Hiponatremia e a fórmula de Adrogué-Madias: o guia prático — Amo Resumos

Hiponatremia e a fórmula de Adrogué-Madias: o guia prático

A hiponatremia é o distúrbio hidroeletrolítico mais comum na prática clínica e uma armadilha clássica de prova. Definida como sódio sérico abaixo de 135 mEq/L, a hiponatremia quase nunca é um problema de “falta de sal”: é, na verdade, um problema de excesso de água livre em relação ao sódio. Entender a hiponatremia exige raciocinar em três passos — osmolalidade, volemia e velocidade de correção.

Neste post você vai dominar a abordagem da hiponatremia do zero: como excluir as “falsas” hiponatremias, como classificar pela volemia, como aplicar a fórmula de Adrogué-Madias para estimar a variação do sódio e — o ponto mais cobrado — como corrigir a hiponatremia devagar para não provocar mielinólise pontina. A hiponatremia grave e sintomática também tem sua conduta específica com salina hipertônica, e você verá quando indicá-la.

resumo de 30 segundos
  • Definição: Na⁺ sérico < 135 mEq/L; grave se < 120 ou sintomático.
  • 1º passo — osmolalidade: exclua pseudo-hiponatremia (iso-osmolar) e a hiponatremia hipertônica da hiperglicemia antes de tudo.
  • 2º passo — volemia: classifique em hipovolêmica, euvolêmica (SIADH) ou hipervolêmica (ICC, cirrose, renal).
  • Adrogué-Madias: estima quanto o Na⁺ sobe por litro de solução infundida.
  • Regra de ouro: corrija devagar — no máximo 8–10 mEq/L em 24h — para evitar mielinólise pontina.
  • Grave/sintomática: salina hipertônica a 3% em bólus, com meta de subir só 4–6 mEq/L rápido.

O que é hiponatremia e por que ela importa

Hiponatremia é a concentração de sódio sérico inferior a 135 mEq/L. Como o sódio é o principal determinante da osmolalidade plasmática, sua queda reflete quase sempre um excesso relativo de água livre — seja por retenção renal de água, seja por ingestão excessiva. O grande risco não é o número em si, mas o efeito osmótico sobre o cérebro: água entra nos neurônios e causa edema cerebral.

Hiponatremia por volemia e a fórmula de Adrogué-Madias com correção lenta — Amo Resumos
Primeiro a volemia, depois a conta: a correção do sódio é lenta e vigiada para não causar mielinólise.

A gravidade dos sintomas depende mais da velocidade de instalação do que do valor absoluto. Quedas rápidas não dão tempo ao cérebro de se adaptar. O espectro vai de sintomas leves e inespecíficos (náusea, cefaleia, dificuldade de concentração) a manifestações graves (confusão, convulsões, rebaixamento do nível de consciência, coma e herniação por edema cerebral). Uma hiponatremia crônica, ao contrário, pode ser quase assintomática mesmo com sódio muito baixo — e é justamente essa que mais exige cautela na correção.

1º passo: sempre a osmolalidade

Antes de qualquer conduta, meça (ou estime) a osmolalidade plasmática. Isso separa a hiponatremia verdadeira das “falsas”:

  • Hiponatremia hipotônica (Osm < 275): a verdadeira. É onde mora quase toda a clínica e onde entra a classificação pela volemia.
  • Hiponatremia isotônica — pseudo-hiponatremia (Osm normal, 275–295): artefato laboratorial por hiperlipidemia grave ou hiperproteinemia (ex.: mieloma). O sódio “real” é normal; foi apenas diluído na fase aquosa medida. Não trate.
  • Hiponatremia hipertônica (Osm > 295): soluto osmoticamente ativo (glicose, manitol) puxa água do intracelular para o vascular, diluindo o sódio. Clássico da hiperglicemia.

Na hiperglicemia, corrija o sódio medido: some cerca de 1,6 mEq/L ao Na⁺ para cada 100 mg/dL de glicose acima de 100. Se o sódio corrigido for normal, não há hiponatremia verdadeira — o alvo é tratar a glicemia.

2º passo: classificação pela volemia

Confirmada a hiponatremia hipotônica, avalie o estado volêmico no exame físico. Esse é o eixo que define a causa e o tratamento.

classificação da hiponatremia hipotônica pela volemia
VOLEMIA CAUSAS PRINCIPAIS NaU / PISTAS TRATAMENTO
Hipovolêmica Perdas GI (vômito/diarreia), diuréticos (tiazídicos), perda renal, hipoaldosteronismo. NaU < 20 (perda extrarrenal); > 20 (renal). Sinais de desidratação. Salina isotônica 0,9%.
Euvolêmica SIADH, hipotireoidismo, insuficiência adrenal, polidipsia, potomania. NaU > 40, Osm urinária alta, ácido úrico baixo (SIADH). Restrição hídrica; tratar a causa.
Hipervolêmica ICC, cirrose hepática, síndrome nefrótica, doença renal crônica. Edema, ascite. NaU < 20 (ICC/cirrose); > 20 (renal). Restrição hídrica e de sódio; diurético de alça.

