Síndromes Febris — capa Sindrômica Visual ENAMED

Arboviroses no ENAMED: dengue e sinais de alarme

Poucos temas mostram tão bem a lógica do ENAMED quanto as arboviroses. Em ano de surto, a prova te entrega um paciente febril em região com Aedes aegypti e quer que você raciocine por síndrome: é arbovirose? qual delas? e — o que mais derruba candidato — tem sinais de alarme? Quem decora “dengue dá febre” se perde; quem domina a síndrome febril aguda e o momento exato em que o paciente piora resolve em segundos.

resumo de 30 segundos
  • Síndrome febril aguda + surto + vetor Aedes aegypti = pense em arbovirose.
  • Dengue tem 3 fases: febril (D1–3), crítica (D3–7, na defervescência) e recuperação.
  • A piora ocorre quando a febre CAI (defervescência), por extravasamento plasmático — não no pico febril.
  • 1ª pergunta: qual arbovirose? (dengue × chikungunya × zika × febre amarela).
  • 2ª pergunta: tem sinais de alarme? Eles definem o grupo (A/B/C/D) e a conduta.
  • NUNCA AAS/AINE — risco de sangramento. Use dipirona/paracetamol.

O caso que o ENAMED adora

Mulher de 28 anos, moradora de área com epidemia de dengue, com febre alta (39,5 °C), cefaleia intensa, dor retro-orbital, mialgia e artralgia há 3 dias, além de exantema maculopapular. No 4º dia, a febre cede — mas ela retorna ao pronto-socorro com dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes e sensação de tontura ao levantar. Exames: hematócrito subindo de 38% para 47%, plaquetas caindo para 78.000.

Antes de pensar em “qual exame confirma dengue”, o raciocínio sindrômico já entrega o caminho: o quadro febril clássico em surto aponta dengue; a queda da febre no 4º dia marca a fase crítica; e dor abdominal + vômitos + hemoconcentração com plaquetopenia são sinais de alarme. Isso a coloca no Grupo C — hidratação venosa e internação. A sorologia confirma; o raciocínio já salvou a paciente.

As três fases da dengue: febril, crítica (defervescência) e recuperação — ilustração Sindrômica Visual
A dengue piora na DEFERVESCÊNCIA (fase crítica), não no pico da febre — o momento de mais atenção.

As fases da dengue

A dengue não é um quadro estático — ela evolui em três fases, e entender a linha do tempo é o que separa quem reconhece a piora a tempo de quem manda o paciente para casa no pior momento. A vilã é a fase crítica, que surge justamente quando todo mundo acha que o paciente está melhorando.

  • Fase febril (D1–D3) → febre alta súbita, cefaleia, dor retro-orbital, mialgia/artralgia, exantema. É o quadro mais “barulhento”, mas geralmente o mais seguro.
  • Fase crítica (D3–D7, na defervescência) → a febre cai e, paradoxalmente, é AQUI que ocorre a piora. Há extravasamento plasmático (aumenta o hematócrito, caem as plaquetas), podendo levar a derrames, ascite, choque e sangramento. É a janela dos sinais de alarme.
  • Fase de recuperação → reabsorção do líquido extravasado, melhora clínica, podendo surgir exantema de recuperação (“ilhas brancas em mar vermelho”) e prurido. Atenção à hipervolemia se houve hidratação agressiva.

1ª pergunta: é arbovirose? qual?

Todas compartilham o vetor Aedes aegypti e a síndrome febril aguda, mas cada uma tem um gatilho clínico que a denuncia. A pergunta é uma só: qual sintoma domina o quadro?

qual arbovirose denuncia o quadro?
ARBOVIROSE GATILHO CLÍNICO CUIDADO ESPECIAL
DengueFebre alta + dor retro-orbital + mialgia + exantema; piora na defervescênciaSinais de alarme e choque por extravasamento plasmático
ChikungunyaArtralgia intensa e incapacitante (poliarticular, simétrica)Pode cronificar (artralgia por meses)
ZikaExantema pruriginoso + conjuntivite não purulenta; febre baixa ou ausenteGuillain-Barré e microcefalia congênita (gestante)
Febre amarelaSíndrome febril ictérico-hemorrágica; sinal de Faget (bradicardia + febre)Forma grave: hepatite, insuficiência renal, alta letalidade

2ª pergunta: tem sinais de alarme?

Esta é a pergunta que mais cai e que mais define conduta. Os sinais de alarme surgem na defervescência (queda da febre, fase crítica) e indicam extravasamento plasmático em curso. Reconhecer qualquer um deles já muda o paciente de “casa” para “hidratação venosa e internação”.

sinais de alarme da dengue
SINAL DE ALARME O QUE SIGNIFICA
Dor abdominal intensa e contínuaExtravasamento para alça/serosas; um dos primeiros a surgir
Vômitos persistentesIntolerância oral e desidratação; piora a perda volêmica
Acúmulo de líquidosAscite, derrame pleural/pericárdico — extravasamento clínico
Sangramento de mucosasGengivorragia, epistaxe, sangramento vaginal
Letargia / irritabilidadeAlteração do estado mental, hipoperfusão
Hipotensão postural / lipotimiaQueda de volume intravascular; antecede o choque
Hepatomegalia > 2 cmCongestão/comprometimento hepático
Aumento progressivo do Ht + queda de plaquetasHemoconcentração — marcador laboratorial do extravasamento
Esquema de raciocínio sindrômico — Síndromes Febris
A árvore de decisão da síndrome em um olhar.
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Classificação e estadiamento (A/B/C/D)

