As docimásias são o coração de um dos temas mais cobrados da medicina legal: as provas periciais que respondem a uma única pergunta técnica — o recém-nascido chegou a respirar depois do parto? Entender as docimásias é o que permite ao perito afirmar (ou negar) a chamada vida extrauterina, e por isso o assunto cai em todas as provas de perito legista do país, seja qual for o estado ou o edital.
Neste resumo você vai fixar as docimásias pulmonares e extrapulmonares, a lógica da docimásia hidrostática de Galeno, as armadilhas de falso resultado e o enquadramento jurídico do infanticídio no art. 123 do Código Penal. Tudo tratado de forma técnica e respeitosa, do jeito que a banca cobra. As docimásias quase nunca faltam numa prova de perícia.
- Docimásias = provas de vida extrauterina (o recém-nascido respirou?).
- A principal é a hidrostática de Galeno: pulmão que respirou contém ar e flutua; que não respirou, afunda.
- São 4 fases; se só a 4ª for positiva, o resultado é inconclusivo.
- Putrefação gera gases e simula respiração → falso positivo. Galeno não vale isolado.
- Outras: Icard, Bouchut, Balthazard, Breslau, Puccinotti e a auricular de Wreden-Wendt.
- Infanticídio (art. 123 CP): a mãe, sob estado puerperal, mata o próprio filho durante o parto ou logo após.
Por que as docimásias existem
Antes da primeira inspiração, os pulmões nunca receberam ar: são compactos, densos e mais pesados que a água. Depois que o recém-nascido respira, o ar preenche os alvéolos e reduz a densidade do órgão. As docimásias transformam essa mudança fisiológica em algo mensurável — em regra, a flutuação em água. É uma engenhosidade centenária que continua sendo pedida nas provas de perícia justamente por integrar fisiologia, anatomia e direito penal numa só questão.

Dividimos as provas em pulmonares (avaliam o próprio pulmão) e extrapulmonares ou não pulmonares (avaliam funções que também só se instalam após o nascimento, como a deglutição de ar e o preenchimento da orelha média). O material Médico Perito Ilustrado traz esse mapa completo com ilustrações que facilitam a memorização de cada epônimo.
A docimásia hidrostática de Galeno e suas 4 fases
A docimásia hidrostática de Galeno é a mais célebre e a mais cobrada. Fundada na densidade pulmonar, deve ser realizada até cerca de 24 horas após a morte — passado esse prazo, os gases da putrefação começam a falsear o resultado. Executa-se em quatro tempos sucessivos, e a banca cobra a leitura de cada um.
| FASE | O QUE SE FAZ | LEITURA |
|---|---|---|
| 1ª | Bloco tóraco-pulmonar na água | Flutua → respirou bem |
| 2ª | Pulmões isolados | 2ª e 3ª positivas → respirou pouco |
| 3ª | Pulmões fragmentados | 2ª e 3ª positivas → respirou pouco |
| 4ª | Fragmentos comprimidos sob a água | Só a 4ª positiva → inconclusivo |
O ponto de virada é a leitura da 4ª fase isolada. A compressão sob a água serve para expulsar ar que poderia estar apenas frouxamente aprisionado no tecido; quando somente ela dá positivo, não há segurança para afirmar respiração verdadeira, e o resultado é declarado inconclusivo. É aí que entram as provas complementares.
As outras docimásias: autor, princípio e o que avaliam
Nenhuma docimásia é usada isoladamente. Cada epônimo resolve uma limitação do anterior — e é exatamente essa lógica de complementaridade que a banca adora transformar em questão. A tabela abaixo organiza as principais docimásias por autor, princípio e objeto de avaliação.
