Abdome agudo perfurativo no ENAMED: úlcera, pneumoperitônio e abdome em tábua — Amo Resumos

Abdome agudo perfurativo no ENAMED: úlcera, pneumoperitônio e abdome em tábua

O abdome agudo perfurativo é um dos padrões que mais aparece no ENAMED, porque junta uma história muito característica com um achado de imagem que cai direto na questão: o pneumoperitônio. Quando o examinador descreve uma dor “em punhalada”, súbita, que rapidamente vira um abdome rígido, ele está praticamente entregando o diagnóstico de abdome agudo perfurativo — e espera que você saiba que a causa clássica é a úlcera péptica perfurada e que a conduta é, em regra, cirúrgica.

Neste post você vai revisar, de forma prática, como reconhecer o abdome agudo perfurativo, entender as fases de Guedes (incluindo a traiçoeira “calma enganosa”), interpretar o pneumoperitônio no raio-X de tórax e definir a conduta. É o tipo de conteúdo que separa quem acerta de quem cai na pegadinha do período de acalmia.

resumo de 30 segundos
  • Causa clássica: úlcera péptica perfurada (também divertículo, tumor e apêndice).
  • Clínica: dor súbita, intensa, “em punhalada”, que se generaliza rápido, com abdome em tábua (rigidez involuntária = peritonite).
  • Fases de Guedes: peritonite químicacalma enganosa → peritonite bacteriana.
  • Diagnóstico: pneumoperitônio — ar livre subdiafragmático no RX de tórax em ortostase; TC é mais sensível.
  • Conduta: ressuscitação, SNG, ATB, IBP e cirurgia (rafia + patch de Graham + lavagem).
  • Pegadinha: ausência de ar livre NÃO exclui perfuração; a “acalmia” não é melhora.

O caso que o ENAMED adora

Homem de 52 anos, tabagista, usuário crônico de anti-inflamatórios por dor articular, chega ao pronto-socorro com dor epigástrica de início súbito e explosivo há 3 horas, que ele descreve como “uma facada”. Em pouco tempo a dor deixou de ser localizada e tomou todo o abdome. Ao exame, está imóvel na maca, respirando de forma superficial, e o abdome está rígido como uma tábua, doloroso à palpação em todos os quadrantes, com descompressão brusca positiva difusa. Esse é o retrato clínico do abdome agudo perfurativo por úlcera péptica perfurada.

Abdome agudo perfurativo: dor súbita, abdome em tábua e pneumoperitônio — esquema Amo Resumos
Dor súbita ‘em punhalada’ + abdome em tábua + ar livre sob o diafragma = víscera perfurada até prova em contrário.

A lógica fisiopatológica ajuda a fixar. A úlcera erode a parede do estômago ou do duodeno até romper a serosa; o conteúdo gastroduodenal — ácido, bile, enzimas e ar — jorra na cavidade peritoneal. O ácido irrita quimicamente o peritônio (peritonite química inicial) e o ar sobe para o ponto mais alto do abdome em ortostase, formando o pneumoperitônio. Antes de fechar o raciocínio, vale revisar como a úlcera péptica e outras causas se organizam num quadro — algo que as Fichas Sindrômicas de Clínica Médica resumem bem para a hora da prova.

Causas e o mecanismo da dor

Embora a úlcera péptica perfurada (gástrica ou, mais comumente, duodenal) seja o protótipo, o abdome agudo perfurativo pode nascer de qualquer víscera oca que se rompe. Fatores como AINEs, Helicobacter pylori, tabagismo e estresse fisiológico predispõem à úlcera; já perfurações de cólon costumam vir de diverticulite ou neoplasia.

causas de perfuração de víscera oca
CAUSA LOCAL TÍPICO PISTA CLÍNICA
Úlcera pépticaDuodeno / estômagoAINE, dor epigástrica prévia, dor “em punhalada”
DiverticuliteCólon sigmoideIdoso, dor em FIE, febre
NeoplasiaCólon / estômagoPerda de peso, anemia, alteração de hábito
Apendicite complicadaApêndice cecalDor migratória FID que piora e generaliza
Isquemia / traumaDelgadoFA, dor desproporcional, história de trauma

As fases de Guedes: onde mora a pegadinha

A evolução do abdome agudo perfurativo costuma ser dividida em três fases (classificação de Guedes). Entendê-las é essencial porque o intervalo entre a primeira e a terceira é justamente onde o paciente parece melhorar — e o examinador testa se você cai nessa armadilha.

fases de Guedes na perfuração
FASE TEMPO O QUE ACONTECE
1. Peritonite química0–2 hÁcido irrita o peritônio: dor súbita máxima, abdome em tábua, choque neurogênico
2. Calma enganosa2–12 hDilui-se o irritante; dor alivia parcialmente — falsa melhora
3. Peritonite bacteriana>12 hProliferação bacteriana: sepse, íleo, toxemia, piora franca

Repare: na fase 2, o paciente pode dizer que “está melhor”. Não está. O irritante químico só foi diluído pelo exsudato peritoneal, e a contaminação bacteriana está a caminho. Operar cedo, ainda na janela inicial, muda o prognóstico. Quanto mais tempo o paciente passa entre a perfuração e a cirurgia, maior a carga bacteriana na cavidade, maior a resposta inflamatória sistêmica e pior o desfecho — por isso o tempo de perfuração é um dos principais determinantes de mortalidade no abdome agudo perfurativo.

