As emergências psiquiátricas estão entre os temas mais cobrados no ENAMED porque testam se você sabe agir rápido sem perder o cuidado com a pessoa à sua frente. Duas situações concentram a maioria das questões: o risco de suicídio e a agitação psicomotora. Em ambas, a prova quer ver raciocínio clínico, prioridade de segurança e condutas escalonadas — não decoreba solta.
Antes de qualquer conduta, vale lembrar do essencial: nessas situações, acolher é parte do tratamento. A escuta atenta, o ambiente seguro e a avaliação direta do sofrimento salvam vidas. Vamos organizar o que realmente cai, sempre com foco em proteger a pessoa.
- Perguntar sobre suicídio NÃO induz ao ato — é o maior mito a derrubar. Avalie de forma direta e acolhedora.
- Investigue sempre ideação, plano, meios e intenção; tentativa prévia é o fator de risco mais forte.
- Conduta por gravidade: garantir segurança, remover meios, acompanhar e internar se risco alto.
- Agitação é escalonada: 1) desescalonamento verbal, 2) contenção química, 3) contenção física só em último recurso.
- Sempre excluir causa orgânica (delirium, hipoglicemia, intoxicação) e monitorar quem está contido.
- Em sofrimento, CVV — ligue 188: apoio emocional gratuito, 24h.
Risco de suicídio: perguntar é proteger
Entre as emergências psiquiátricas, essa é a que mais gera insegurança. O ponto que mais derruba candidato — e que a banca adora — é o medo de perguntar. Grave: perguntar diretamente sobre ideação suicida não aumenta o risco. Pelo contrário, abre espaço para a pessoa falar de algo que muitas vezes carrega sozinha. Nas emergências psiquiátricas, a avaliação começa por uma conversa honesta e sem julgamento.

A avaliação segue uma progressão lógica. Primeiro, a ideação: pensamentos de que a vida não vale a pena ou de morrer. Depois, a intenção: o quanto a pessoa deseja agir. Em seguida, o plano: se há algo estruturado. E, por fim, os meios: se há acesso a formas de se ferir. Quanto mais estruturado o plano e mais disponível o meio, maior a gravidade. Não é preciso — nem recomendável — detalhar métodos; o que importa é dimensionar o risco para decidir a conduta.
Como fazer isso na prática, sem constrangimento? Comece por perguntas mais amplas e vá aprofundando conforme a pessoa se abre. Algo como “Você tem se sentido muito triste ou sem esperança nos últimos tempos?” já convida ao diálogo. Se houver abertura, pergunte se ela chegou a pensar que não valeria a pena viver e, então, se pensou em fazer algo a respeito. Esse cuidado gradual transmite acolhimento e mostra que você está ali para ajudar, não para julgar. Nas emergências psiquiátricas, o vínculo construído nos primeiros minutos costuma ser o fator que mais influencia a adesão à conduta proposta.
Ao lado disso, você pesa os fatores de risco. Uma boa síntese está em materiais objetivos como o Condutas e Prescrições em Psiquiatria, que organiza avaliação e manejo em fluxos práticos para a beira do leito.
| DOMÍNIO | FATORES | PESO |
|---|---|---|
| História | Tentativa prévia; ato recente | Muito alto (o mais forte) |
| Psiquiátrico | Depressão, transtorno bipolar, psicose; desesperança | Alto |
| Uso de substância | Álcool e outras drogas (impulsividade) | Alto |
| Sociodemográfico | Homem, idoso, isolamento social, luto/perdas | Moderado a alto |
| Clínico | Doença crônica, dor, incapacidade | Moderado |
| Acesso a meios | Disponibilidade de formas de se ferir | Modulador crítico |
A conduta acompanha a gravidade. Em risco baixo, sem plano nem intenção, é possível manter acompanhamento ambulatorial próximo, acionar a rede de apoio e reavaliar. Em risco moderado, reforça-se a segurança, remove-se o acesso aos meios, envolve-se a família e garante-se seguimento rápido. Em risco alto — plano estruturado, intenção forte, meios disponíveis, agitação ou psicose — a pessoa não deve ficar sozinha, e a internação (mesmo involuntária, quando indicada) protege a vida. Em qualquer nível, remover meios e não deixar a pessoa desassistida são medidas universais.
