
A epigastralgia é a dor localizada no epigástrio, o andar superior e central do abdome, logo abaixo do apêndice xifoide. É uma das queixas mais frequentes do consultório e do pronto-socorro, e quase sempre faz o estudante pensar em estômago. Mas a epigastralgia é apenas um sintoma — um sinal de localização — e não um diagnóstico. Por trás dela pode estar desde uma dispepsia funcional banal até um infarto agudo do miocárdio que se disfarça de azia.
Saber raciocinar diante de uma epigastralgia significa correlacionar a topografia da dor com as estruturas que ali se projetam, valorizar a relação com a alimentação e, principalmente, reconhecer os sinais de alarme que mudam toda a conduta. Neste resumo, você vai entender o que é a epigastralgia, suas principais causas, como avaliar o paciente e quando a investigação deixa de ser ambulatorial para virar emergência.
- Epigastralgia = dor no epigástrio (andar superior e central do abdome); é sintoma, não diagnóstico.
- Causas comuns: dispepsia funcional/gastrite, úlcera péptica, DRGE, pancreatite aguda e doença biliar.
- Causa que não pode passar: infarto agudo do miocárdio de parede inferior e aneurisma de aorta.
- Relação com a comida ajuda: úlcera duodenal alivia ao comer; úlcera gástrica piora.
- Sinais de alarme (perda de peso, anemia, disfagia, vômitos, melena, idade > 45–50 anos) exigem endoscopia.
- Com fator de risco cardiovascular: pedir ECG e troponina antes de rotular como gastrite.
O que é epigastralgia
A epigastralgia é definida pela sua topografia: dor referida ao epigástrio, a região do abdome situada entre os rebordos costais e acima da cicatriz umbilical, no plano mediano. Essa área recebe a projeção de várias estruturas — estômago, duodeno proximal, pâncreas, lobo esquerdo do fígado, parte da árvore biliar e, por proximidade diafragmática, do próprio coração e da aorta abdominal. Por isso a dor epigástrica é, por natureza, inespecífica: a mesma localização pode traduzir órgãos muito diferentes.
É importante diferenciar a epigastralgia de termos vizinhos. A dispepsia é uma síndrome que engloba dor ou desconforto epigástrico, plenitude pós-prandial, saciedade precoce e queimação — ou seja, a epigastralgia é um de seus componentes. A pirose (azia) é a queimação retroesternal ascendente, típica do refluxo. Já a dor abdominal difusa ou em outros quadrantes segue outra lógica anatômica. Reconhecer que a epigastralgia é um sintoma localizatório, e não uma doença, é o primeiro passo para não fechar diagnóstico precoce demais.
Causas de epigastralgia
As causas de epigastralgia vão das mais corriqueiras às potencialmente fatais. A maioria é digestiva e benigna, mas o raciocínio clínico precisa sempre manter no radar as causas extradigestivas graves — o coração e a aorta — que se projetam na mesma região.
| CAUSA | PISTAS CLÍNICAS |
|---|---|
| Dispepsia funcional / gastrite | Dor/queimação crônica, sem sinais de alarme; relação variável com refeições; causa mais comum. |
| Úlcera péptica | Dor rítmica; duodenal alivia ao comer, gástrica piora; relação com H. pylori e AINEs. |
| DRGE | Pirose e regurgitação; piora ao deitar e após refeições volumosas; pode dar epigastralgia alta. |
| Pancreatite aguda | Dor intensa em faixa, irradiando para o dorso; vômitos; etilismo ou litíase biliar; eleva lipase/amilase. |
| Colelitíase / colecistite | Dor pós-prandial gordurosa, pode iniciar no epigástrio e migrar para hipocôndrio direito; Murphy +. |
| ⚠ IAM de parede inferior | Dor/queimação epigástrica, náusea, sudorese; simula dispepsia; fatores de risco cardiovascular. |
| ⚠ Aneurisma de aorta abdominal | Dor epigástrica/dorsal súbita, massa pulsátil, hipotensão; emergência vascular. |

Como avaliar a epigastralgia
A avaliação começa pela caracterização semiológica da dor. O caráter orienta muito: queimação sugere componente péptico ou refluxo; dor em facada constante e em faixa aponta para pâncreas; dor opressiva com sudorese e náusea levanta a bandeira cardíaca. A irradiação é igualmente reveladora — para o dorso na pancreatite e no aneurisma; para o ombro/mandíbula ou membro superior esquerdo no infarto.
A relação com a alimentação é um clássico de prova. Na úlcera duodenal, a dor costuma surgir com o estômago vazio (entre as refeições e à noite) e alivia ao comer ou com antiácidos. Na úlcera gástrica, ao contrário, a alimentação tende a piorar a dor, o que explica a perda de peso por medo de comer. A dispepsia funcional tem relação variável e flutuante; a doença biliar piora classicamente após refeições gordurosas.
