
A paracoccidioidomicose é uma micose sistêmica endêmica na América Latina, causada pelo fungo Paracoccidioides brasiliensis. Adquirida por inalação, acomete tipicamente trabalhadores rurais do sexo masculino e afeta pulmões, mucosas, pele e linfonodos. Tem duas formas clínicas (aguda/juvenil e crônica/adulto) e o tratamento de base é o itraconazol.
- Micose sistêmica endêmica do Brasil e América Latina, causada por Paracoccidioides brasiliensis (e P. lutzii).
- Transmissão por inalação de conídios do solo; não há transmissão pessoa a pessoa.
- Clássico: homem, rural, lavrador, com lesões de mucosa oral (estomatite moriforme) e acometimento pulmonar.
- Duas formas: aguda/juvenil (linfonodos, fígado, baço, jovens) e crônica/adulto (pulmão e mucosas, mais comum).
- Diagnóstico: fungo em “roda de leme” (Mickey Mouse) na microscopia; tratamento com itraconazol ou anfotericina B nos graves.
O que é paracoccidioidomicose
A paracoccidioidomicose (PCM), antiga “blastomicose sul-americana”, é a micose sistêmica endêmica mais importante do Brasil e da América Latina. É causada por fungos dimórficos do gênero Paracoccidioides, principalmente P. brasiliensis e P. lutzii. Esses fungos vivem no solo na forma de micélio (com conídios infectantes) e, quando inalados e atingem a temperatura corporal, transformam-se na forma de levedura — daí o termo dimórfico. A doença concentra-se em áreas rurais de clima úmido, e o reservatório ambiental clássico está associado ao tatu.
A paracoccidioidomicose tem forte predomínio no sexo masculino (proporção que chega a 13:1 na forma crônica), porque o estrogênio inibe a transição do conídio para a forma de levedura, conferindo certa proteção às mulheres. Por isso o paciente típico é o lavrador adulto, fumante, com história de exposição ao solo.
Do ponto de vista epidemiológico, a paracoccidioidomicose é a micose sistêmica de maior importância em saúde pública no Brasil, com maior concentração de casos nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, justamente onde predominam atividades agrícolas. O período entre a infecção e o aparecimento da doença pode ser de muitos anos, já que o fungo permanece latente em focos quiescentes; a quebra desse equilíbrio costuma estar ligada a tabagismo, etilismo, desnutrição e estados de imunossupressão, incluindo a coinfecção pelo HIV, que tende a produzir formas mais graves e atípicas.
Causas e fisiopatologia
A infecção começa pela inalação de conídios presentes no solo e na poeira de regiões endêmicas. Os conídios chegam aos alvéolos, convertem-se em leveduras e, na maioria dos indivíduos imunocompetentes, são contidos formando um foco latente. A doença ativa surge quando há reativação desse foco (especialmente em imunossupressão e desnutrição) ou progressão da primoinfecção. A disseminação para mucosas, pele, linfonodos e órgãos abdominais ocorre por via linfo-hematogênica.
| FORMA | QUEM E O QUE ACOMETE |
|---|---|
| Aguda/subaguda (juvenil) | Crianças e jovens; linfonodos, fígado, baço, medula — sistema reticuloendotelial |
| Crônica (adulto) | Homens adultos rurais; pulmões, mucosa oral/nasal, pele, laringe — mais comum |
| Residual/sequelar | Fibrose pulmonar, estenose laríngea, microstomia após cura |

Sinais e sintomas
Na forma crônica (a mais comum), predominam tosse, dispneia e emagrecimento, junto com as lesões de mucosa: a clássica estomatite moriforme de Aguiar-Pupo — úlceras com pontilhado hemorrágico que lembram amora — em boca, gengiva e lábios, além de rouquidão por acometimento laríngeo. Na forma aguda/juvenil destacam-se linfadenomegalia generalizada, hepatoesplenomegalia, febre e perda de peso, sem o acometimento pulmonar proeminente do adulto.
- Mucosa: estomatite moriforme, lesões ulceradas dolorosas, rouquidão.
- Pulmão: infiltrado intersticial bilateral peri-hilar (“asa de morcego”), poupando ápices.
- Linfonodos: adenomegalia que pode fistulizar.
- Geral: emagrecimento e desnutrição importantes.