O Ministério da Saúde organiza o manejo em quatro grupos, definidos pela presença de sinais de alarme, comorbidades/risco e gravidade. É essa classificação que dita onde tratar e como hidratar. Lembre também da prova do laço (pesquisa de fragilidade capilar), parte da avaliação inicial.

estadiamento da dengue — grupos a/b/c/d
GRUPO QUEM É CONDUTA / LOCAL
Grupo ASEM sinais de alarme, SEM comorbidade/risco; prova do laço negativaAmbulatorial; hidratação oral, sintomáticos, retorno orientado
Grupo BSEM sinais de alarme, MAS com comorbidade/risco social ou prova do laço positiva/sangramento espontâneo de peleObservação + hemograma; hidratação oral, reavaliar
Grupo CCOM sinais de alarmeHidratação venosa (expansão) + internação; exames e reavaliação seriada
Grupo DDengue grave: choque, extravasamento importante, sangramento grave ou disfunção orgânicaUTI; expansão volêmica vigorosa, suporte e monitorização

Conduta inicial

O raciocínio sindrômico organiza o manejo: você primeiro classifica o grupo, e o grupo dita o resto. Não se trata “tudo igual” — a hidratação e o local de tratamento mudam radicalmente conforme o estadiamento.

  1. Classifique pelo grupo (A/B/C/D) — pesquise sinais de alarme, comorbidades/risco e faça a prova do laço.
  2. Hidratação conforme o estadiamento — oral nos grupos A e B; venosa nos grupos C e D (expansão).
  3. Solicite hemograma (hematócrito e plaquetas) nos grupos B, C e D — acompanhe a hemoconcentração e a plaquetopenia de forma seriada.
  4. Trate a febre/dor com dipirona ou paracetamol — e NÃO use AAS nem AINE (risco de sangramento).
  5. Reavalie de forma seriada na transição febril → defervescência, que é o momento de maior risco de piora.
  6. Notifique o caso (doença de notificação compulsória) e oriente sinais de alarme para retorno imediato.
★ mnemônico — sinais de alarme da dengue

“A barriga DÓI, VOMITA, ENCHE, SANGRA, CAI e o sangue ENGROSSA”

DÓI = dor abdominal intensa · VOMITA = vômitos persistentes · ENCHE = acúmulo de líquidos (ascite/derrame) + hepatomegalia > 2 cm · SANGRA = sangramento de mucosas · CAI = letargia/irritabilidade + hipotensão postural · ENGROSSA = Ht subindo com plaquetas caindo. Todos surgem na defervescência.

Pérola de prova e a armadilha clássica

💡 pérola de prova

A piora ocorre na DEFERVESCÊNCIA, não no pico febril. Quando a febre cai (em geral entre o 3º e o 7º dia), entra a fase crítica — é aí que o extravasamento plasmático acontece e os sinais de alarme aparecem. O paciente que “parecia melhor porque a febre baixou” é justamente o que merece mais atenção. Reconhecer esse momento é o ponto-chave que o ENAMED cobra.

🚨 sinal de gravidade

Dengue grave (Grupo D) = emergência. Caracteriza-se por choque (extravasamento plasmático importante com hipotensão e hipoperfusão), sangramento grave ou disfunção orgânica (hepática, cardíaca, neurológica). Exige UTI, expansão volêmica vigorosa e monitorização contínua. A janela para reverter o choque é curta.

⚠️ armadilha

AAS e AINE são CONTRAINDICADOS na dengue. Eles aumentam o risco de sangramento (efeito antiplaquetário/gastrolesivo) num paciente que já pode estar com plaquetopenia e extravasamento. Para febre e dor, use dipirona ou paracetamol. A questão costuma esconder a armadilha oferecendo “ibuprofeno” ou “AAS” como conduta sintomática.

O que levar para a prova

Não decore lista de arboviroses. Decore as duas perguntas em sequência: (1) qual arbovirose o quadro denuncia — dengue (dor retro-orbital), chikungunya (artralgia), zika (exantema pruriginoso + conjuntivite) ou febre amarela (ictérico-hemorrágica)? (2) na dengue, tem sinais de alarme? — eles definem o grupo A/B/C/D e a conduta. Some a isso a regra de ouro de que a piora vem na defervescência e que AAS/AINE são proibidos, e qualquer questão de síndrome febril por arbovirose do ENAMED vira um exercício de eliminação.

material recomendado

Fichas Sindrômicas de Clínica Médica

O caderno visual que ensina o ENAMED por síndrome, não por doença solta. Cada ficha é uma árvore de raciocínio ilustrada — síndrome febril, icterícia, dispneia, AVE e mais, do jeito que a prova cobra.

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Referências: Dengue: diagnóstico e manejo clínico — adulto e criança — Ministério da Saúde (versão vigente, gov.br/saude). Guia de Vigilância em Saúde — Ministério da Saúde (versão vigente, gov.br/saude). Conteúdo de revisão para fins didáticos.