O ponto decisivo da anamnese é a busca ativa de sinais de alarme, que indicam doença orgânica grave (úlcera complicada, neoplasia) e contraindicam tratar empiricamente sem investigar:
- Perda de peso não intencional
- Anemia ou sangramento (melena, hematêmese)
- Disfagia ou odinofagia progressiva
- Vômitos persistentes
- Massa abdominal palpável ou linfonodo supraclavicular
- Idade > 45–50 anos com sintomas dispépticos novos
- História familiar de câncer gástrico
No exame físico, avalie palidez, sinais de irritação peritoneal, sinal de Murphy, presença de massa ou aorta pulsátil e estado hemodinâmico. Sempre verifique fatores de risco cardiovascular (idade, diabetes, hipertensão, tabagismo) — eles transformam uma “azia” em possível equivalente anginoso.
Diagnóstico e tratamento da epigastralgia
A conduta depende inteiramente da hipótese levantada e da presença de sinais de alarme. No paciente jovem, sem alarme e com quadro dispéptico típico, o diagnóstico é clínico e a abordagem é empírica. Diante de qualquer sinal de alarme, ou idade acima do corte, a investigação é mandatória.
| SUSPEITA | CONDUTA / EXAME |
|---|---|
| Dispepsia sem alarme | Tratamento empírico com IBP; pesquisa e erradicação de H. pylori (estratégia “test-and-treat”). |
| Sinais de alarme / idade > 45–50a | Endoscopia digestiva alta (EDA) com biópsias para excluir neoplasia e úlcera. |
| Suspeita cardíaca | ECG imediato + troponina seriada; nunca rotular como gastrite sem afastar IAM inferior. |
| Pancreatite | Lipase (ou amilase) > 3× o valor normal; TC de abdome se dúvida ou para estadiar gravidade. |
| Doença biliar | Ultrassonografia de abdome; provas hepáticas e canaliculares. |
No tratamento da causa péptica, os inibidores da bomba de prótons (IBP) — como omeprazol e pantoprazol — são a base, associados à erradicação do Helicobacter pylori quando positivo, com esquema de IBP + dois antibióticos. Medidas comportamentais (evitar AINEs, álcool, fracionar refeições, perder peso, elevar a cabeceira na DRGE) complementam. A pancreatite exige internação, jejum, hidratação e analgesia; a doença biliar sintomática tem tratamento cirúrgico (colecistectomia). E, sempre que a epigastralgia tiver “cara cardíaca”, o caminho não é o estômago — é o protocolo de dor torácica.
Epigastralgia em paciente com fatores de risco cardiovascular = faça ECG antes de qualquer coisa. O IAM de parede inferior irrita o diafragma e se manifesta como “dispepsia”, náusea e sudorese — é a armadilha clássica que mata. E lembre: a presença de qualquer sinal de alarme (perda de peso, anemia, disfagia, vômitos, melena, idade > 45–50 anos) tira o paciente do tratamento empírico e o leva direto à endoscopia.
“VAMPIRO” — os sinais de alarme da dispepsia
Vômitos persistentes · Anemia / sangramento (melena) · Massa palpável · Perda de peso · Idade > 45–50 anos · Regurgitação com disfagia (engasgo/dor para engolir) · Origem familiar de câncer gástrico. Presente algum? Endoscopia.
- Manual de Semiologia Médica — material recomendado do Amo Resumos para se aprofundar
- Melena — fezes escuras e o sangramento digestivo alto que acompanha a úlcera
- Hiporexia — quando a falta de apetite é sinal de alarme
- Odinofagia — dor para engolir e sua relação com a investigação endoscópica
Perguntas frequentes sobre Epigastralgia
O que é epigastralgia?
Epigastralgia é a dor localizada no epigástrio, o andar superior e central do abdome, logo abaixo do apêndice xifoide. É um sintoma localizatório, não um diagnóstico. Naquela região se projetam estômago, duodeno, pâncreas, fígado, vias biliares e ainda coração e aorta, o que torna a dor inespecífica.
Quais são as causas de epigastralgia?
As causas digestivas e benignas predominam: dispepsia funcional ou gastrite, úlcera péptica, doença do refluxo, pancreatite aguda e doença biliar. É preciso manter no radar causas extradigestivas graves que se projetam na região, como o infarto agudo do miocárdio de parede inferior e o aneurisma de aorta abdominal.
Quando a epigastralgia exige investigação ou é emergência?
Sinais de alarme como perda de peso, anemia, disfagia, vômitos persistentes, melena, massa palpável ou idade acima de 45 a 50 anos exigem endoscopia digestiva alta. Em pacientes com fatores de risco cardiovascular, deve-se pedir ECG e troponina antes de rotular como gastrite, pois o infarto inferior simula dispepsia.
Conclusão
A epigastralgia é um sintoma localizatório de altíssima frequência e baixa especificidade: a mesma dor pode significar uma gastrite trivial ou um infarto fatal. O raciocínio clínico maduro não se contenta em rotular “gastrite” — ele caracteriza a dor, valoriza a relação com a alimentação, busca ativamente sinais de alarme e, diante de risco cardiovascular, pensa no coração. Dominar a epigastralgia é treinar exatamente esse filtro de segurança que separa o ambulatório da emergência, e é por isso que ela cai tanto em prova.
O próximo passo é treinar questões que aplicam esse raciocínio em casos clínicos reais. No MedCaju, você encontra um banco completo de clínica médica, com questões comentadas do sintoma ao diagnóstico.
Pratique questões de Clínica Médica
Milhares de questões com explicação detalhada. Teoria você estuda aqui — questão você treina no MedCaju.
Acessar MedCaju →