Do ponto de vista de raciocínio de prova, o exame físico costuma ser mais eloquente que qualquer exame complementar nas primeiras horas. A defesa involuntária generalizada (o abdome em tábua) traduz irritação peritoneal difusa e, por si só, já indica exploração cirúrgica na maioria dos contextos. Ruídos hidroaéreos abolidos, timpanismo hepático diminuído (pelo ar livre interposto) e dor à mobilização completam o quadro. Sinais vitais podem revelar taquicardia, hipotensão e febre conforme a evolução para sepse.

O diagnóstico: pneumoperitônio na imagem

O achado que confirma o abdome agudo perfurativo é o pneumoperitônio: ar livre na cavidade que, em ortostase, se acumula abaixo das cúpulas diafragmáticas. O exame de escolha inicial, barato e disponível, é o RX de tórax em ortostase (PA), que mostra a clássica imagem de ar livre subdiafragmático, mais visível à direita (à esquerda o fundo gástrico confunde). Se o paciente não fica em pé, faz-se RX de abdome em decúbito lateral esquerdo (com raios horizontais), que revela ar entre o fígado e a parede abdominal.

A tomografia de abdome é o método mais sensível para detectar pequenas quantidades de ar livre e ainda localiza o sítio da perfuração, sendo cada vez mais usada quando há dúvida. O laboratório mostra leucocitose com desvio, sinais de resposta inflamatória e, na evolução, marcadores de sepse.

★ mnemônico

“PERFUROU: Punhalada, Enrijeceu (tábua), RX de tórax, Fases enganam, Urgência cirúrgica, Rafia + patch”

A frase amarra os pilares: dor em punhalada, abdome em tábua, pneumoperitônio no RX de tórax em pé, as três fases de Guedes e a conduta cirúrgica com rafia e patch de Graham.

Conduta: por que a resposta é cirurgia

O abdome agudo perfurativo com peritonite é uma emergência cirúrgica. Antes do bloco, estabiliza-se o paciente: ressuscitação volêmica, sonda nasogástrica (descompressão e redução do extravasamento), antibioticoterapia de amplo espectro, analgesia e inibidor de bomba de prótons (IBP) quando a causa é péptica.

A cirurgia clássica na úlcera perfurada é a rafia simples da perfuração reforçada com patch (retalho) de omento — o patch de Graham — associada à lavagem exaustiva da cavidade. O tratamento definitivo da doença ulcerosa (erradicação de H. pylori, IBP) é conduzido depois. O tratamento conservador (sem operar) fica reservado a casos muito selecionados — perfuração já bloqueada/tamponada, sem sinais de peritonite difusa e com paciente estável e monitorizado.

💡 pérola de prova

O RX de tórax em ortostase é excelente para flagrar pneumoperitônio — melhor até que o RX de abdome deitado. Mas atenção: ausência de ar livre NÃO exclui perfuração. Se a clínica grita perfuração, a próxima etapa é TC ou a própria laparotomia, não observar.

⚠️ armadilha

O período de acalmia engana. Se a questão descreve alívio da dor algumas horas após um quadro explosivo, isso não é melhora — é a fase 2 de Guedes, antessala da peritonite bacteriana. Adiar a cirurgia nesse momento é o erro que a prova quer punir.

O que levar para a prova

Fixe o roteiro: dor súbita “em punhalada” + abdome em tábua = suspeita de abdome agudo perfurativo, cuja causa clássica é a úlcera péptica perfurada. Confirme com pneumoperitônio no RX de tórax em ortostase (ou TC, mais sensível), lembre que a acalmia é traiçoeira e que a conduta é cirúrgica (rafia + patch de Graham + lavagem), com conservador só em casos bloqueados e selecionados. Dominar esse padrão sindrômico rende pontos garantidos, e materiais organizados como as Fichas Sindrômicas de Clínica Médica ajudam a fechar o raciocínio na velocidade que a prova exige.

material recomendado

Fichas Sindrômicas de Clínica Médica

Raciocínio sindrômico direto ao ponto para o ENAMED: abdome agudo, dor torácica, dispneia e muito mais em fichas revisáveis.

Ver o material →
Referências: Townsend CM et al. Sabiston — Tratado de Cirurgia. Elsevier. / Brunicardi FC et al. Schwartz’s Principles of Surgery. McGraw-Hill. / WSES Guidelines for perforated peptic ulcer. Conteúdo de revisão para fins didáticos.