–6 h
Beta-2 inalatório (salbutamol)DESLOCA; 10–20 mg nebulizado (dose alta)15–30 min / 2–4 h
Bicarbonato de sódio EVDESLOCA; só se acidose metabólicavariável / horas
FurosemidaREMOVE pela urina; 40–80 mg EV (se diurese ok)~30 min / horas
Resina de troca / quelantesREMOVE pelo intestino; poliestirenossulfonato VO/retalhoras (efeito lento)
DiáliseREMOVE definitivo; refratário, oligúrico ou graveimediato / sustentado
Esquema de conduta — Hipercalemia
O fluxograma da conduta em um olhar.
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Causas e como prevenir a recorrência

Tratar a crise sem corrigir a causa é receita para a hipercalemia voltar antes da alta. Identifique o gatilho e revise a medicação — estes são os cenários que mais aparecem no plantão:

de onde vem o potássio alto
MECANISMO CAUSAS TÍPICAS COMO PREVENIR
↓ Excreção renalDRC, injúria renal aguda, oligúriaAjustar dieta, evitar nefrotóxicos, controlar a doença de base
Drogas que retêm K⁺IECA/BRA, espironolactona, AINEs, heparina, trimetoprimRevisar prescrição; suspender/ajustar e monitorar K⁺ e função renal
Saída do K⁺ da célulaAcidose metabólica, rabdomiólise, lise tumoral, hemóliseTratar acidose, hidratar, tratar a causa de destruição celular
HipoaldosteronismoInsuficiência adrenal, ATR tipo IV (nefropatia diabética)Repor mineralocorticoide se indicado; controle glicêmico
Aporte excessivoReposição EV de KCl, dieta rica, transfusão maciçaRevisar prescrições de potássio; cautela em renal crônico
★ mnemônico — a ordem que salva o paciente

“ESTABILIZAR → DESLOCAR → REMOVER”

ESTABILIZAR o coração (gluconato de cálcio) · DESLOCAR o K⁺ para dentro da célula (insulina+glicose, beta-2, bicarbonato) · REMOVER o K⁺ do corpo (furosemida, resina, diálise). Os três se somam — nunca um pelo outro.

Pérola de plantão, gravidade e a armadilha clássica

💡 pérola de plantão

O gluconato de cálcio NÃO reduz o potássio — ele apenas protege o coração, comprando tempo enquanto as outras medidas agem. Por isso, depois de estabilizar, você sempre tem que associar algo que desloca (insulina+glicose, beta-2) e algo que remove (furosemida, resina, diálise). Estabilizar sozinho deixa o paciente com o mesmo potássio alto — e o efeito do cálcio passa em menos de 1 hora.

🚨 sinal de gravidade

QRS alargado, padrão sinusoidal ou arritmia/parada indicam risco iminente de morte. Nessas alterações, não há tempo a perder: gluconato de cálcio imediato (e repita se persistir), inicie deslocamento e prepare a diálise se houver refratariedade ou anúria. K⁺ > 6,5 mEq/L ou ECG alterado = monitorização contínua e tratamento agressivo.

⚠️ armadilha

Pseudo-hipercalemia. Hemólise da amostra, garroteamento prolongado, punção difícil ou trombocitose/leucocitose extrema podem elevar o K⁺ falsamente. Se a clínica e o ECG estão normais, recolha antes de tratar. E nunca esqueça: insulina sempre com glicose — dar insulina isolada provoca hipoglicemia grave.

O que levar para o plantão

Não decore lista de drogas soltas. Decore a sequência de três ações: ao ver um potássio alto, peça o ECG — se alterado, é emergência. Então estabilize o coração com cálcio, desloque o potássio para dentro da célula com insulina+glicose e beta-2, e remova com diurético, resina ou diálise. Lembre que o cálcio não baixa o potássio, confirme a pseudo-hipercalemia quando a clínica não bate, e nunca dê insulina sem glicose. Com esse roteiro, a hipercalemia grave deixa de assustar.

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Referências: Diretrizes de distúrbios do potássio / nefrologia (versão vigente) — manejo da hipercalemia. Kasper DL et al. — Medicina Interna de Harrison. Protocolos de emergência clínica e suporte avançado de vida em arritmias por hipercalemia. Conteúdo de revisão para fins didáticos.