As transaminases são, provavelmente, as enzimas mais cobradas do ENAMED — e as mais mal interpretadas. Quando a prova diz “TGO e TGP elevadas”, ela não quer que você decore o valor: quer que você entenda que as transaminases marcam lesão do hepatócito, e que a magnitude e a relação entre elas apontam a causa. Dominar as transaminases é o primeiro passo para ler qualquer hepatograma.
Neste post você vai entender por que a ALT é mais “do fígado” que a AST, o que significa uma elevação acima de 1000, quando pensar em doença alcoólica pela relação AST/ALT e por que as transaminases normais não descartam uma cirrose. É o tipo de raciocínio que separa quem decora de quem interpreta.
- Transaminases (aminotransferases) = marcadores de lesão/necrose do hepatócito, não de função.
- ALT (TGP) é mais específica do fígado; AST (TGO) também existe em músculo, coração e hemácias.
- > 1000: hepatite viral aguda, isquêmica (“fígado de choque”) ou tóxica (paracetamol).
- AST/ALT > 2 (com GGT alta) sugere doença hepática alcoólica.
- Predomínio de ALT → hepatite viral crônica, esteato-hepatite.
- Transaminase normal não exclui cirrose; AST isolada alta pode ser muscular (checar CK).
O caso que o ENAMED adora
Homem de 40 anos, etilista pesado, com icterícia leve e mal-estar. Exames: AST 280, ALT 110 (relação AST/ALT ≈ 2,5), GGT muito elevada. A prova pergunta a causa mais provável. As transaminases aqui não estão altíssimas, mas a relação AST/ALT > 2 somada à GGT alta e à história desenha o quadro de doença hepática alcoólica — não uma hepatite viral aguda, na qual costumamos ver ALT ainda mais alta que AST e valores bem maiores.

O que as transaminases realmente medem
AST e ALT são enzimas intracelulares: quando o hepatócito é lesado, elas vazam para o sangue. Por isso, elevação de transaminases = lesão de célula hepática, e não “fígado sem função”. A diferença entre as duas está na distribuição:
- ALT (TGP): concentrada no fígado → mais específica. ALT alta quase sempre é fígado.
- AST (TGO): além do fígado, está em músculo esquelético, coração e hemácias. AST isolada alta pode vir de miopatia, exercício intenso, IAM ou hemólise.
Magnitude e relação AST/ALT
| PADRÃO | CAUSAS TÍPICAS |
|---|---|
| Muito alta (> 1000) | Hepatite viral aguda, isquêmica (choque), tóxica (paracetamol), autoimune grave |
| Leve a moderada | Esteatose/esteato-hepatite, hepatites crônicas, medicamentosa |
| AST/ALT > 2 + GGT alta | Doença hepática alcoólica |
| ALT > AST, valores altos | Hepatite viral, esteato-hepatite não alcoólica |
Esse cruzamento entre magnitude e relação AST/ALT é uma das leituras mais rentáveis da prova — e faz parte do raciocínio laboratorial que detalhamos, exame por exame, no Guia de Interpretação de Exames do Amo Resumos.
“AST/ALT > 2 = Alcoólica”
A relação maior que 2 (com GGT alta) puxa para a doença hepática alcoólica. Já o predomínio de ALT com valores muito altos puxa para viral/tóxica.
Pérola e armadilha
Transaminases acima de 1000 restringem muito o diagnóstico: pense em hepatite viral aguda, isquêmica ou tóxica (paracetamol). Colestase e esteatose raramente chegam a esses valores.
Transaminase normal não exclui doença hepática avançada: na cirrose “queimada”, pode haver poucos hepatócitos para vazar enzima. E uma AST alta isolada pode ser muscular ou cardíaca — se a ALT estiver normal, peça CK antes de culpar o fígado.
O que levar para a prova
Leia as transaminases em três perguntas: o quanto subiu (magnitude), qual predomina (AST × ALT) e qual a relação AST/ALT. Some isso ao contexto — etilismo, drogas, choque, sorologias — e a causa aparece por eliminação. E nunca confunda lesão (transaminase) com função (albumina, TAP/INR): são eixos diferentes do mesmo fígado.
Guia de Interpretação de Exames
laboratório e imagem na prática clínica, do valor de referência à conduta — com as transaminases e todo o hepatograma explicados.