A SIADH é a causa mais cobrada de hiponatremia euvolêmica: secreção inapropriada de ADH que retém água livre. O diagnóstico é de exclusão (afastar hipotireoidismo e insuficiência adrenal) e classicamente cursa com urina concentrada (Osm urinária > 100), sódio urinário > 40 e ácido úrico baixo.

A fórmula de Adrogué-Madias

Para planejar a reposição, a fórmula de Adrogué-Madias estima a variação do sódio sérico esperada após a infusão de 1 litro de uma solução escolhida. Ela ajuda a titular o volume e a velocidade sem ultrapassar os limites de correção.

fórmula de adrogué-madias e limites de correção

ΔNa⁺ = (Na⁺ da solução − Na⁺ do paciente) ÷ (água corporal total + 1)

ITEM VALOR / REGRA
Água corporal total0,6 × peso (homem) ou 0,5 × peso (mulher/idoso).
Na⁺ da salina 0,9%154 mEq/L.
Na⁺ da salina 3%513 mEq/L.
Limite em 24 hMáximo 8–10 mEq/L (mais conservador: 6–8 se alto risco).
Limite em 48 hMáximo 18 mEq/L.
Grave sintomáticaSubir 4–6 mEq/L rápido (salina 3% em bólus) para reverter o edema cerebral, respeitando o teto de 24 h.

Exemplo prático: homem de 70 kg (ACT = 42 L) com sódio 110, usando salina 3%. ΔNa⁺ = (513 − 110) ÷ (42 + 1) ≈ 9,4 mEq/L por litro. Ou seja, 1 litro inteiro já cruzaria o teto de 24 h — na prática, infunde-se apenas uma fração, monitorando o sódio de perto. A fórmula é um guia, não um piloto automático: reavalie o sódio a cada 2–4 horas.

A regra de correção lenta e a mielinólise

Esse é o ponto que mais derruba candidato em prova. Corrigir a hiponatremia rápido demais causa a síndrome de desmielinização osmótica (antiga mielinólise pontina): os neurônios, já adaptados ao meio hipotônico, sofrem desidratação brusca e destruição da mielina. O quadro é devastador — tetraparesia, disartria, disfagia e a temida síndrome do encarceramento (locked-in), muitas vezes dias após a correção.

Por isso o limite de 8–10 mEq/L nas primeiras 24 horas é sagrado. Se a correção acelerar demais, é possível re-baixar o sódio com água livre (SG 5%) e/ou desmopressina. Nos casos graves e sintomáticos (convulsão, coma), use salina hipertônica 3% em bólus (ex.: 100–150 mL) para elevar rapidamente apenas 4–6 mEq/L — o suficiente para reverter o edema cerebral — sem estourar o teto diário.

★ mnemônico

“Osmo, Volemia, Velocidade — os 3 V da hipoNa”

Primeiro exclua as falsas pela osmolalidade; depois classifique pela volemia; por fim corrija na velocidade certa (lenta). Errar a ordem é errar a conduta.

💡 pérola de prova

A hiponatremia crônica (instalação > 48 h) é a de maior risco de mielinólise, justamente porque o cérebro já se adaptou. Quanto mais crônica e assintomática, mais lenta deve ser a correção. Hiponatremia aguda sintomática grave tolera correção inicial rápida; a crônica, nunca.

⚠️ armadilha

Dar salina isotônica na SIADH pode piorar a hiponatremia: com urina muito concentrada, o rim excreta o sódio infundido e retém a água, baixando ainda mais o sódio. Na SIADH o pilar é restrição hídrica, não soro.

O que levar

A abordagem da hiponatremia cabe em três perguntas na ordem certa: a osmolalidade é baixa (é verdadeira)? Qual a volemia? E, sobretudo, a que velocidade posso corrigir? A fórmula de Adrogué-Madias guia o quanto, mas quem manda é o teto de 8–10 mEq/L em 24 horas que protege contra a mielinólise. Para se aprofundar, o Manual de Clínica Médica do Amo Resumos traz as condutas nas principais doenças, do sintoma à prescrição.

material recomendado

Manual de Clínica Médica

Da hiponatremia à sepse: condutas nas principais doenças, do sintoma à prescrição, num só material.

Ver o material →
Referências: Harrison — Medicina Interna (distúrbios do sódio e da água); Adrogué HJ, Madias NE — abordagem clínica da hiponatremia; diretrizes atuais de manejo de hiponatremia (sociedades de nefrologia/endocrinologia). Conteúdo de revisão para fins didáticos.