Poucos exames confundem tanto o candidato quanto o hepatograma. A prova do ENAMED raramente pergunta “qual o valor da TGO”; ela te entrega um paciente ictérico, joga um punhado de enzimas alteradas e espera que você leia o hepatograma como um mapa. E o mapa tem uma bifurcação inicial que resolve quase tudo: o padrão é hepatocelular ou colestático?
Neste post você vai dominar a leitura do hepatograma do jeito que a banca cobra: separar lesão de obstrução, reconhecer o padrão de cada grupo de doenças e ainda lembrar que existe um terceiro eixo — a função do fígado. Quem decora valor isolado se perde; quem entende que o hepatograma conta uma história em dois grandes padrões acerta por eliminação.
- O hepatograma se divide em 3 eixos: lesão hepatocelular (transaminases), colestase (FA e GGT) e função/síntese (albumina, TAP/INR).
- Padrão hepatocelular: predomínio de AST (TGO) e ALT (TGP) → lesão do hepatócito (hepatites virais, medicamentosa, isquêmica, autoimune).
- Padrão colestático: predomínio de fosfatase alcalina e GGT + bilirrubina direta → obstrução/colestase (coledocolitíase, tumor, CBP, drogas).
- A bússola é simples: quem subiu mais? Transaminase aponta para a célula; FA/GGT apontam para a via biliar.
- Transaminases e FA não medem função — para isso, olhe albumina e TAP/INR.
- AST/ALT > 2 (com GGT alta) sugere doença hepática alcoólica.
O caso que o ENAMED adora
Mulher de 52 anos, com icterícia, colúria e prurido há 5 dias. Exames: bilirrubina total 8,0 (direta 6,2), fosfatase alcalina e GGT muito elevadas, transaminases apenas discretamente aumentadas. Antes de listar diagnósticos, o hepatograma já grita: o predomínio é de FA/GGT com bilirrubina direta — padrão colestático. Isso te leva ao mundo da obstrução biliar (pensar em coledocolitíase, tumor periampular) e ao próximo exame lógico, uma imagem das vias biliares — não a uma hepatite viral.

Os três eixos do hepatograma
O erro clássico é tratar o hepatograma como uma lista de enzimas. Ele é, na verdade, a soma de três perguntas diferentes sobre o fígado:
- Há lesão do hepatócito? → transaminases (AST/TGO e ALT/TGP). Elas vazam da célula lesada.
- Há colestase (dificuldade de escoar a bile)? → fosfatase alcalina e GGT, com bilirrubina direta.
- O fígado ainda funciona (sintetiza)? → albumina e tempo de protrombina (TAP/INR). Este eixo mede gravidade.
As duas primeiras respostas definem o padrão (hepatocelular × colestático); a terceira define a gravidade. Cair na prova sem separar esses eixos é o caminho mais curto para o erro.
A bifurcação principal: hepatocelular × colestático
| CARACTERÍSTICA | HEPATOCELULAR | COLESTÁTICO |
|---|---|---|
| Enzima que predomina | AST/TGO e ALT/TGP altas | Fosfatase alcalina e GGT altas |
| Bilirrubina | Pode subir (mista/direta) | Direta elevada + colúria/acolia |
| O que está acontecendo | Lesão/necrose do hepatócito | Obstrução ao fluxo de bile |
| Causas típicas | Hepatites virais, medicamentosa/tóxica, isquêmica, autoimune, esteato-hepatite | Coledocolitíase, tumor periampular, CBP/CEP, drogas colestáticas |
| Próximo passo | Sorologias virais, história de drogas | Imagem das vias biliares (USG → colangio-RM) |
Repare que, no padrão colestático, o passo seguinte é quase sempre uma imagem: se as vias biliares estão dilatadas, a obstrução é extra-hepática (o cálculo ou o tumor); se não estão, o problema é intra-hepático (CBP, drogas, infiltração). É esse tipo de raciocínio encadeado, do laboratório à conduta, que aprofundamos no Guia de Interpretação de Exames do Amo Resumos.
Magnitude e relação AST/ALT: pistas extras
| ACHADO | O QUE SUGERE |
|---|---|
| Transaminases > 1000 | Hepatite viral aguda, isquêmica (“fígado de choque”) ou tóxica (paracetamol) |
| Elevação leve/moderada | Esteatose/esteato-hepatite, hepatites crônicas |
| AST/ALT > 2 + GGT alta | Doença hepática alcoólica |
| FA muito alta, transaminase pouco alterada | Colestase/obstrução — confirmar origem com GGT |
“Transaminase é a CÉLULA; FA e GGT são o CANO”
Se a transaminase manda, o problema é a célula do fígado (hepatocelular). Se FA e GGT mandam, o problema é o cano da bile (colestático). E a função (albumina, TAP) é uma pergunta à parte.
Pérola e armadilha
A leitura do hepatograma começa por “quem subiu mais”: transaminase aponta para lesão da célula; FA/GGT apontam para a via biliar. Só depois pense em gravidade (albumina, TAP/INR).
Pedir só transaminases e concluir “fígado normal” pode mascarar uma colestase obstrutiva: nela, as transaminases sobem pouco enquanto FA e GGT disparam. Sempre avalie o conjunto — e não confunda lesão (transaminase/FA) com função (albumina/TAP).
O que levar para a prova
Não decore números soltos: leia o hepatograma em três perguntas — há lesão (transaminases)? há colestase (FA/GGT)? o fígado funciona (albumina, TAP/INR)? A bifurcação hepatocelular × colestático resolve a maior parte das questões e aponta o próximo exame. Com esse mapa na cabeça, qualquer caso de icterícia ou “enzimas alteradas” vira um exercício de eliminação — exatamente o que o ENAMED quer testar.
Guia de Interpretação de Exames
laboratório e imagem na prática clínica, do valor de referência à conduta — incluindo o hepatograma linha por linha.