Diagnóstico
O diagnóstico de certeza é a visualização do fungo. À microscopia direta (com KOH) ou na histopatologia, a levedura aparece com múltiplos brotamentos dispostos em volta da célula-mãe, formando a imagem clássica em “roda de leme” ou em “Mickey Mouse”. A sorologia (imunodifusão dupla) é útil para diagnóstico e seguimento, pois os títulos caem com o tratamento. A cultura confirma, mas é lenta.
| MÉTODO | ACHADO / PAPEL |
|---|---|
| Micológico direto (KOH) | Levedura em roda de leme / Mickey Mouse — confirma rapidamente |
| Histopatologia | Granuloma com leveduras de múltiplos brotamentos |
| Sorologia (imunodifusão) | Diagnóstico e acompanhamento; títulos caem com a cura |
| Radiografia/TC tórax | Infiltrado bilateral peri-hilar poupando ápices |
Diferencie do pulmão da tuberculose: a paracoccidioidomicose poupa os ápices e acomete preferencialmente os campos médios e inferiores (peri-hilar, “asa de morcego”), enquanto a tuberculose tem predileção pelos ápices pulmonares.
Tratamento
O tratamento da paracoccidioidomicose é prolongado. Nos casos leves a moderados, a droga de escolha é o itraconazol, mantido por vários meses até a resposta clínica e sorológica. O sulfametoxazol-trimetoprima é alternativa, sobretudo quando há acometimento de sistema nervoso ou indisponibilidade do azol. Nas formas graves e disseminadas, inicia-se com anfotericina B e depois faz-se a manutenção com azol ou sulfa. O suporte nutricional é parte essencial do cuidado.
Sequelas e prognóstico
Mesmo com cura microbiológica, a paracoccidioidomicose pode deixar sequelas relevantes pela fibrose tecidual: a fibrose pulmonar leva à doença pulmonar obstrutiva crônica e à insuficiência respiratória, e a fibrose laríngea pode causar disfonia e estenose. No segmento orofacial, a cicatrização pode resultar em microstomia (redução da abertura bucal). Por isso o seguimento clínico e sorológico de longo prazo é fundamental: a queda dos títulos da imunodifusão sinaliza resposta, mas a interrupção precoce favorece recidiva. O prognóstico é bom nas formas leves tratadas adequadamente e reservado nas formas disseminadas com desnutrição grave.
| TEMA | O QUE LEMBRAR |
|---|---|
| Agente | Fungo dimórfico Paracoccidioides brasiliensis / P. lutzii |
| Transmissão | Inalação de conídios do solo; sem contágio interpessoal |
| Imagem na lâmina | Levedura em roda de leme / Mickey Mouse |
| 1ª linha | Itraconazol; anfotericina B nos graves |
“PARA o lavrador: Mickey na lâmina, AMORA na boca, ITRA no tratamento”
Resume o quadro: paciente rural masculino, fungo em Mickey Mouse/roda de leme, estomatite moriforme (lesão em amora) e itraconazol como base do tratamento.
Perguntas frequentes sobre Paracoccidioidomicose
O que é paracoccidioidomicose?
Paracoccidioidomicose é uma micose sistêmica endêmica da América Latina, causada pelo fungo dimórfico Paracoccidioides brasiliensis. É adquirida pela inalação de conídios do solo e acomete tipicamente trabalhadores rurais do sexo masculino, afetando pulmões, mucosas, pele e linfonodos. Não há transmissão de pessoa para pessoa.
Como é feito o diagnóstico da paracoccidioidomicose?
O diagnóstico de certeza é a visualização do fungo na microscopia direta ou na histopatologia, mostrando a levedura com múltiplos brotamentos em roda de leme, também chamada de imagem em Mickey Mouse. A sorologia por imunodifusão auxilia no diagnóstico e no acompanhamento, pois os títulos caem com o tratamento.
Qual o tratamento da paracoccidioidomicose?
O tratamento é prolongado. Nos casos leves a moderados, a droga de escolha é o itraconazol; o sulfametoxazol-trimetoprima é alternativa. Nas formas graves e disseminadas, inicia-se com anfotericina B, seguida de manutenção com azol ou sulfa. O suporte nutricional é parte importante do cuidado.
- Manual de Microbiologia — material recomendado do Amo Resumos para se aprofundar
- Adenovírus — outra infecção com acometimento respiratório
- Donovanose — infecção granulomatosa de evolução crônica
- Ausculta pulmonar — semiologia do acometimento pulmonar
Conclusão
A paracoccidioidomicose é a micose endêmica mais clássica das provas brasileiras. Decore o tripé epidemiológico (homem, rural, lavrador), os achados-chave (estomatite moriforme em amora, fungo em roda de leme/Mickey Mouse, infiltrado pulmonar que poupa ápices) e o tratamento de base com itraconazol, reservando a anfotericina B para os casos graves. Reconhecer esse padrão garante a questão.
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