DRGE, Dispepsia e H. pylori no ENAMED — capa Sindrômica Visual ENAMED

DRGE, Dispepsia e H. pylori no ENAMED: o raciocínio prático

Poucos temas de gastroenterologia caem tanto no ENAMED quanto a doença do refluxo gastroesofágico, a dispepsia e o Helicobacter pylori. A prova raramente pergunta “o que é” — ela dá um paciente com queixa alta e cobra a conduta. E aqui o segredo é o mesmo de sempre: raciocínio sindrômico. Antes de nomear a doença, você classifica o caso em bifurcações simples e a conduta cai no seu colo.

A doença do refluxo gastroesofágico se apresenta com pirose e regurgitação, e sintomas típicos permitem tratamento empírico com inibidor de bomba de prótons (IBP) sem exame nenhum. A dispepsia, por sua vez, exige que você separe primeiro quem tem sinal de alarme de quem não tem. E o H. pylori conecta tudo: úlcera péptica, câncer gástrico e linfoma MALT. Domine essas três bifurcações e você resolve praticamente qualquer questão de queixa epigástrica alta. A doença do refluxo gastroesofágico é o ponto de partida mais comum.

resumo de 30 segundos
  • DRGE típica (pirose + regurgitação, sem alarme) → IBP empírico; EDA/pHmetria só se refratário ou sinal de alarme.
  • Complicações da doença do refluxo gastroesofágico: esofagite, estenose péptica e esôfago de Barrett (metaplasia → risco de adenocarcinoma).
  • Dispepsia: a primeira pergunta é sempre “tem sinal de alarme?”. Se sim → EDA obrigatória.
  • Jovem, sem alarme → testar-e-tratar H. pylori ou IBP empírico.
  • H. pylori liga-se a úlcera péptica, câncer gástrico e linfoma MALT. Todo úlcera péptica deve ser testado.
  • Erradicação padrão: IBP + claritromicina + amoxicilina por 14 dias (resistência à claritromicina crescente).

O caso que o ENAMED adora

Homem de 34 anos, sem comorbidades, com queixa de “queimação atrás do peito” há 4 meses, que piora ao deitar após jantar e vem acompanhada de gosto ácido na boca. Nega disfagia, emagrecimento, vômitos ou sangramento. Já tomou antiácido de vez em quando com alívio parcial. Exame físico normal. A pergunta: qual a melhor conduta inicial?

Repare que você nem precisa nomear a doença ainda. O raciocínio sindrômico já filtrou: é uma queixa alta, típica (pirose + regurgitação), em jovem, sem nenhum sinal de alarme. Essa combinação tem resposta pronta — tratamento empírico com IBP e mudança de estilo de vida, sem endoscopia. Endoscopia digestiva alta aqui seria excesso. O caso vira armadilha justamente quando o candidato pede EDA “para confirmar” algo que a clínica já resolve.

DRGE (refluxo ácido) e úlcera péptica com H. pylori, e os sinais de alarme — Sindrômica Visual
Do refluxo à úlcera: a maioria é clínica, mas os sinais de alarme obrigam endoscopia.

Por que a bifurcação funciona: o mecanismo

A doença do refluxo gastroesofágico ocorre quando o conteúdo gástrico reflui para o esôfago por incompetência da barreira antirefluxo (relaxamentos transitórios do esfíncter esofágico inferior, hérnia de hiato, hipotonia do EEI). A mucosa esofágica, sem a proteção da mucosa gástrica, sofre com o ácido — daí a pirose. Quando o refluxo é volumoso e chega à faringe, aparece a regurgitação. Esses dois sintomas juntos são tão específicos que autorizam diagnóstico clínico e tratamento sem exame.

O raciocínio sindrômico da queixa epigástrica/retroesternal se organiza em três perguntas encadeadas:

  1. Tem sinal de alarme? Se sim, EDA obrigatória, independentemente da idade — pode ser neoplasia.
  2. Os sintomas são típicos de refluxo (pirose + regurgitação)? Se sim e sem alarme → trata como DRGE empiricamente com IBP.
  3. É dispepsia (dor/desconforto epigástrico, plenitude, saciedade precoce) sem alarme? Jovem → testar-e-tratar H. pylori ou IBP empírico.

As bifurcações em tabela

A tabela dos sinais de alarme é a mais cobrada de todas: memorize-a, porque ela transforma “tratar empírico” em “endoscopar já”.

sinais de alarme → EDA obrigatória
SINAL DE ALARME O QUE FAZ TEMER
Disfagia / odinofagiaEstenose péptica ou neoplasia de esôfago.
Emagrecimento não intencionalCâncer gástrico / esofágico.
Anemia / HDA (melena, hematêmese)Úlcera sangrante ou tumor.
Vômitos persistentesObstrução ao esvaziamento gástrico.
Massa palpável / adenopatiaDoença neoplásica avançada.
Idade > 45–50 anos (início recente)Aumenta risco de malignidade — baixar limiar para EDA.

