Hemorragia Digestiva Alta no ENAMED — capa Sindrômica Visual ENAMED

Hemorragia Digestiva Alta no ENAMED: varicosa × não-varicosa

A hemorragia digestiva alta é um daqueles temas que o ENAMED adora justamente porque não basta reconhecer o sangramento: a prova quer ver você estabilizar o paciente primeiro e, só então, decidir a conduta pela bifurcação certa. Quando a questão traz hematêmese, melena ou um cirrótico chegando pálido no pronto-socorro, o segredo não é decorar doença isolada — é raciocinar por síndrome. A hemorragia digestiva alta é definida como todo sangramento originado acima do ângulo de Treitz, e esse detalhe anatômico já organiza todo o resto.

O que separa quem acerta de quem erra é entender que a hemorragia digestiva alta se divide em dois grandes ramos com condutas específicas: a varicosa (do cirrótico com hipertensão portal) e a não-varicosa (na maioria, úlcera péptica). Neste post você vai treinar o raciocínio sindrômico da hemorragia digestiva alta: reconhecer, estabilizar, classificar na bifurcação e chegar à conduta que a prova cobra.

resumo de 30 segundos
  • Sangramento acima do ângulo de Treitz: hematêmese e melena (enterorragia só se maciça e trânsito rápido).
  • Estabilização ABC vem SEMPRE primeiro: 2 acessos calibrosos, cristaloide, transfusão restritiva (alvo Hb ~7 g/dL).
  • A grande bifurcação: varicosa × não-varicosa.
  • Não-varicosa (úlcera péptica = mais comum): IBP EV + EDA nas primeiras 24h com classificação de Forrest.
  • Varicosa (cirrótico): droga vasoativa (terlipressina) + ligadura elástica + antibiótico profilático.
  • No cirrótico com HDA, antibiótico profilático reduz mortalidade — não é opcional.

O caso que o ENAMED adora

Homem, 54 anos, etilista, chega ao PS com hematêmese volumosa e uma melena que já dura dois dias. Exame: PA 88/54 mmHg, FC 118 bpm, mucosas descoradas, telangiectasias no tórax, abdome com circulação colateral e leve ascite. A tentação do aluno afobado é pensar “endoscopia já”. Errado: o primeiro passo do raciocínio sindrômico é hemodinâmica — esse paciente está em choque hemorrágico e precisa de estabilização antes de qualquer procedimento.

Repare como os estigmas de hepatopatia (telangiectasias, colateral, ascite) já empurram a probabilidade para o ramo varicoso antes mesmo da endoscopia. O raciocínio sindrômico da hemorragia digestiva alta é exatamente isso: enquanto você repõe volume, a história e o exame físico já dizem para qual bifurcação preparar a conduta. Mas a confirmação — e o tratamento definitivo — virão pela EDA.

HDA varicosa (varizes de esôfago) versus não-varicosa (úlcera péptica) — Sindrômica Visual
A grande bifurcação da HDA: varizes (cirrótico) de um lado, úlcera péptica do outro — a conduta muda.

Por que a bifurcação varicosa × não-varicosa organiza tudo

A hemorragia digestiva alta tem apresentação comum (hematêmese, “borra de café”, melena), mas dois mecanismos radicalmente diferentes por trás. Entender o mecanismo é o que define a droga certa:

  • Não-varicosa (~80-90%): lesão da mucosa/vaso de um leito de pressão normal. A causa mais comum é a úlcera péptica (relacionada a H. pylori e AINEs). O tratamento mira o pH gástrico e o vaso sangrante — daí o IBP e a hemostasia endoscópica.
  • Varicosa (~10-20%): ruptura de varizes esofágicas/gástricas num sistema de hipertensão portal. Aqui não adianta só cauterizar: é preciso reduzir a pressão portal (droga vasoativa) e ocluir a variz (ligadura). A pressão é o problema.

Por isso a primeira pergunta depois de estabilizar é sempre: “esse paciente tem cirrose/hipertensão portal?”. A resposta joga o caso em um dos dois ramos, cada um com seu pacote de conduta.

As duas bifurcações lado a lado

varicosa × não-varicosa — conduta
ITEM NÃO-VARICOSA VARICOSA
Causa típica Úlcera péptica (mais comum), Mallory-Weiss, erosões Varizes esofágicas/gástricas por hipertensão portal
Pista clínica Uso de AINE, dispepsia, sem estigmas hepáticos Cirrótico: ascite, colateral, telangiectasias, plaquetopenia
Droga-chave IBP endovenoso (ex.: omeprazol/pantoprazol) Vasoativa: terlipressina (ou octreotide/somatostatina)
Terapia endoscópica Hemostasia (térmica/clipe + injeção de adrenalina) Ligadura elástica das varizes (1ª escolha)
Antibiótico profilático Não de rotina SIM — ceftriaxona; reduz mortalidade
Ponte se falha Nova EDA / arteriografia / cirurgia Balão (Sengstaken-Blakemore) → TIPS

