As lesões por arma de fogo são um dos temas que mais rendem questão em concurso de perito legista, e a boa notícia é que o núcleo cai igual em todo o país. Dominar as lesões por arma de fogo significa ler o orifício de entrada, suas orlas e as zonas ao redor para responder três perguntas de banca: de que distância partiu o disparo, por onde o projétil entrou e por onde saiu.
Neste resumo você organiza os efeitos primários e secundários, os epônimos que a banca adora trocar (Werkgaertner, Hofmann, Benassi, Bonnet) e a tabela definitiva de entrada × saída. É conteúdo comum a praticamente todos os editais de perícia legista, não importa o estado.
- O projétil é um agente perfurocontundente: predomina a profundidade.
- Efeitos primários (orlas) vêm do projétil e independem da distância.
- Efeitos secundários (tatuagem, esfumaçamento, queimadura) vêm da pólvora e revelam a distância.
- Tatuagem = pólvora incombusta, não sai à lavagem; esfumaçamento = combusta, sai.
- As três orlas juntas formam o anel de Fisch.
- Entrada: menor, com orlas. Saída: maior, irregular, sem orlas.
Por que este tema cai em toda prova de perito
Nas lesões por arma de fogo, a lesão produzida pelo projétil é perfurocontusa: a superfície romba do projétil afasta as fibras dos tecidos, e a profundidade predomina sobre a extensão superficial. Ao redor do orifício de entrada formam-se marcas em dois grupos distintos, e é justamente essa distinção que permite ao perito estimar a distância do disparo. Entender essa lógica resolve a maioria das questões sobre lesões por arma de fogo sem decoreba pura.

Os efeitos primários são obra do próprio projétil e, por isso, independem da distância. Os efeitos secundários vêm da pólvora e dos gases que saem do cano; como esses elementos têm alcance limitado, variam com a distância. Se você quer estudar isso com prancha ilustrada e passo a passo de leitura pericial, a coleção Médico Perito Ilustrado traz o capítulo inteiro esquematizado para prova.
As orlas do orifício de entrada
Ao redor do orifício de entrada surgem quatro marcas clássicas. A auréola equimótica é a equimose local pelo rompimento de vasos superficiais. A orla de enxugo (ou de Chavigny) é a impressão das sujidades que o projétil carregava, “limpas” na borda da pele durante a passagem. A orla de contusão (ou de escoriação) é o destacamento epidérmico gerado pela passagem do projétil. Quando essas orlas coexistem ao redor do orifício, compõem o anel de Fisch, um achado que fixa o orifício como de entrada.
Além das orlas, as zonas ao redor contam a distância. A zona de tatuagem é formada por grãos de pólvora incombusta que se cravam na pele e não saem à lavagem, indicando disparo a curta distância. A zona de esfumaçamento vem da pólvora combusta (fuligem) e é facilmente removível à lavagem, motivo pelo qual é chamada de “falsa tatuagem”. A zona de queimadura resulta do calor dos gases, presente nos disparos à queima-roupa.
| MARCA | ORIGEM | SAI À LAVAGEM? |
|---|---|---|
| Orla de contusão | Passagem do projétil (efeito primário) | Não (é destacamento da pele) |
| Orla de enxugo | Sujidades limpas na borda (efeito primário) | Não é decisiva |
| Zona de tatuagem | Pólvora incombusta cravada (efeito secundário) | NÃO sai (curta distância) |
| Esfumaçamento | Fuligem / pólvora combusta (efeito secundário) | SAI (falsa tatuagem) |
Sinais de distância do disparo
A estimativa de distância é o desfecho mais cobrado quando o assunto é lesões por arma de fogo. A distância é classificada em quatro faixas: encostado (cano em contato com a pele), à queima-roupa (poucos centímetros), curta distância (alcance da pólvora) e longa distância (fora do alcance dos efeitos secundários). Quanto mais próximos e evidentes os efeitos secundários, menor a distância. Na longa distância só restam os efeitos primários, ou seja, apenas as orlas.
No tiro encostado os gases da combustão penetram junto com o projétil e produzem sinais próprios. O sinal de Werkgaertner é a impressão da boca do cano da arma sobre a pele. Sobre plano ósseo subjacente, os gases descolam os tecidos e criam uma cavidade irregular e denteada com crepitação gasosa, a chamada câmara de mina (ou boca de mina) de Hofmann. Esses dois epônimos são clássicos de banca e costumam vir trocados na alternativa errada.
“Werk = cano na pele; Hofmann = mina no osso”
Werkgaertner imprime a boca do cano (pele); a câmara de mina de Hofmann é a cavidade denteada sobre o osso, ambos no tiro encostado.
Entrada × saída: a tabela definitiva
Distinguir a entrada da saída é essencial para reconstruir a trajetória e o posicionamento de atirador e vítima. A diferença nasce da física da penetração: na entrada o projétil fura para dentro, invertendo as bordas; na saída ele empurra os tecidos para fora, evertendo-as. A presença de orlas é o sinal mais fiel do orifício de entrada.
| CARACTERÍSTICA | ENTRADA | SAÍDA |
|---|---|---|
| Diâmetro | Menor | Maior (projétil deformado, arrasta tecidos) |
| Bordas | Invertidas (para dentro) | Evertidas, irregulares |
| Orlas / zonas | Presentes | Ausentes |
| Sangramento | Menor | Maior |
| No osso | Sinal de Benassi (halo fuliginoso) | Funil de Bonnet (cone aponta o sentido) |
Dois epônimos ósseos completam a leitura. O sinal de Benassi é o halo fuliginoso na lâmina óssea no orifício de entrada. O funil de Bonnet descreve como a tábua óssea rompida primeiro tem menor diâmetro que a segunda: o osso é escavado em cone, e a abertura maior aponta o sentido do projétil. Guarde bem quem é Benassi e quem é Bonnet, porque a banca troca os dois de propósito.
Quando a entrada é oblíqua, as orlas tornam-se concêntricas e excêntricas: a orla excêntrica, mais alongada, aponta o lado de onde veio o disparo. Vale ainda separar dois termos que a banca embaralha. O trajeto é o percurso do projétil dentro do corpo; a trajetória é o percurso no espaço, do cano ao alvo. E há a lesão em sedenho, quando o projétil atravessa apenas os planos superficiais, com trajeto subcutâneo, sem alcançar cavidades profundas. São detalhes de baixo custo de memorização e alto retorno na hora da prova.
A tatuagem verdadeira não sai à lavagem porque é pólvora incombusta cravada na pele, e indica disparo a curta distância. Já o esfumaçamento (falsa tatuagem) é fuligem que sai à lavagem. Esse par é o divisor de águas na estimativa de distância.
Nunca presuma o calibre pelo tamanho do orifício. A pele é elástica e retrai, o projétil pode entrar oblíquo ou deformado, e o diâmetro do orifício não corresponde ao calibre. Estimar calibre pelo furo é erro clássico que a banca planta na alternativa.
O que levar para a prova
Fixe a lógica antes dos epônimos: efeitos primários (orlas) independem da distância; efeitos secundários (tatuagem, esfumaçamento, queimadura) revelam a distância. O anel de Fisch marca a entrada; a tatuagem que não sai à lavagem indica curta distância; a entrada é menor e com orlas, a saída maior e sem orlas. E cuidado com a armadilha do calibre. Como as lesões por arma de fogo compõem o núcleo comum da medicina legal, esse conteúdo serve para todas as provas de perito legista do país, independentemente do edital.
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