Álcool no ENAMED: intoxicação, abstinência e delirium tremens — Amo Resumos

Álcool no ENAMED: intoxicação, abstinência e delirium tremens

A abstinência alcoólica é um dos temas que mais rendem questões no ENAMED, porque cobra raciocínio de tempo, gravidade e conduta em sequência. Saber reconhecer a abstinência alcoólica nas primeiras horas — e antecipar quando ela pode evoluir para delirium tremens — separa a resposta certa da armadilha clássica de subtratar o paciente.

Neste post você vai organizar três quadros que a prova adora misturar: a intoxicação aguda, a abstinência alcoólica em suas fases e o delirium tremens como emergência. O fio condutor é sempre o mesmo: linha do tempo, escala de gravidade (CIWA-Ar) e prescrição guiada por gravidade, sem esquecer a tiamina.

resumo de 30 segundos
  • Intoxicação: desinibição, fala arrastada, ataxia, sonolência; casos graves com depressão respiratória.
  • Abstinência precoce (6-24h): tremor, ansiedade, sudorese, taquicardia, insônia.
  • Convulsões (12-48h) e alucinose (12-48h) com sensório preservado.
  • Delirium tremens (48-72h): confusão, agitação, alucinações e disautonomia — emergência.
  • Tratamento: benzodiazepínicos guiados pela CIWA-Ar + tiamina antes da glicose.
  • Corrigir magnésio e potássio; hidratar; manejar dependência depois com naltrexona/acamprosato.

Caso rápido: por que a linha do tempo decide a questão

Homem, 52 anos, etilista pesado, dá entrada com tremor de extremidades, sudorese e frequência cardíaca de 118, cerca de 12 horas após a última dose. Está lúcido, ansioso, pedindo para ir embora. Esse é o retrato da abstinência alcoólica precoce: sistema nervoso central hiperexcitável porque o efeito depressor crônico do álcool (potenciação GABA e inibição de NMDA) some de repente, e o cérebro fica em rebote adrenérgico e glutamatérgico.

Transtorno por uso de álcool: a dependência e seus riscos — ilustração respeitosa Amo Resumos
A abstinência alcoólica tem hora marcada: o delirium tremens surge em 48–72h e pode matar.

A pergunta que a prova quer é: onde esse paciente está na linha do tempo e para onde ele pode ir? Se nada for feito, o quadro pode escalar para convulsão tônico-clônica nas próximas horas e, no pior cenário, para delirium tremens em dois a três dias. É por isso que a conduta em condutas e prescrições em psiquiatria começa por classificar a gravidade antes de prescrever qualquer coisa.

Antes da abstinência: a intoxicação aguda

A intoxicação alcoólica é o efeito depressor direto do álcool sobre o SNC e progride com a alcoolemia. Começa com desinibição e euforia, evolui para fala arrastada, incoordenação motora e ataxia, e nos casos graves chega a sonolência, estupor, depressão respiratória e coma. A conduta é de suporte: proteção de via aérea, monitorização e observação até a metabolização, sem antídoto específico. O ponto de virada que a prova cobra é temporal: o etilista crônico que reduz ou para o consumo deixa de estar intoxicado e, horas depois, entra em rebote — é aí que nasce a abstinência alcoólica. Reconhecer essa transição é o que evita tratar um quadro pelo outro.

A linha do tempo da abstinência alcoólica

Decorar as janelas de tempo é o atalho mais rentável. Elas se sobrepõem, mas cada fase tem uma marca registrada que a questão descreve nas entrelinhas.

linha do tempo da abstinência
FASE INÍCIO QUADRO CLÍNICO
Abstinência precoce 6-24h Tremor, ansiedade, sudorese, taquicardia, insônia, náusea, cefaleia.
Convulsões 12-48h Crises tônico-clônicas generalizadas (“rum fits”), geralmente autolimitadas.
Alucinose alcoólica 12-48h Alucinações (tipicamente visuais/táteis) com sensório preservado e sinais vitais normais.
Delirium tremens 48-72h Confusão intensa, desorientação, agitação, alucinações e disautonomia (taquicardia, hipertensão, febre, sudorese profusa).

O ponto que a questão explora é a diferença entre alucinose e delirium tremens. Na alucinose, o paciente alucina mas está orientado e clinicamente estável. No delirium tremens, o nível de consciência flutua, há disautonomia franca e risco de morte. Confundir os dois muda toda a conduta.

