Tipos de Choque — capa Sindrômica Visual Clínica Médica

Choque: séptico × cardiogênico × hipovolêmico

É 3h da manhã, o paciente está hipotenso, taquicárdico e mosqueado, e a pergunta do plantão não é “qual a doença” — é “que tipo de choque é esse?“. A resposta muda tudo: um precisa de volume, outro precisa de inotrópico, outro precisa de um dreno torácico na hora. Quem trata todo choque com soro corre o risco de afogar um cardiogênico. Quem entende o perfil hemodinâmico acerta a conduta antes do ecocardiograma chegar.

resumo de 30 segundos
  • Choque = hipoperfusão tecidual (não é só PA baixa): lactato ↑, oligúria, confusão, pele mosqueada.
  • 1ª pergunta à beira-leito: a extremidade está QUENTE ou FRIA?
  • Quentedistributivo (séptico, anafilático, neurogênico): RVS baixa → volume + noradrenalina.
  • Frio → hipovolêmico (volume), cardiogênico (inotrópico) ou obstrutivo (aliviar obstáculo).
  • Jugular/congestão: baixa no hipovolêmico; alta no cardiogênico e no obstrutivo.

O caso do plantão

Mulher de 68 anos chega à emergência hipotensa (PA 78/40), FC 122, sonolenta, com febre de 39 °C há 2 dias por pielonefrite. Extremidades quentes e bem perfundidas no início, lactato 4,2 mmol/L, débito urinário caindo. Mesmo após 30 mL/kg de cristaloide, mantém PA média < 65 mmHg.

Antes de qualquer exame sofisticado, o perfil já se desenha: foco infeccioso + extremidades quentes + hipotensão refratária a volume = choque distributivo séptico (vasodilatação, RVS baixa). A conduta não espera: volume + noradrenalina + antibiótico precoce e controle do foco. O ecocardiograma vem para refinar, não para começar.

Os tipos de choque: hipovolêmico, cardiogênico e distributivo/séptico — ilustração Sindrômica Visual
O perfil hemodinâmico separa: hipovolêmico (pouca volemia), cardiogênico (bomba falha), distributivo/séptico (vasodilatação).

O que é choque (e por que classificar)

Choque não é sinônimo de hipotensão: é um estado de hipoperfusão tecidual em que a oferta de oxigênio não atende à demanda celular. O paciente pode até estar com PA “limítrofe” e já estar em choque. O que denuncia a hipoperfusão são os marcadores de órgão sofrendo: lactato elevado (anaerobiose), oligúria (rim), rebaixamento/confusão (cérebro) e pele mosqueada, fria ou pegajosa (microcirculação).

Classificar importa porque a fisiopatologia dita a conduta. A pressão arterial depende de três variáveis: pré-carga (volume que chega ao coração), débito cardíaco (a bomba) e resistência vascular sistêmica — RVS (o tônus dos vasos). Cada tipo de choque “quebra” uma dessas variáveis de um jeito diferente — e o tratamento corrige exatamente o que quebrou.

Os 4 tipos pelo perfil hemodinâmico

Esta é a tabela que organiza o raciocínio. Leia sempre nesta ordem: débito cardíaco → RVS → pré-carga → temperatura da extremidade. Ela separa os quatro grandes tipos.

o mapa hemodinâmico dos 4 choques
TIPO PERFIL (DC / RVS / PRÉ-CARGA) CAUSAS TÍPICAS
HipovolêmicoDC · RVS · pré-carga ↓↓ · extremidade FRIAHemorragia, desidratação, grandes perdas (vômito/diarreia, queimadura)
CardiogênicoDC ↓↓ · RVS · pré-carga (congesto) · FRIAIAM, arritmia grave, miocardiopatia, valvopatia aguda
DistributivoDC normal ou · RVS ↓↓ · pré-carga (relativa) · extremidade QUENTESepse, anafilaxia, neurogênico (lesão medular)
ObstrutivoDC · RVS · pré-carga “alta” represada · FRIATamponamento cardíaco, TEP maciço, pneumotórax hipertensivo

Como diferenciar à beira-leito

No plantão você não tem cateter de Swan-Ganz na mão. Mas três sinais clínicos simples — temperatura da extremidade, congestão/jugular e resposta ao volume — já te colocam no ramo certo antes de qualquer exame.

