A colangite aguda é uma das emergências abdominais que mais aparecem no ENAMED, e por um bom motivo: ela mata rápido quando o raciocínio falha. Entender colangite aguda é entender uma equação simples e perigosa — via biliar obstruída somada a bactéria é igual a infecção sob pressão. Toda vez que a bile não drena (na maioria das vezes por coledocolitíase), o sistema biliar vira um abscesso pressurizado, e a colangite aguda instala febre, icterícia e dor. A prova adora testar se você reconhece a colangite aguda pela tríade de Charcot e, principalmente, se sabe quando ela evoluiu para a forma grave.
Neste post você vai fixar as duas síndromes clássicas que a banca cobra — tríade de Charcot e pêntade de Reynolds —, a conduta em três tempos (ressuscitar, antibiótico, drenar) e a armadilha que reprova candidato: confundir colangite aguda com colecistite e atrasar a drenagem da via biliar. Vamos ao que resolve questão.
- Colangite aguda = infecção da via biliar obstruída (mais comum: coledocolitíase). É emergência.
- Tríade de Charcot (3): febre com calafrios + icterícia + dor em hipocôndrio direito.
- Pêntade de Reynolds (5): tríade + hipotensão + confusão mental = colangite grave/tóxica.
- Labs: leucocitose, padrão colestático (FA/GGT/BD elevadas) e hemoculturas.
- Conduta: ressuscitação + antibiótico precoce + drenagem biliar urgente (CPRE).
- Reynolds = drenar sem demora; não trate como colecistite.
O caso que a banca gosta
Mulher de 62 anos chega ao pronto-socorro com febre de 39 °C, calafrios intensos, icterícia progressiva e dor em hipocôndrio direito há dois dias. Já é a tríade de Charcot completa — e ela é o suficiente para você suspeitar de colangite aguda e agir. O erro clássico do candidato apressado é pedir ultrassom, ver cálculo na vesícula e cravar “colecistite”. Mas repare: a icterícia e o padrão colestático apontam para obstrução da via biliar principal (colédoco), não da vesícula. O ponto anatômico é decisivo — a bile represada no colédoco, colonizada por bactérias intestinais (E. coli, Klebsiella, enterococo), é o que gera a sepse.

Se durante a observação essa paciente começa a confundir-se e a hipotensar, a história mudou de patamar: ela saiu da tríade e entrou na pêntade de Reynolds — colangite grave (tóxica). Esse é exatamente o gatilho que a prova quer que você reconheça, porque muda a urgência da drenagem. Vale a mesma lógica sindrômica que treinamos nas Fichas Sindrômicas de Clínica Médica: você parte do agrupamento de sinais (a síndrome) e desce até a conduta, sem decorar solto.
Charcot × Reynolds: as duas síndromes que caem
| SINAL | TRÍADE DE CHARCOT (3) | PÊNTADE DE REYNOLDS (5) |
|---|---|---|
| Febre + calafrios | ✔ | ✔ |
| Icterícia | ✔ | ✔ |
| Dor em HCD | ✔ | ✔ |
| Hipotensão (choque) | — | ✔ |
| Confusão mental / sensório | — | ✔ |
| Interpretação | Colangite provável | Colangite grave/tóxica |
Guarde o conceito central: a pêntade é a tríade que evoluiu. Os dois sinais adicionais (hipotensão e rebaixamento do sensório) marcam a resposta sistêmica à infecção — ou seja, sepse/disfunção orgânica. Reconhecer isso vale ponto porque muda a pressa da drenagem.
Laboratório e conduta em três tempos
| ETAPA | O QUE FAZER | POR QUÊ |
|---|---|---|
| Diagnóstico | Leucocitose, padrão colestático (FA, GGT, BD ↑), hemoculturas; USG/colangio-RM ou TC para ver via dilatada | Confirma infecção + obstrução da via biliar |
| 1. Ressuscitar | Cristaloide, monitorização, correção hemodinâmica | Colangite grave é sepse; estabilizar antes |
| 2. Antibiótico precoce | Cobertura de Gram-negativos entéricos e anaeróbios, o quanto antes | Controla a bacteriemia; não substitui a drenagem |
| 3. Drenagem biliar | CPRE (1ª escolha); trans-hepática percutânea ou cirúrgica se CPRE falha/indisponível | Remove a obstrução — é o tratamento definitivo |
A frase que resume tudo: antibiótico controla, mas quem cura é a drenagem. Enquanto a via biliar continuar obstruída e sob pressão, a bactéria segue extravasando para a circulação. Na colangite grave que não responde às medidas iniciais, a drenagem é urgente — de preferência por CPRE, com papilotomia e retirada do cálculo ou passagem de stent.
“Charcot são 3 (Febre, Icterícia, Dor); Reynolds são 5: soma Pressão baixa e Perda do sensório.”
Os dois “P” extras de Reynolds (Pressão e Perda de consciência) sinalizam sepse — é a colangite que virou grave.
Pêntade de Reynolds = colangite grave/tóxica. Se apareceu hipotensão ou confusão mental, a mensagem da questão é uma só: drenar a via biliar sem demora, após ressuscitar e iniciar antibiótico.
Tratar a colangite como se fosse colecistite. Ver cálculo na vesícula ao USG e parar em “colecistite” ignora a obstrução do colédoco — e atrasa a drenagem biliar, o único passo que resolve. Icterícia + padrão colestático apontam para a via biliar principal, não para a vesícula.
O que levar para a prova
Se a questão trouxer febre com calafrios, icterícia e dor em hipocôndrio direito, pense colangite aguda e busque a obstrução da via biliar. Se somar hipotensão e confusão mental, você está diante da forma grave (pêntade de Reynolds) e a resposta gira em torno de ressuscitar, antibiótico precoce e drenagem biliar urgente por CPRE. Não deixe o cálculo de vesícula te desviar: na colangite aguda, quem cura é desobstruir o colédoco. Fixou a tríade, a pêntade e os três tempos da conduta — você resolve praticamente qualquer questão de colangite aguda do ENAMED.
Fichas Sindrômicas de Clínica Médica
O caderno visual que ensina o ENAMED por síndrome, em árvores de raciocínio ilustradas.



