O abdome agudo obstrutivo é um dos cenários mais cobrados na prova, e o abdome agudo obstrutivo vive de padrões: dor em cólica, distensão, vômitos e parada de eliminação de gases e fezes. Quem domina esse quarteto e sabe separar delgado de cólon resolve a maioria das questões sem hesitar. No ENAMED, o abdome agudo obstrutivo aparece pedindo que você identifique a causa mais provável pelo contexto (operado? idoso? hérnia?) e decida entre conduta conservadora e cirurgia.
A boa notícia é que o raciocínio é bastante mecânico. A obstrução interrompe o trânsito intestinal; a montante, o intestino distende, luta e depois se cansa. Entender essa fisiologia simples permite prever o quadro clínico, a imagem e o risco de isquemia. Vamos organizar tudo em blocos práticos, do reconhecimento até a decisão terapêutica.
- Quarteto clássico: dor em cólica, distensão, vômitos e parada de eliminação de gases e fezes.
- Delgado: bridas (nº1 em operados) e hérnias (nº1 em não operados). Cólon: neoplasia (principal) e volvo de sigmoide.
- Vômitos precoces e biliosos na obstrução alta; tardios e fecaloides na baixa.
- RX: alças dilatadas, níveis hidroaéreos, “empilhamento de moedas” no delgado; TC define nível de transição e sofrimento de alça.
- Conduta: “drip and suck” (SNG + hidratação). Brida parcial → conservador; estrangulamento, alça fechada ou obstrução total → cirurgia.
Reconhecendo o quadro: o quarteto que não falha
Pense num paciente com laparotomia prévia que chega com dor abdominal em cólica, ondas que vêm e vão acompanhando o peristaltismo de luta. Somam-se distensão progressiva, vômitos e ausência de eliminação de gases e fezes. Essa combinação define a obstrução mecânica. A localização do bloqueio muda os detalhes: na obstrução alta de delgado, os vômitos são precoces e biliosos, e a distensão é discreta; na obstrução baixa (delgado distal ou cólon), os vômitos são tardios e podem se tornar fecaloides, com distensão importante.

À ausculta, o achado evolui no tempo. No início há ruídos hidroaéreos aumentados, metálicos, timbrados — o intestino tentando vencer o obstáculo. Se o quadro se prolonga ou a alça sofre isquemia, os ruídos se tornam abolidos. Esse detalhe caiu muito: RHA aumentados sugerem obstrução mecânica em atividade; RHA abolidos apontam para exaustão da alça ou para íleo paralítico (obstrução funcional), no qual não há barreira mecânica e sim parada da motilidade — típico do pós-operatório, distúrbios eletrolíticos e peritonite. Para consolidar esse raciocínio e treinar o reconhecimento rápido do padrão, vale apoiar-se nas Fichas Sindrômicas de Clínica Médica, que esquematizam as síndromes abdominais para a prova.
Causas por segmento: delgado versus cólon
Aqui mora o coração das questões. A causa mais provável muda conforme o segmento e o passado do paciente. No delgado, as bridas/aderências são a principal causa em quem já operou, e as hérnias encabeçam a lista em quem nunca foi ao bloco. Ainda no delgado, lembre de intussuscepção (em adultos, pensar em tumor como cabeça de invaginação) e neoplasias. No cólon, a neoplasia é a causa mais comum, seguida do volvo de sigmoide (idoso, acamado, constipado crônico, com a clássica imagem em “grão de café” na radiografia) e do fecaloma.
| CARACTERÍSTICA | DELGADO | CÓLON |
|---|---|---|
| Causa nº1 | Bridas (operado) / hérnia (não operado) | Neoplasia; depois volvo de sigmoide |
| Vômitos | Precoces, biliosos (obstrução alta) | Tardios, fecaloides |
| Distensão | Discreta a moderada | Acentuada |
| Imagem (RX) | Alças centrais, “empilhamento de moedas” | Distensão periférica; “grão de café” no volvo |
| Instalação | Mais rápida | Mais insidiosa (tumor) |
Imagem: o que a radiografia e a TC entregam
A radiografia simples de abdome (em pé e deitado) ainda é o primeiro passo em muitos serviços: mostra alças dilatadas, níveis hidroaéreos em degraus e o padrão de distribuição. No delgado, as válvulas coniventes atravessam toda a luz e geram o aspecto de “empilhamento de moedas”, com alças mais centrais. No cólon, as haustrações são incompletas e a distensão é periférica; o volvo de sigmoide desenha a alça em “grão de café” apontando para o quadrante superior. A tomografia de abdome com contraste é hoje o exame mais informativo: define o nível de transição (ponto entre alça dilatada e alça colabada), sugere a etiologia e, crucialmente, procura sinais de sofrimento de alça — pneumatose intestinal, gás portal, redução do realce parietal e líquido livre. Esses sinais mudam a conduta imediatamente.
