Abdome agudo obstrutivo no ENAMED: bridas, hérnias e a conduta — Amo Resumos

Abdome agudo obstrutivo no ENAMED: bridas, hérnias e a conduta

O abdome agudo obstrutivo é um dos cenários mais cobrados na prova, e o abdome agudo obstrutivo vive de padrões: dor em cólica, distensão, vômitos e parada de eliminação de gases e fezes. Quem domina esse quarteto e sabe separar delgado de cólon resolve a maioria das questões sem hesitar. No ENAMED, o abdome agudo obstrutivo aparece pedindo que você identifique a causa mais provável pelo contexto (operado? idoso? hérnia?) e decida entre conduta conservadora e cirurgia.

A boa notícia é que o raciocínio é bastante mecânico. A obstrução interrompe o trânsito intestinal; a montante, o intestino distende, luta e depois se cansa. Entender essa fisiologia simples permite prever o quadro clínico, a imagem e o risco de isquemia. Vamos organizar tudo em blocos práticos, do reconhecimento até a decisão terapêutica.

resumo de 30 segundos
  • Quarteto clássico: dor em cólica, distensão, vômitos e parada de eliminação de gases e fezes.
  • Delgado: bridas (nº1 em operados) e hérnias (nº1 em não operados). Cólon: neoplasia (principal) e volvo de sigmoide.
  • Vômitos precoces e biliosos na obstrução alta; tardios e fecaloides na baixa.
  • RX: alças dilatadas, níveis hidroaéreos, “empilhamento de moedas” no delgado; TC define nível de transição e sofrimento de alça.
  • Conduta: “drip and suck” (SNG + hidratação). Brida parcial → conservador; estrangulamento, alça fechada ou obstrução total → cirurgia.

Reconhecendo o quadro: o quarteto que não falha

Pense num paciente com laparotomia prévia que chega com dor abdominal em cólica, ondas que vêm e vão acompanhando o peristaltismo de luta. Somam-se distensão progressiva, vômitos e ausência de eliminação de gases e fezes. Essa combinação define a obstrução mecânica. A localização do bloqueio muda os detalhes: na obstrução alta de delgado, os vômitos são precoces e biliosos, e a distensão é discreta; na obstrução baixa (delgado distal ou cólon), os vômitos são tardios e podem se tornar fecaloides, com distensão importante.

Abdome agudo obstrutivo: obstrução de delgado (bridas, hérnias) × cólon (tumor, volvo) — esquema Amo Resumos
Dor em cólica, distensão, vômitos e parada de eliminação: o quarteto que grita obstrução intestinal.

À ausculta, o achado evolui no tempo. No início há ruídos hidroaéreos aumentados, metálicos, timbrados — o intestino tentando vencer o obstáculo. Se o quadro se prolonga ou a alça sofre isquemia, os ruídos se tornam abolidos. Esse detalhe caiu muito: RHA aumentados sugerem obstrução mecânica em atividade; RHA abolidos apontam para exaustão da alça ou para íleo paralítico (obstrução funcional), no qual não há barreira mecânica e sim parada da motilidade — típico do pós-operatório, distúrbios eletrolíticos e peritonite. Para consolidar esse raciocínio e treinar o reconhecimento rápido do padrão, vale apoiar-se nas Fichas Sindrômicas de Clínica Médica, que esquematizam as síndromes abdominais para a prova.

Causas por segmento: delgado versus cólon

Aqui mora o coração das questões. A causa mais provável muda conforme o segmento e o passado do paciente. No delgado, as bridas/aderências são a principal causa em quem já operou, e as hérnias encabeçam a lista em quem nunca foi ao bloco. Ainda no delgado, lembre de intussuscepção (em adultos, pensar em tumor como cabeça de invaginação) e neoplasias. No cólon, a neoplasia é a causa mais comum, seguida do volvo de sigmoide (idoso, acamado, constipado crônico, com a clássica imagem em “grão de café” na radiografia) e do fecaloma.

delgado × cólon
CARACTERÍSTICA DELGADO CÓLON
Causa nº1 Bridas (operado) / hérnia (não operado) Neoplasia; depois volvo de sigmoide
Vômitos Precoces, biliosos (obstrução alta) Tardios, fecaloides
Distensão Discreta a moderada Acentuada
Imagem (RX) Alças centrais, “empilhamento de moedas” Distensão periférica; “grão de café” no volvo
Instalação Mais rápida Mais insidiosa (tumor)

Imagem: o que a radiografia e a TC entregam

A radiografia simples de abdome (em pé e deitado) ainda é o primeiro passo em muitos serviços: mostra alças dilatadas, níveis hidroaéreos em degraus e o padrão de distribuição. No delgado, as válvulas coniventes atravessam toda a luz e geram o aspecto de “empilhamento de moedas”, com alças mais centrais. No cólon, as haustrações são incompletas e a distensão é periférica; o volvo de sigmoide desenha a alça em “grão de café” apontando para o quadrante superior. A tomografia de abdome com contraste é hoje o exame mais informativo: define o nível de transição (ponto entre alça dilatada e alça colabada), sugere a etiologia e, crucialmente, procura sinais de sofrimento de alça — pneumatose intestinal, gás portal, redução do realce parietal e líquido livre. Esses sinais mudam a conduta imediatamente.