Gravidade pela CIWA-Ar

A escala CIWA-Ar (Clinical Institute Withdrawal Assessment for Alcohol, revisada) pontua sintomas como náusea, tremor, sudorese, ansiedade, agitação, distúrbios sensoriais e desorientação. Ela transforma a impressão clínica em número e permite tratar o quadro de forma proporcional: quanto maior a pontuação, mais benzodiazepínico. É a base do esquema “guiado por sintomas”, que evita tanto o subtratamento quanto a sedação excessiva.

Na prática de prova, escores mais altos (habitualmente acima de 15) indicam abstinência grave e maior risco de complicação, exigindo doses fixas ou infusão vigiada e monitorização estreita. Além da pontuação, valorize fatores de risco para evolução grave: história prévia de convulsão ou de delirium tremens, consumo pesado e prolongado, comorbidades clínicas e distúrbios eletrolíticos. Esses dados, somados à CIWA-Ar, definem quem precisa de internação e vigilância intensiva desde o início, em vez de alta com orientação.

Tratamento: o que prescrever e em que ordem

O tripé é simples de lembrar: benzodiazepínico para o rebote do SNC, tiamina para proteger o cérebro e correção de eletrólitos/hidratação. A ordem importa, e é aqui que mora a pérola.

pilares do tratamento
PILAR CONDUTA DETALHE-CHAVE
Benzodiazepínico Diazepam guiado pela CIWA-Ar. Preferir lorazepam em hepatopatia/idoso (sem metabólitos ativos de longa duração).
Tiamina (B1) Reposição parenteral antes de qualquer glicose. Previne/trata a encefalopatia de Wernicke.
Eletrólitos e hidratação Corrigir magnésio e potássio; repor volume. Hipomagnesemia perpetua tremor e crises.
Suporte Ambiente calmo, monitorização; UTI no delirium grave. Vigiar sinais vitais e nível de consciência.

A encefalopatia de Wernicke merece parágrafo próprio porque cai junto: a tríade clássica é confusão, ataxia e oftalmoplegia. Ela decorre da deficiência de tiamina, comum no etilista desnutrido, e pode ser precipitada por uma carga de glicose sem reposição prévia de B1 — daí a regra de ouro.

★ mnemônico

“Wernicke: COA — Confusão, Oftalmoplegia, Ataxia”

Os três pilares da encefalopatia de Wernicke. E a regra da ordem: tiamina primeiro, glicose depois.

💡 pérola de prova

Sempre tiamina antes da glicose no etilista. Administrar glicose primeiro consome a pouca tiamina disponível e pode desencadear ou agravar a encefalopatia de Wernicke.

⚠️ armadilha

Subtratar a fase precoce achando que “vai passar”. A abstinência não controlada pode escalar para convulsões e delirium tremens, quadro com mortalidade relevante. Doses tímidas de benzodiazepínico são um erro clássico de conduta.

Depois da crise: tratar a dependência

Resolvida a fase aguda, o objetivo muda para manutenção da abstinência e prevenção de recaída. Aqui entram as medicações de longo prazo, sempre associadas a abordagem psicossocial (grupos de apoio, terapia, acompanhamento). Nenhuma delas trata a crise aguda — esse é um ponto que a prova adora testar. Vale lembrar também que o cuidado não termina na medicação: rastrear e tratar comorbidades psiquiátricas (depressão, ansiedade, transtorno bipolar), oferecer suporte à família e reforçar a rede de apoio aumentam de forma decisiva as chances de manutenção a longo prazo. O transtorno por uso de álcool é uma condição crônica e recidivante, e o acompanhamento deve ser contínuo, sem julgamento moral, focando em reduzir danos quando a abstinência total ainda não é possível.

  • Naltrexona: antagonista opioide, reduz a fissura e o prazer do consumo.
  • Acamprosato: modula glutamato/GABA, ajuda a manter a abstinência; útil em hepatopatas.
  • Dissulfiram: inibe a aldeído-desidrogenase e provoca reação aversiva com o álcool; exige adesão e motivação.

O que levar para a prova

Fixe a sequência temporal da abstinência alcoólica: tremor e sinais adrenérgicos em 6-24h, convulsões e alucinose em 12-48h, delirium tremens em 48-72h. Gravidade se mede pela CIWA-Ar, o tratamento é benzodiazepínico guiado por sintomas, e a tiamina vem antes da glicose para blindar contra Wernicke. Não confunda alucinose (orientado, estável) com delirium tremens (confuso, disautonômico, emergência), e lembre que naltrexona, acamprosato e dissulfiram são para manutenção, não para a crise.

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Referências: Sadock BJ, Sadock VA, Ruiz P. Compêndio de Psiquiatria (Kaplan & Sadock). Associação Psiquiátrica Americana. DSM-5-TR. Harrison — Medicina Interna. Conteúdo de revisão para fins didáticos.