Mecânica versus funcional
Nem toda parada de trânsito é obstrução mecânica. O íleo paralítico (obstrução funcional) cursa com distensão e parada de eliminação, mas sem barreira física: a peristalse simplesmente cessa. Distingue-se pela ausência de nível de transição na TC, pela distensão difusa (incluindo cólon e reto com gás) e por RHA reduzidos ou ausentes desde o início. O contexto ajuda: pós-operatório recente, distúrbios de potássio e magnésio, sepse e opioides. Confundir os dois leva a indicar cirurgia desnecessária num íleo, que se resolve com suporte e correção da causa de base.
“CDVP: Cólica, Distensão, Vômito, Parada.”
O quarteto da obstrução mecânica. Se os RHA estão aumentados e metálicos, o intestino ainda “luta”; se abolidos, desconfie de exaustão ou isquemia da alça.
Conduta: quando esperar e quando operar
O suporte inicial é universal e resume-se ao “drip and suck”: sonda nasogástrica para descompressão, hidratação venosa e correção dos distúrbios hidroeletrolíticos e ácido-básicos. A partir daí, a decisão depende do tipo de obstrução e dos sinais de gravidade. A obstrução parcial por brida, sem sinais de sofrimento, é a situação mais favorável ao tratamento conservador inicial, com boa taxa de resolução espontânea nas primeiras 24-48 horas. Já a presença de estrangulamento, peritonite, obstrução total ou alça fechada indica cirurgia sem postergar.
| CENÁRIO | CONDUTA |
|---|---|
| Brida, obstrução parcial, sem sofrimento | Conservador: SNG, hidratação, reavaliação seriada |
| Hérnia encarcerada/estrangulada | Cirurgia (redução + correção do defeito) |
| Sinais de estrangulamento / peritonite | Laparotomia de urgência |
| Obstrução total ou alça fechada | Cirurgia (alto risco de isquemia) |
| Volvo de sigmoide sem sofrimento | Descompressão endoscópica + sigmoidectomia eletiva |
Uma observação importante sobre a hérnia: diante de uma hérnia encarcerada com sinais de estrangulamento, não se insiste em redução manual prolongada nem se adia a abordagem — o risco de necrose intestinal é alto. No volvo de sigmoide sem sinais de sofrimento, a descompressão endoscópica resolve o quadro agudo, mas a alta recidiva justifica a sigmoidectomia eletiva na mesma internação.
Brida em paciente operado merece tentativa de tratamento conservador; hérnia estrangulada vai para a mesa. Guarde essa dupla: ela decide a maioria das questões de conduta em obstrução de delgado.
Não perca os sinais de isquemia/estrangulamento: dor contínua e intensa (perde o caráter em cólica), taquicardia, febre, acidose metabólica com lactato elevado e leucocitose. Insistir no conservador nesse cenário custa a alça — e a prova pune.
O que levar para a prova
O abdome agudo obstrutivo se resolve com três perguntas: qual o quarteto (cólica, distensão, vômitos, parada de eliminação)? é delgado ou cólon, e por qual causa (brida, hérnia, neoplasia, volvo)? há sinais de sofrimento de alça que obriguem a operar? Ancore a imagem (níveis hidroaéreos, “empilhamento de moedas”, “grão de café”, nível de transição na TC) e a regra de ouro da conduta — suporte para todos, conservador para a brida parcial, cirurgia para estrangulamento, alça fechada e obstrução total. Com esse esqueleto, o abdome agudo obstrutivo deixa de ser sorte e vira método.
Fichas Sindrômicas de Clínica Médica
As síndromes abdominais e clínicas esquematizadas do jeito que a prova cobra: reconhecimento rápido, causas por contexto e conduta objetiva.