3 sinais que separam os tipos
SINAL QUENTE (distributivo) FRIO (demais)
ExtremidadesQuentes, bem perfundidas, enchimento capilar rápido (no início)Frias, pálidas/mosqueadas, enchimento capilar lento
Turgência jugular / congestãoBaixa (vasodilatado, pré-carga relativa baixa)Alta no cardiogênico e obstrutivo; baixa no hipovolêmico
Resposta ao volumeMelhora parcial, mas precisa de vasopressorHipovolêmico melhora; cardiogênico/obstrutivo NÃO (ou piora)
Pista a maisFoco infeccioso, urticária/edema, trauma raquimedularB3/estertores (cardio); bulhas abafadas/turgência (tamponamento); MV abolido (pneumotórax)
Esquema de conduta — Tipos de Choque
O fluxograma da conduta em um olhar.
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A conduta de cada tipo

Acertou o tipo, a conduta vem quase pronta — cada choque corrige a variável que quebrou. Volume não é resposta universal: no cardiogênico ele pode matar.

o que fazer em cada choque
TIPO PILAR DO TRATAMENTO TRATAR A CAUSA
HipovolêmicoReposição volêmica (cristaloide; sangue se hemorrágico)Controle da perda (hemostasia, cirurgia, parar a fonte)
CardiogênicoInotrópico (dobutamina) ± vasopressor; evitar volume excessivoReperfusão no IAM, controle de arritmia, suporte (BIA/VA-ECMO se refratário)
DistributivoVolume + vasopressor (noradrenalina)Antibiótico precoce na sepse; adrenalina IM na anafilaxia
ObstrutivoAliviar a obstrução (a medida salvadora)Pericardiocentese (tamponamento), trombólise (TEP maciço), drenagem torácica (pneumotórax)
★ mnemônico — os 4 tipos de choque

“HInChODi — Hipovolêmico, Cardiogênico, Obstrutivo, Distributivo”

Hipovolêmico (falta volume) · Cardiogênico (falha a bomba) · Obstrutivo (algo bloqueia o fluxo) · Distributivo (vasos dilatam). Os 3 primeiros são choques FRIOS; o distributivo é o único QUENTE.

Pérola de plantão e a armadilha clássica

💡 pérola de plantão

A temperatura da extremidade é o atalho. Choque QUENTE = distributivo (séptico/anafilático), com vasodilatação e RVS baixa. Choque FRIO = hipovolêmico, cardiogênico ou obstrutivo, todos com vasoconstrição e RVS alta para compensar. Só de tocar a mão do paciente, você já divide o diagnóstico ao meio.

🚨 sinal de gravidade

Lactato persistentemente elevado (sem clarear com a ressuscitação), disfunção orgânica progressiva (anúria, rebaixamento, coagulopatia) e refratariedade a vasopressor (necessidade crescente de noradrenalina para manter PAM ≥ 65) marcam o choque grave/refratário. Sinalizam UTI imediata e busca ativa por causa reversível.

⚠️ armadilha

Não afogue o cardiogênico. Dar volume agressivo num choque cardiogênico (já congesto) piora o edema pulmonar e mata. Antes de “correr soro” em todo hipotenso, procure uma causa obstrutiva reversível: tamponamento (bulhas abafadas, turgência), pneumotórax hipertensivo (MV abolido, desvio de traqueia) e TEP maciço — todos têm tratamento mecânico imediato, não volume.

O que levar para o plantão

Não decore lista de causas de hipotensão. Decore o fluxo à beira-leito: (1) é choque mesmo? (lactato, oligúria, confusão, mosqueamento); (2) extremidade quente ou fria?; (3) se fria, tem congestão/jugular alta (cardiogênico/obstrutivo) ou baixa (hipovolêmico)?. Com esse perfil em mãos, a conduta se escolhe sozinha — volume no hipovolêmico, inotrópico no cardiogênico, vasopressor + causa no distributivo e alívio mecânico no obstrutivo. É assim que o raciocínio sindrômico transforma um plantão caótico em decisão rápida.

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Referências: Kasper DL et al. — Medicina Interna de Harrison. Diretrizes vigentes de choque e sepse (Surviving Sepsis Campaign, versão vigente) e de suporte avançado de vida. Conteúdo de revisão para fins didáticos.