Mecânica versus funcional

Nem toda parada de trânsito é obstrução mecânica. O íleo paralítico (obstrução funcional) cursa com distensão e parada de eliminação, mas sem barreira física: a peristalse simplesmente cessa. Distingue-se pela ausência de nível de transição na TC, pela distensão difusa (incluindo cólon e reto com gás) e por RHA reduzidos ou ausentes desde o início. O contexto ajuda: pós-operatório recente, distúrbios de potássio e magnésio, sepse e opioides. Confundir os dois leva a indicar cirurgia desnecessária num íleo, que se resolve com suporte e correção da causa de base.

★ mnemônico

“CDVP: Cólica, Distensão, Vômito, Parada.”

O quarteto da obstrução mecânica. Se os RHA estão aumentados e metálicos, o intestino ainda “luta”; se abolidos, desconfie de exaustão ou isquemia da alça.

Conduta: quando esperar e quando operar

O suporte inicial é universal e resume-se ao “drip and suck”: sonda nasogástrica para descompressão, hidratação venosa e correção dos distúrbios hidroeletrolíticos e ácido-básicos. A partir daí, a decisão depende do tipo de obstrução e dos sinais de gravidade. A obstrução parcial por brida, sem sinais de sofrimento, é a situação mais favorável ao tratamento conservador inicial, com boa taxa de resolução espontânea nas primeiras 24-48 horas. Já a presença de estrangulamento, peritonite, obstrução total ou alça fechada indica cirurgia sem postergar.

conservador × cirúrgico
CENÁRIO CONDUTA
Brida, obstrução parcial, sem sofrimento Conservador: SNG, hidratação, reavaliação seriada
Hérnia encarcerada/estrangulada Cirurgia (redução + correção do defeito)
Sinais de estrangulamento / peritonite Laparotomia de urgência
Obstrução total ou alça fechada Cirurgia (alto risco de isquemia)
Volvo de sigmoide sem sofrimento Descompressão endoscópica + sigmoidectomia eletiva

Uma observação importante sobre a hérnia: diante de uma hérnia encarcerada com sinais de estrangulamento, não se insiste em redução manual prolongada nem se adia a abordagem — o risco de necrose intestinal é alto. No volvo de sigmoide sem sinais de sofrimento, a descompressão endoscópica resolve o quadro agudo, mas a alta recidiva justifica a sigmoidectomia eletiva na mesma internação.

💡 pérola de prova

Brida em paciente operado merece tentativa de tratamento conservador; hérnia estrangulada vai para a mesa. Guarde essa dupla: ela decide a maioria das questões de conduta em obstrução de delgado.

⚠️ armadilha

Não perca os sinais de isquemia/estrangulamento: dor contínua e intensa (perde o caráter em cólica), taquicardia, febre, acidose metabólica com lactato elevado e leucocitose. Insistir no conservador nesse cenário custa a alça — e a prova pune.

O que levar para a prova

O abdome agudo obstrutivo se resolve com três perguntas: qual o quarteto (cólica, distensão, vômitos, parada de eliminação)? é delgado ou cólon, e por qual causa (brida, hérnia, neoplasia, volvo)? há sinais de sofrimento de alça que obriguem a operar? Ancore a imagem (níveis hidroaéreos, “empilhamento de moedas”, “grão de café”, nível de transição na TC) e a regra de ouro da conduta — suporte para todos, conservador para a brida parcial, cirurgia para estrangulamento, alça fechada e obstrução total. Com esse esqueleto, o abdome agudo obstrutivo deixa de ser sorte e vira método.

material recomendado

Fichas Sindrômicas de Clínica Médica

As síndromes abdominais e clínicas esquematizadas do jeito que a prova cobra: reconhecimento rápido, causas por contexto e conduta objetiva.

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Referências: Townsend CM et al. Sabiston Textbook of Surgery, 21ª ed. Brunicardi FC et al. Schwartz’s Principles of Surgery, 11ª ed. Bope ET, Kellerman RD. Conn’s Current Therapy. Conteúdo de revisão para fins didáticos.