Cetoacidose Diabética — capa Sindrômica Visual Clínica Médica

Cetoacidose diabética: protocolo passo a passo

A cetoacidose diabética (CAD) é uma das emergências mais cobradas no plantão — e uma das que mais punem quem age na pressa. O instinto de “começar a insulina logo” pode matar o paciente por arritmia se o potássio estiver baixo. O segredo não é a insulina: é a ordem dos passos. Volume primeiro, potássio antes da insulina, insulina por último. Quem domina essa sequência conduz a CAD com segurança.

resumo de 30 segundos
  • Tríade diagnóstica: hiperglicemia (geralmente 250–600 mg/dL) + cetose/cetonúria + acidose metabólica com ânion-gap elevado (pH baixo, bicarbonato baixo).
  • Ordem do protocolo: 1º VOLUME (SF 0,9%) → 2º POTÁSSIO (checar ANTES da insulina) → 3º INSULINA regular EV 0,1 U/kg/h.
  • K+ < 3,3 → repor e ADIAR a insulina. K+ 3,3–5,2 → repor junto. K+ > 5,2 → não repor, monitorar.
  • Glicemia ~200–250 → associar soro glicosado 5% e reduzir a insulina (evita hipoglicemia e edema cerebral).
  • Sempre tratar o precipitante (infecção é o mais comum; má adesão, IAM). Bicarbonato só se pH < 6,9.

O caso do plantão

Mulher de 22 anos, diabética tipo 1, dá entrada com náuseas, vômitos, dor abdominal difusa e respiração rápida e profunda (Kussmaul) há 1 dia. Relata que ficou sem insulina por 3 dias e teve disúria nos últimos dias. Ao exame: desidratada, taquicárdica, PA 100×60, hálito cetônico. Glicemia capilar “HI”. Gasometria: pH 7,12, bicarbonato 8 mEq/L, ânion-gap 26. Cetonúria 3+. Potássio sérico 4,8.

Antes de qualquer insulina, o raciocínio de protocolo já organiza a conduta: a paciente está chocada/desidratada — então volume vem primeiro. O potássio de 4,8 (faixa 3,3–5,2) autoriza repor junto e liberar a insulina. O precipitante provável é a má adesão + ITU — que precisa ser investigado e tratado em paralelo. A sequência salva: volume → potássio → insulina.

Os 4 pilares do tratamento da cetoacidose diabética: volume, insulina, potássio e precipitante — ilustração Sindrômica Visual
A ordem importa: volume primeiro, insulina regular EV, repor potássio (a insulina baixa o K+) e tratar o precipitante.

Como confirmar a CAD

O diagnóstico não é só “glicemia alta”. A CAD exige a tríade bioquímica — sem ela, é outra coisa (descompensação simples, EHH). Confirme os três pilares:

a tríade que fecha o diagnóstico
PILAR O QUE PROCURAR EXAME
1. HiperglicemiaGeralmente 250–600 mg/dL (pode ser pouco elevada na CAD euglicêmica)Glicemia capilar e sérica
2. CetoseCetonúria ou cetonemia (beta-hidroxibutirato) positivaCetonúria / cetonemia
3. Acidose com AG altopH baixo + bicarbonato baixo + ânion-gap elevadoGasometria + eletrólitos

O protocolo passo a passo

Aqui a ordem importa — não é uma lista de coisas para fazer “ao mesmo tempo”. Siga a sequência e respeite os gatilhos do potássio:

  1. VOLUME (1º passo). Cristaloide SF 0,9% — ex.: ~1 L na 1ª hora; depois ajustar a velocidade ao status volêmico e ao sódio corrigido. A reposição volêmica sozinha já reduz a glicemia.
  2. POTÁSSIO (checar ANTES da insulina). Dosar o K+ e decidir: K+ < 3,3 → repor potássio e ADIAR a insulina; K+ 3,3–5,2 → repor junto (no soro) e liberar insulina; K+ > 5,2 → não repor inicialmente, monitorar e dosar de novo.
  3. INSULINA (3º passo). Insulina regular EV em bomba de infusão a 0,1 U/kg/h (com ou sem bólus inicial), assim que o potássio permitir. Meta de queda gradual da glicemia.
  4. Quando a glicemia chegar a ~200–250 mg/dL → associar soro glicosado 5% e reduzir a infusão de insulina, mantendo a insulina até resolver a acidose (evita hipoglicemia e edema cerebral).
  5. Tratar o PRECIPITANTE. Procurar ativamente a causa — infecção é a mais comum (rastreio: ITU, pneumonia), além de má adesão / suspensão de insulina e IAM. Tratar em paralelo.
⚠️ bicarbonato