A segunda tabela separa os três grandes diagnósticos que disputam a mesma queixa alta. Saber diferenciá-los pela relação da dor com a alimentação é ouro de prova.

DRGE × dispepsia funcional × úlcera péptica
EIXO DRGE DISPEPSIA FUNCIONAL ÚLCERA PÉPTICA
Sintoma-chavePirose + regurgitação.Plenitude, saciedade precoce, dor epigástrica.Dor epigástrica bem localizada.
Relação com refeiçãoPiora ao deitar / após comer.Variável, sem lesão à EDA.Ver úlcera G × D abaixo.
EDANormal ou esofagite.Normal (por definição).Úlcera visível.
Conduta inicialIBP empírico + estilo de vida.Testar-tratar H. pylori / IBP.IBP + erradicar H. pylori se +.
Árvore de raciocínio sindrômico — DRGE, Dispepsia e H. pylori no ENAMED
A árvore de decisão da síndrome em um olhar.

H. pylori, úlcera e a conduta que a prova cobra

O Helicobacter pylori é o grande vilão da queixa alta. Ele se associa a úlcera péptica (principal causa, junto com AINEs), a adenocarcinoma gástrico e ao linfoma MALT — que pode até regredir só com a erradicação da bactéria. Por isso a regra de ouro: todo paciente com úlcera péptica deve ser testado para H. pylori e tratado se positivo.

A relação da dor com a alimentação separa as duas úlceras:

  • Úlcera gástrica: dor piora com a alimentação (o alimento estimula o ácido sobre a lesão) → medo de comer, pode emagrecer. Sempre biopsiar (risco de malignidade).
  • Úlcera duodenal: dor alivia com a alimentação e volta 2–3h depois / de madrugada. Fortemente ligada ao H. pylori; raramente maligna.

Diagnóstico do H. pylori — os métodos que a prova cita: teste rápido da urease e histologia (na EDA), teste respiratório com ureia marcada e antígeno fecal (não invasivos, bons para diagnóstico e para confirmar erradicação). Lembrete: IBP e antibióticos recentes dão falso-negativo — suspender antes do teste.

  1. Confirme a indicação de erradicar: úlcera péptica, linfoma MALT, dispepsia H. pylori +, história de câncer gástrico.
  2. Esquema padrão: IBP + claritromicina + amoxicilina por 14 dias (tríplice). A resistência crescente à claritromicina vem tornando esquemas alternativos (com bismuto) cada vez mais relevantes.
  3. Confirme a cura após 4 semanas do fim do tratamento (teste respiratório ou antígeno fecal), sem IBP nos dias que antecedem.
★ mnemônico

“Gastrite Ganha peso ao jejum; Duodenal Descansa comendo”

Úlcera Gástrica: dor com o alimento (evita comer). Úlcera Duodenal: dor alivia comendo e retorna em jejum/madrugada.

💡 pérola de prova

Todo paciente com úlcera péptica deve ser testado para H. pylori — e tratado se positivo. Erradicar reduz recidiva da úlcera e é conduta obrigatória, não opcional.

⚠️ armadilha

Não trate empiricamente “para sempre”. Se há sinal de alarme (disfagia, emagrecimento, anemia, HDA, vômito persistente, idade > 45–50a), ou se o paciente é refratário ao IBP, a EDA é obrigatória — insistir em IBP às cegas pode mascarar um câncer gástrico.

O que levar para a prova

Reduza tudo a três perguntas do raciocínio sindrômico: tem sinal de alarme? (se sim, EDA já); os sintomas são típicos de refluxo? (se sim e sem alarme, IBP empírico); é úlcera ou dispepsia H. pylori +? (teste e erradique). A doença do refluxo gastroesofágico típica não precisa de endoscopia para começar o tratamento — mas o esôfago de Barrett e a esofagite lembram que o refluxo crônico tem preço. E nunca esqueça: diante de úlcera, o H. pylori é obrigatório investigar. Quem domina a doença do refluxo gastroesofágico e essas bifurcações resolve a maioria das questões de queixa alta do ENAMED sem hesitar.

material recomendado

Fichas Sindrômicas de Clínica Médica

O caderno visual que ensina o ENAMED por síndrome: cada ficha é uma árvore de raciocínio ilustrada — do jeito que a prova cobra.

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Referências: Harrison — Medicina Interna; Sabiston — Tratado de Cirurgia; Diretrizes da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG) sobre DRGE e H. pylori; American College of Gastroenterology (ACG) — guidelines de dispepsia e H. pylori. Conteúdo de revisão para fins didáticos.