AVE — capa Sindrômica Visual ENAMED

AVE no ENAMED: isquêmico × hemorrágico

Poucos cenários cobram tanto a lógica do ENAMED quanto o paciente que chega com um lado do corpo “parando”. A prova não pergunta “o que é AVE” — ela te dá um déficit que apareceu do nada e espera que você raciocine por síndrome até a conduta certa, contra o relógio. Quem decora doença solta hesita; quem domina a árvore sindrômica neurovascular decide trombólise ou não em segundos.

resumo de 30 segundos
  • AVE = déficit neurológico FOCAL de início SÚBITO (hemiparesia, desvio de rima, disartria/afasia, hemianopsia).
  • 1ª pergunta: é AVE? Déficit focal súbito → ative o protocolo. Glicemia capilar antes de tudo.
  • 2ª bifurcação: isquêmico ou hemorrágico? Quem responde é a TC de crânio sem contraste.
  • Isquêmico (~85%): TC normal/hipodensa → tempo é cérebro: trombólise EV até 4,5h, trombectomia até 6h (24h selecionados).
  • Hemorrágico: área hiperdensa → controle de PA, reverter anticoagulação, neurocirurgia. NÃO trombolisar.

O caso que o ENAMED adora

Homem de 68 anos, hipertenso e diabético, levado ao pronto-socorro porque há 40 minutos apresentou, de forma súbita, fraqueza no braço e na perna direitos, desvio da rima para a esquerda e fala arrastada. Estava bem ao deitar. Ao exame: PA 184/102 mmHg, glicemia capilar 138 mg/dL, hemiparesia direita grau 3 e disartria. NIHSS 9.

Antes de pensar em “qual artéria”, o raciocínio sindrômico já te entrega o caminho: déficit focal de início súbito grita síndrome neurovascular; o relógio (início bem definido, dentro da janela) e o NIHSS dizem que há tempo para reperfusão. A próxima decisão não é clínica — é radiológica: a TC vai separar isquêmico de hemorrágico e definir se ele pode ou não receber trombolítico.

AVE isquêmico (vaso ocluído) versus hemorrágico (vaso roto) — ilustração Sindrômica Visual
A TC define tudo: isquêmico (vaso entupido, ~85%) de um lado, hemorrágico (vaso roto) do outro.

Por que o déficit é súbito e focal

O cérebro não estoca energia: depende de fluxo sanguíneo contínuo de glicose e oxigênio. Quando um vaso oclui (trombo/êmbolo) ou rompe (hemorragia), o território que ele irriga perde o suprimento em segundos a minutos — por isso o déficit é súbito, e não progressivo ao longo de dias. E como cada artéria irriga uma área específica (e cada área tem uma função própria), o déficit é focal: traduz exatamente o território comprometido.

  • Território da cerebral média (o mais comum) → hemiparesia/hemi-hipoestesia contralateral, desvio de rima, afasia (se hemisfério dominante), hemianopsia.
  • Núcleo isquêmico = tecido já infartado (irrecuperável). Penumbra = tecido ao redor, hipoperfundido mas ainda viável — é o alvo da reperfusão.
  • Cada minuto de oclusão de grande vaso destrói milhões de neurônios: por isso “tempo é cérebro” e a janela terapêutica é curta.

1ª pergunta: é AVE? (déficit focal súbito)

Tudo começa aqui. Diante de um déficit neurológico focal de início súbito, presuma AVE e ative o protocolo — mas, na mesma cena, descarte os mimics que se vestem de AVE. A pergunta-chave: o quadro é realmente focal e súbito, e a glicemia está normal?

é avc ou é um imitador?
SINAL A FAVOR DE AVE PENSE EM MIMIC
InstalaçãoSúbita, déficit máximo no inícioProgressiva/migratória (aura de enxaqueca)
Tipo de déficitFOCAL: hemiparesia, desvio de rima, afasia, hemianopsiaGlobal/confusional sem foco claro
GlicemiaNormal (sempre checar capilar!)Hipoglicemia mimetiza déficit focal
Outros imitadoresCrise epiléptica (paresia de Todd), enxaqueca com aura, encefalopatia, conversão

2ª bifurcação: isquêmico × hemorrágico (a TC)

Confirmado o déficit focal súbito, a clínica não distingue com segurança isquêmico de hemorrágico. Quem responde é a TC de crânio sem contraste — exame rápido, disponível e que muda radicalmente a conduta. A pergunta é uma só: tem sangue (hiperdenso) ou não?

o que a tc sem contraste mostra
SINAL ISQUÊMICO (~85%) HEMORRÁGICO (~15%)
TC nas primeiras horasNormal ou sinais precoces sutis (perda de diferenciação)Área HIPERDENSA (sangue) já desde o início
Evolução na imagemÁrea hipodensa tardia (horas a dias)Hematoma com efeito de massa, possível inundação ventricular
Pista clínicaFibrilação atrial, aterosclerose, déficit focal “puro”HAS mal controlada, cefaleia intensa, vômitos, rebaixamento precoce
Trombólise?SIM, se dentro da janela e sem contraindicaçõesNUNCA — é contraindicação absoluta
Esquema de raciocínio sindrômico — AVE
A árvore de decisão da síndrome em um olhar.
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Tratamento por tipo