| AUTOR | PRINCÍPIO | O QUE AVALIA |
|---|---|---|
| Galeno | Hidrostática (densidade) | Flutuação pulmonar em 4 fases |
| Icard | Hidrostática (água quente) | Socorre a 4ª fase isolada, expandindo bolhas de ar |
| Bouchut | Óptica / visual | Aspecto do pulmão: hepatizado (não respirou) × mosaico (respirou) |
| Balthazard | Histológica / radiológica | Alvéolos dilatados (respirou) × colabados; distingue o putrefeito |
| Breslau | Gastrintestinal | Ar deglutido no estômago/intestino: boia (positiva) × afunda (negativa) |
| Puccinotti | Ponderal | Pulmão mais leve que o fígado = positiva |
| Wreden-Wendt (auricular) | Auricular | Ar na orelha média |
Vale detalhar: a de Icard aquece a água para expandir bolhas e resgatar o resultado inconclusivo de Galeno; a de Bouchut é a prova óptica, lida a olho nu; a de Balthazard é a histológica, a única que separa com segurança o pulmão que respirou daquele apenas alterado pela putrefação. Entre as extrapulmonares, a de Breslau avalia o ar deglutido no trato gastrintestinal, a de Puccinotti compara o peso do pulmão com o do fígado e a docimásia auricular de Wreden-Wendt investiga o ar na orelha média.
“GIBB puxa Puccinotti pela orelha”
Galeno, Icard, Bouchut, Balthazard (pulmonares) + Puccinotti (ponderal), Breslau (gastrintestinal) e a auricular (orelha) entre as extrapulmonares.
A putrefação produz gases que fazem o pulmão flutuar sem que tenha havido respiração — um falso positivo clássico. As manobras de reanimação insuflam ar artificialmente e geram o mesmo efeito. Por isso a docimásia de Galeno não vale isolada, e a histológica de Balthazard é quem distingue o pulmão realmente aerado.
Infanticídio: o art. 123 e o estado puerperal
Provada a vida extrauterina pelas docimásias, entra a pergunta jurídica: que crime é esse? O infanticídio é o art. 123 do Código Penal: “matar, sob a influência do estado puerperal, o próprio filho, durante o parto ou logo após”, com pena de detenção de dois a seis anos. É um tipo penal estreito, definido por três elementos combinados.
| ELEMENTO | INFANTICÍDIO (art. 123) | HOMICÍDIO |
|---|---|---|
| Autor | Somente a mãe (próprio) | Qualquer pessoa |
| Vítima | O próprio filho | Qualquer pessoa |
| Estado | Sob influência do estado puerperal | Não exigido |
| Tempo | Durante o parto ou logo após | Qualquer momento |
| Pena | Detenção, 2 a 6 anos | Reclusão, 6 a 20 anos |
Duas distinções fecham o tema. “Durante o parto” abrange do início do trabalho de parto até a dequitação — é esse recorte que separa o infanticídio do aborto, ocorrido antes do início do trabalho de parto. E estado puerperal não é sinônimo de puerpério: o puerpério é o período fisiológico que sucede a dequitação, enquanto o estado puerperal é a condição psíquica que a lei presume capaz de reduzir a autodeterminação da parturiente. É o segundo, e não o primeiro, que integra o tipo penal.
Não confunda infanticídio com homicídio. Se falta o estado puerperal, se o autor é um terceiro, ou se a morte ocorre fora da janela “durante o parto ou logo após”, o crime deixa de ser o do art. 123 e passa a ser homicídio. E lembre: sem prova de vida extrauterina pelas docimásias, não há infanticídio — um natimorto não pode ser morto.
O que levar para a prova
Guarde a espinha dorsal: as docimásias provam vida extrauterina, Galeno é a hidrostática de 4 fases (só a 4ª positiva = inconclusivo), Balthazard é a histológica que vence a putrefação, e o infanticídio do art. 123 exige mãe, estado puerperal e a janela do parto. Esse conjunto se repete, com pequenas variações, em todas as provas de perito legista do país — o núcleo da medicina legal é comum a qualquer edital. Domine os epônimos e as leituras de fase, porque é exatamente aí que a banca troca as palavras.
Médico Perito Ilustrado
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