Na hemorragia digestiva alta não-varicosa, a EDA classifica o achado da úlcera pela escala de Forrest, que estima o risco de ressangramento e define quem precisa de hemostasia endoscópica. Guarde esta segunda tabela — ela cai em detalhe:

classificação de forrest — achado × risco
FORREST ACHADO ENDOSCÓPICO RISCO DE RESSANGRAMENTO
Ia Sangramento em jato (arterial ativo) Alto
Ib Sangramento em babação (em lençol) Alto
IIa Vaso visível não sangrante Alto
IIb Coágulo aderido Intermediário
IIc Mancha pigmentada (hematina) na base Baixo
III Base limpa, fibrina Baixo

Regra prática: Forrest Ia–IIa (alto risco) exigem terapia endoscópica; IIc–III (baixo risco) em geral só IBP e alta precoce.

Árvore de raciocínio sindrômico — Hemorragia Digestiva Alta no ENAMED
A árvore de decisão da síndrome em um olhar.

Conduta: a sequência que a prova cobra

Independente do ramo, a hemorragia digestiva alta segue uma ordem lógica. A EDA nas primeiras 24 horas é o divisor de águas — diagnostica, classifica e trata — mas nunca antes da estabilização:

  1. ABC / estabilização: vias aéreas (proteger se rebaixamento ou hematêmese maciça), 2 acessos venosos calibrosos, cristaloide, monitorização.
  2. Transfusão restritiva: concentrado de hemácias com alvo de Hb ~7 g/dL (mais liberal se coronariopata/instável). Corrigir coagulopatia se presente.
  3. Droga conforme a suspeita: IBP EV se cheiro de não-varicosa; terlipressina + ceftriaxona se cheiro de varicosa (cirrótico). Na dúvida no cirrótico, cobre os dois.
  4. EDA em até 24h: diagnóstica e terapêutica — hemostasia da úlcera (Forrest de alto risco) ou ligadura elástica das varizes.
  5. Falha/ressangramento: nova EDA; na varicosa refratária, balão como ponte e depois TIPS; na não-varicosa, arteriografia/cirurgia.

Escores de risco ajudam a triar. O Glasgow-Blatchford é feito na chegada (dados clínicos e laboratoriais, sem endoscopia) e é ótimo para identificar o paciente de baixíssimo risco que pode ir para casa. O Rockall estima mortalidade e ressangramento, com uma versão completa após a EDA. Para a prova, basta saber a lógica: Blatchford = “precisa internar/intervir?”; Rockall = “qual o prognóstico?”.

★ mnemônico

“Cirrótico sangrando? VLA: Vasoativa, Ligadura, Antibiótico.”

Na hemorragia varicosa, o tripé é Vasoativa (terlipressina), Ligadura elástica endoscópica e Antibiótico profilático (ceftriaxona). Esqueceu o antibiótico? Perdeu a questão — e, na vida real, aumentou a mortalidade.

💡 pérola de prova

No cirrótico com hemorragia digestiva alta, o antibiótico profilático (ceftriaxona) não é só para prevenir PBE: ele reduz mortalidade e ressangramento. Deve ser iniciado já na admissão, antes mesmo da endoscopia.

⚠️ armadilha

Correr para a endoscopia com o paciente instável. A questão que descreve choque quer o ABC e a reposição primeiro — endoscopia em paciente não estabilizado é resposta errada. E cuidado com o inverso: nem todo cirrótico sangra por variz — até metade tem causa não-varicosa (úlcera), por isso a EDA confirma antes do tratamento definitivo.

O que levar para a prova

Diante de qualquer hemorragia digestiva alta no ENAMED, rode o roteiro sindrômico na cabeça: (1) é sangramento acima do Treitz? (hematêmese/melena); (2) está estável? — se não, ABC e transfusão restritiva primeiro; (3) tem hipertensão portal? — isso decide varicosa × não-varicosa; (4) qual a droga e a terapia endoscópica de cada ramo; (5) EDA em 24h e o que fazer se falhar. Quem responde essas cinco perguntas na ordem certa não erra a conduta da hemorragia digestiva alta, seja ela varicosa ou não-varicosa.

material recomendado

Fichas Sindrômicas de Clínica Médica

O caderno visual que ensina o ENAMED por síndrome: cada ficha é uma árvore de raciocínio ilustrada — do jeito que a prova cobra.

Ver as Fichas →
Referências: Harrison — Medicina Interna (sangramento gastrointestinal); Sabiston — Tratado de Cirurgia; Baveno VII (consenso em hipertensão portal); diretrizes de manejo de hemorragia digestiva alta não-varicosa e varicosa. Conteúdo de revisão para fins didáticos.