Lesões por arma de fogo na perícia: orlas e entrada × saída — Amo Resumos

Lesões por arma de fogo na perícia: orlas e entrada × saída

As lesões por arma de fogo são um dos temas que mais rendem questão em concurso de perito legista, e a boa notícia é que o núcleo cai igual em todo o país. Dominar as lesões por arma de fogo significa ler o orifício de entrada, suas orlas e as zonas ao redor para responder três perguntas de banca: de que distância partiu o disparo, por onde o projétil entrou e por onde saiu.

Neste resumo você organiza os efeitos primários e secundários, os epônimos que a banca adora trocar (Werkgaertner, Hofmann, Benassi, Bonnet) e a tabela definitiva de entrada × saída. É conteúdo comum a praticamente todos os editais de perícia legista, não importa o estado.

resumo de 30 segundos
  • O projétil é um agente perfurocontundente: predomina a profundidade.
  • Efeitos primários (orlas) vêm do projétil e independem da distância.
  • Efeitos secundários (tatuagem, esfumaçamento, queimadura) vêm da pólvora e revelam a distância.
  • Tatuagem = pólvora incombusta, não sai à lavagem; esfumaçamento = combusta, sai.
  • As três orlas juntas formam o anel de Fisch.
  • Entrada: menor, com orlas. Saída: maior, irregular, sem orlas.

Por que este tema cai em toda prova de perito

Nas lesões por arma de fogo, a lesão produzida pelo projétil é perfurocontusa: a superfície romba do projétil afasta as fibras dos tecidos, e a profundidade predomina sobre a extensão superficial. Ao redor do orifício de entrada formam-se marcas em dois grupos distintos, e é justamente essa distinção que permite ao perito estimar a distância do disparo. Entender essa lógica resolve a maioria das questões sobre lesões por arma de fogo sem decoreba pura.

Ferimento por arma de fogo: orlas do orifício de entrada versus saída — esquema didático Amo Resumos
As orlas do orifício de entrada contam a história do disparo — e diferenciam entrada de saída.

Os efeitos primários são obra do próprio projétil e, por isso, independem da distância. Os efeitos secundários vêm da pólvora e dos gases que saem do cano; como esses elementos têm alcance limitado, variam com a distância. Se você quer estudar isso com prancha ilustrada e passo a passo de leitura pericial, a coleção Médico Perito Ilustrado traz o capítulo inteiro esquematizado para prova.

As orlas do orifício de entrada

Ao redor do orifício de entrada surgem quatro marcas clássicas. A auréola equimótica é a equimose local pelo rompimento de vasos superficiais. A orla de enxugo (ou de Chavigny) é a impressão das sujidades que o projétil carregava, “limpas” na borda da pele durante a passagem. A orla de contusão (ou de escoriação) é o destacamento epidérmico gerado pela passagem do projétil. Quando essas orlas coexistem ao redor do orifício, compõem o anel de Fisch, um achado que fixa o orifício como de entrada.

Além das orlas, as zonas ao redor contam a distância. A zona de tatuagem é formada por grãos de pólvora incombusta que se cravam na pele e não saem à lavagem, indicando disparo a curta distância. A zona de esfumaçamento vem da pólvora combusta (fuligem) e é facilmente removível à lavagem, motivo pelo qual é chamada de “falsa tatuagem”. A zona de queimadura resulta do calor dos gases, presente nos disparos à queima-roupa.

orlas e zonas do orifício de entrada
MARCA ORIGEM SAI À LAVAGEM?
Orla de contusãoPassagem do projétil (efeito primário)Não (é destacamento da pele)
Orla de enxugoSujidades limpas na borda (efeito primário)Não é decisiva
Zona de tatuagemPólvora incombusta cravada (efeito secundário)NÃO sai (curta distância)
EsfumaçamentoFuligem / pólvora combusta (efeito secundário)SAI (falsa tatuagem)

Sinais de distância do disparo

A estimativa de distância é o desfecho mais cobrado quando o assunto é lesões por arma de fogo. A distância é classificada em quatro faixas: encostado (cano em contato com a pele), à queima-roupa (poucos centímetros), curta distância (alcance da pólvora) e longa distância (fora do alcance dos efeitos secundários). Quanto mais próximos e evidentes os efeitos secundários, menor a distância. Na longa distância só restam os efeitos primários, ou seja, apenas as orlas.