Não use bicarbonato de rotina. Reserve apenas para pH < 6,9. A própria correção da CAD (volume + insulina) reverte a acidose; bicarbonato precoce traz risco (hipocalemia, acidose paradoxal do SNC).

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Reposição de potássio: a regra de ouro

A insulina empurra o potássio para dentro da célula. Por isso o K+ sérico inicial engana: o estoque corporal já está depletado. Checar e repor o potássio antes de liberar a insulina é o que evita a arritmia. Decore a tabela:

o potássio decide se a insulina entra
K+ SÉRICO CONDUTA INSULINA?
< 3,3 mEq/LRepor potássio agressivamente antes de tudoADIAR até K+ subir
3,3 – 5,2 mEq/LRepor potássio junto no soro de manutençãoPode iniciar
> 5,2 mEq/LNão repor inicialmente; monitorar e redosarPode iniciar
Esquema de conduta — Cetoacidose Diabética
O fluxograma da conduta em um olhar.

Critérios de resolução e transição

A CAD não está resolvida só porque a glicemia normalizou — o que se trata é a acidose. Use os critérios bioquímicos para decidir a transição para insulina subcutânea, e nunca suspenda a insulina EV sem sobreposição:

quando a cad resolveu
CRITÉRIO ALVO
Ânion-gapNormalizado (fechado)
Bicarbonato≥ 15 mEq/L
pH venoso≥ 7,3
TransiçãoInsulina SC com sobreposição à EV (manter EV por ~1–2 h após a SC)
★ mnemônico — a ordem do protocolo

“VPI: Volume → Potássio → Insulina”

Volume (SF 0,9% primeiro) · Potássio (checar e repor ANTES da insulina) · Insulina (regular EV 0,1 U/kg/h por último). Nunca inverta a ordem — a insulina sem potássio causa arritmia.

Pérola de plantão e a armadilha clássica

💡 pérola de plantão

Reponha o potássio conforme a regra. A insulina joga o K+ para dentro da célula, e o paciente com CAD já chega com o estoque corporal de potássio depletado — mesmo com K+ sérico “normal”. Hipocalemia durante o tratamento causa arritmia fatal. Checar o K+ antes da insulina não é detalhe: é o passo que mais salva.

🚨 sinal de gravidade

Vigie sempre: choque (hipotensão refratária à volemia), hipocalemia grave (risco de arritmia) e rebaixamento do nível de consciência / edema cerebral — especialmente em crianças. Qualquer um deles muda o paciente de “enfermaria” para UTI.

⚠️ armadilha

Cetoacidose euglicêmica. Em usuários de inibidores de SGLT2, a glicemia pode estar pouco elevada — e isso não exclui CAD. Se há acidose com ânion-gap alto e cetose, é CAD, mesmo com glicemia “quase normal”. Outra armadilha: em crianças, correção rápida demais (volume/osmolaridade) pode causar edema cerebral — corrija com cautela.

O que levar para o plantão

Não decore um amontoado de doses soltas. Fixe a sequência: volume com SF 0,9% primeiro, potássio checado e reposto antes de liberar a insulina, insulina regular EV a 0,1 U/kg/h por último, soro glicosado quando a glicemia chegar a ~200–250, e sempre caçar o precipitante. Resolveu = ânion-gap fechado, bicarbonato ≥ 15 e pH ≥ 7,3, com transição para SC sobreposta. Com isso na cabeça, a CAD vira um protocolo executável sob pressão — e não um campo minado. Para a abordagem voltada à prova, veja Diabetes no ENAMED: diagnóstico, CAD e EHH.

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Referências: Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes (versão vigente). American Diabetes Association — Standards of Care in Diabetes (versão vigente). Kasper DL et al. — Medicina Interna de Harrison. Conteúdo de revisão para fins didáticos.