Agitação psicomotora: manejo escalonado
A agitação é a outra grande estrela das emergências psiquiátricas no ENAMED. A lógica é sempre a mesma: começar pelo menos restritivo e subir só se necessário. E, antes de tudo, excluir causa orgânica — delirium, hipoglicemia, hipóxia, intoxicação ou abstinência podem se manifestar como agitação e mudam completamente a conduta.
Pense num paciente idoso, trazido confuso e inquieto de madrugada, com desorientação flutuante e atenção prejudicada: isso é delirium até prova em contrário, e a prioridade passa a ser identificar e tratar a causa de base (infecção, distúrbio metabólico, medicação). Sedar sem investigar mascara o quadro e adia o diagnóstico. Por isso, glicemia capilar, sinais vitais, saturação e uma história rápida sobre uso de substâncias caminham em paralelo com qualquer medida de contenção. O objetivo do desescalonamento verbal, sempre a primeira linha, é reduzir a tensão: fale devagar, ofereça escolhas simples, respeite o espaço pessoal e reconheça o sofrimento da pessoa. Muitas crises se resolvem só com isso.
| PASSO | O QUE FAZER | QUANDO |
|---|---|---|
| 1. Verbal + ambiente | Desescalonamento verbal, tom calmo, ambiente seguro, retirar objetos de risco | Sempre, primeiro |
| 2. Contenção química | Antipsicótico (ex.: haloperidol) ± benzodiazepínico; atípico IM (ex.: olanzapina, ziprasidona) | Verbal insuficiente |
| 3. Contenção física | Último recurso, equipe treinada, tempo mínimo, sempre com monitorização | Risco iminente e falha das etapas anteriores |
| Paralelo | Excluir causa orgânica; glicemia, sinais vitais, história de substâncias | Desde o início |
Na contenção química, o clássico é o haloperidol, muitas vezes associado a um benzodiazepínico quando há grande ansiedade ou suspeita de abstinência alcoólica; os antipsicóticos atípicos IM são boas alternativas, com bom perfil de tolerabilidade. Fique atento às complicações que a banca cobra: síndrome neuroléptica maligna (rigidez, hipertermia, disautonomia, CK elevada) com antipsicóticos e síndrome serotoninérgica (agitação, clônus, hiperreflexia) com serotoninérgicos. Diferenciar as duas é questão certa.
“Voz antes da mão, remédio no meio”
A ordem da agitação: primeiro a VOZ (desescalonamento verbal), depois o REMÉDIO (contenção química) e só por último a MÃO (contenção física) — sempre com monitorização.
Perguntar diretamente sobre suicídio NÃO aumenta o risco nem “planta a ideia”. Abrir a conversa acolhe e permite dimensionar ideação, plano, meios e intenção — é conduta correta, não perigo.
Contenção física sem monitorização, ou pular direto para ela sem tentar desescalonamento verbal e sem excluir causa orgânica (hipoglicemia, delirium, intoxicação). Conter sem investigar e sem vigiar é erro grave.
O que levar para a prova
Nas emergências psiquiátricas, guarde dois eixos. No risco de suicídio: pergunte diretamente (isso protege, não induz), avalie ideação–plano–meios–intenção, pese os fatores de risco (com destaque para a tentativa prévia) e module a conduta pela gravidade, sempre removendo meios e não deixando a pessoa sozinha. Na agitação: manejo escalonado — verbal, químico, físico — com exclusão de causa orgânica e monitorização obrigatória. Dominar esse raciocínio nas emergências psiquiátricas resolve a grande maioria das questões e, mais importante, orienta um cuidado seguro e humano.
Se você ou alguém que você conhece estiver em sofrimento, procure ajuda: o CVV oferece apoio emocional gratuito e sigiloso — ligue 188, 24 horas por dia.
Condutas e Prescrições em Psiquiatria
Fluxos práticos de avaliação e manejo — de risco de suicídio a agitação — para decidir com segurança na emergência e na prova.