No tiro encostado os gases da combustão penetram junto com o projétil e produzem sinais próprios. O sinal de Werkgaertner é a impressão da boca do cano da arma sobre a pele. Sobre plano ósseo subjacente, os gases descolam os tecidos e criam uma cavidade irregular e denteada com crepitação gasosa, a chamada câmara de mina (ou boca de mina) de Hofmann. Esses dois epônimos são clássicos de banca e costumam vir trocados na alternativa errada.

★ mnemônico

“Werk = cano na pele; Hofmann = mina no osso”

Werkgaertner imprime a boca do cano (pele); a câmara de mina de Hofmann é a cavidade denteada sobre o osso, ambos no tiro encostado.

Entrada × saída: a tabela definitiva

Distinguir a entrada da saída é essencial para reconstruir a trajetória e o posicionamento de atirador e vítima. A diferença nasce da física da penetração: na entrada o projétil fura para dentro, invertendo as bordas; na saída ele empurra os tecidos para fora, evertendo-as. A presença de orlas é o sinal mais fiel do orifício de entrada.

orifício de entrada × saída
CARACTERÍSTICA ENTRADA SAÍDA
DiâmetroMenorMaior (projétil deformado, arrasta tecidos)
BordasInvertidas (para dentro)Evertidas, irregulares
Orlas / zonasPresentesAusentes
SangramentoMenorMaior
No ossoSinal de Benassi (halo fuliginoso)Funil de Bonnet (cone aponta o sentido)

Dois epônimos ósseos completam a leitura. O sinal de Benassi é o halo fuliginoso na lâmina óssea no orifício de entrada. O funil de Bonnet descreve como a tábua óssea rompida primeiro tem menor diâmetro que a segunda: o osso é escavado em cone, e a abertura maior aponta o sentido do projétil. Guarde bem quem é Benassi e quem é Bonnet, porque a banca troca os dois de propósito.

Quando a entrada é oblíqua, as orlas tornam-se concêntricas e excêntricas: a orla excêntrica, mais alongada, aponta o lado de onde veio o disparo. Vale ainda separar dois termos que a banca embaralha. O trajeto é o percurso do projétil dentro do corpo; a trajetória é o percurso no espaço, do cano ao alvo. E há a lesão em sedenho, quando o projétil atravessa apenas os planos superficiais, com trajeto subcutâneo, sem alcançar cavidades profundas. São detalhes de baixo custo de memorização e alto retorno na hora da prova.

💡 pérola de prova

A tatuagem verdadeira não sai à lavagem porque é pólvora incombusta cravada na pele, e indica disparo a curta distância. Já o esfumaçamento (falsa tatuagem) é fuligem que sai à lavagem. Esse par é o divisor de águas na estimativa de distância.

⚠️ armadilha

Nunca presuma o calibre pelo tamanho do orifício. A pele é elástica e retrai, o projétil pode entrar oblíquo ou deformado, e o diâmetro do orifício não corresponde ao calibre. Estimar calibre pelo furo é erro clássico que a banca planta na alternativa.

O que levar para a prova

Fixe a lógica antes dos epônimos: efeitos primários (orlas) independem da distância; efeitos secundários (tatuagem, esfumaçamento, queimadura) revelam a distância. O anel de Fisch marca a entrada; a tatuagem que não sai à lavagem indica curta distância; a entrada é menor e com orlas, a saída maior e sem orlas. E cuidado com a armadilha do calibre. Como as lesões por arma de fogo compõem o núcleo comum da medicina legal, esse conteúdo serve para todas as provas de perito legista do país, independentemente do edital.

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Referências: HÉRCULES, Hygino de Carvalho. Medicina Legal — Texto e Atlas. FRANÇA, Genival Veloso de. Medicina Legal. CROCE, Delton; CROCE JÚNIOR, Delton. Manual de Medicina Legal. Conteúdo de revisão para fins didáticos; confira sempre a redação vigente do Código Penal e do Código de Processo Penal.