Definido o tipo na TC, os dois ramos divergem completamente. No isquêmico, o objetivo é reperfundir rápido; no hemorrágico, é conter o sangramento e proteger o cérebro.

conduta específica por ramo
FRENTE ISQUÊMICO HEMORRÁGICO
ReperfusãoTrombólise EV (alteplase/rtPA) até 4,5h do inícioContraindicada (não trombolisar)
Grande vasoTrombectomia mecânica até 6h (até 24h selecionados com mismatch)
Pressão arterialAntes de trombolisar: < 185/110 mmHg; permissiva se não for trombolisarControle mais agressivo da PA
CoagulaçãoAntiagregação após excluir sangramento (fora da janela de trombólise)Reverter anticoagulação se em uso
CirurgiaCraniectomia descompressiva no AVE maligno extensoAvaliação neurocirúrgica (hematoma, hidrocefalia)

Conduta inicial: a ordem dos primeiros minutos

O raciocínio sindrômico organiza a porta de entrada — você não pede “tudo de uma vez”, segue a sequência que decide a reperfusão dentro da janela:

  1. ABC — via aérea, ventilação e circulação; estabilize antes de qualquer coisa.
  2. Glicemia capilar — obrigatória e imediata: a hipoglicemia é o grande mimic e tem tratamento próprio.
  3. Definir o horário de início (“último momento normal”) — é ele que define a janela terapêutica.
  4. TC de crânio sem contraste urgente — separa isquêmico de hemorrágico.
  5. NIHSS — quantifica a gravidade e orienta elegibilidade à reperfusão.
  6. Definir janela e elegibilidade para trombólise/trombectomia e controlar a PA conforme o ramo (< 185/110 antes de trombolisar).
★ mnemônico — reconhecer o AVE

“FAST — face, arm, speech, time”

Face (desvio de rima) · Arm (queda do braço) · Speech (fala arrastada/afasia) · Time (anote o horário e acione o SAMU). Qualquer um deles, súbito, é AVE até prova em contrário — tempo é cérebro.

Pérola de prova e a armadilha clássica

💡 pérola de prova

SEMPRE glicemia capilar antes de tudo. A hipoglicemia é o grande mimic do AVE: pode cursar com hemiparesia e disartria idênticas a um isquêmico, mas reverte com glicose. Trombolisar um hipoglicêmico (ou deixar de tratar a hipoglicemia) é erro grave — por isso o glicosímetro vem antes da TC na cabeça do examinador.

🚨 sinal de gravidade

Rebaixamento do nível de consciência, sinais de hipertensão intracraniana (cefaleia intensa, vômitos, anisocoria, bradicardia + hipertensão) e o AVE extenso/maligno (grande infarto de cerebral média com edema) são bandeiras vermelhas: indicam deterioração iminente, herniação e necessidade de UTI/neurocirurgia urgente (inclusive craniectomia descompressiva).

⚠️ armadilha

Nem todo AVC se apresenta com déficit focal. A hemorragia subaracnóidea clássica é uma cefaleia súbita “em trovão” (thunderclap) — a pior dor de cabeça da vida — que pode não ter déficit focal. Não exclua sangramento só porque o exame neurológico é “normal”: cefaleia súbita e intensa pede TC e, se negativa com alta suspeita, punção lombar.

O que levar para a prova

Não decore lista de síndromes vasculares. Decore as perguntas em sequência: (1) é AVE? — déficit focal súbito, com glicemia capilar sempre checada; (2) isquêmico ou hemorrágico? — quem responde é a TC sem contraste; (3) está na janela? — define trombólise (até 4,5h) e trombectomia (até 6h, 24h selecionados). Com essas bifurcações e a regra “tempo é cérebro”, qualquer questão de AVE do ENAMED vira um exercício de eliminação — exatamente como a abordagem sindrômica foi feita para funcionar.

material recomendado

Fichas Sindrômicas de Clínica Médica

O caderno visual que ensina o ENAMED por síndrome, não por doença solta. Cada ficha é uma árvore de raciocínio ilustrada — icterícia, dispneia, AVE, febre e mais, do jeito que a prova cobra.

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Referências: Diretrizes de AVC — AHA/ASA (American Heart Association / American Stroke Association, versão vigente). Diretrizes da Academia Brasileira de Neurologia para o AVC isquêmico agudo (versão vigente). Linha de Cuidado em AVC — Ministério da Saúde (versões vigentes, gov.br/saude). Kasper DL et al. — Medicina Interna de Harrison. Conteúdo de revisão para fins didáticos.