Cefaleia é um dos sintomas mais comuns da medicina — e justamente por isso o ENAMED adora. A prova não quer saber se você decorou os critérios de cada cefaleia primária; ela quer saber se você consegue, diante de um paciente com dor de cabeça, separar o banal do letal. Quem raciocina por síndrome pergunta primeiro “isso é primária ou secundária?” e caça red flags antes de qualquer outra coisa. Quem decora doença solta pede tomografia para enxaqueca e perde hemorragia subaracnóidea.
- 1ª bifurcação: cefaleia primária (sem doença estrutural) ou secundária (sintoma de doença subjacente)?
- A separação começa pela busca ativa de red flags (sinais de alarme) — a presença de qualquer uma exige investigação.
- Início súbito “em trovão” (thunderclap) = hemorragia subaracnóidea até prova em contrário → TC de crânio urgente.
- Primárias (mais comuns): enxaqueca (pulsátil, foto/fonofobia), tensional (aperto bilateral) e em salvas (periorbitária + sintomas autonômicos).
- Sem red flags + padrão típico de primária = diagnóstico clínico, sem neuroimagem.
O caso que o ENAMED adora
Homem de 48 anos, durante esforço físico, refere início súbito da “pior cefaleia da vida”, holocraniana, de intensidade máxima em segundos, acompanhada de náuseas, vômitos e fotofobia. Ao exame: consciente, mas com rigidez de nuca e fotofobia; sem déficit focal. Pressão arterial 170×100 mmHg.
Antes de pensar em “qual cefaleia primária”, o raciocínio sindrômico já te trava: o início em trovão (thunderclap) e a pior cefaleia da vida são red flags clássicas de hemorragia subaracnóidea. A conduta não é analgésico e alta — é TC de crânio sem contraste urgente; se normal e a suspeita persistir, punção lombar em busca de xantocromia. A síndrome aponta o perigo antes de qualquer exame.

A pergunta que organiza tudo: primária ou secundária?
Toda cefaleia se encaixa em um de dois mundos. Entender essa divisão é o que evita tanto o excesso (tomografar enxaqueca) quanto a falha grave (liberar uma meningite).
- Cefaleia primária → a dor é a doença. Não há lesão estrutural subjacente. São as mais comuns: enxaqueca, tensional e em salvas (cluster). Diagnóstico é clínico, baseado no padrão.
- Cefaleia secundária → a dor é sintoma de outra doença (vascular, infecciosa, neoplásica, inflamatória). Exige investigação dirigida. É aqui que moram as emergências.
O pulo do gato: você não decide entre os dois mundos pelo “tipo de dor”, e sim pela presença ou ausência de sinais de alarme. Cefaleia primária é a regra estatística — mas qualquer red flag obriga a descartar a secundária grave primeiro.
1ª bifurcação: os sinais de alarme (red flags)
Diante de qualquer cefaleia, o primeiro movimento é buscar ativamente red flags. A presença de uma só já muda a conduta de “tratar como primária” para “investigar com neuroimagem e exames dirigidos”.
| RED FLAG | O QUE SUGERE | CONDUTA |
|---|---|---|
| Início SÚBITO “em trovão” (thunderclap) | Hemorragia subaracnóidea; pior cefaleia da vida | TC de crânio urgente; se normal, punção lombar |
| Cefaleia NOVA após os 50 anos | Arterite temporal, tumor, lesão estrutural | Neuroimagem; VHS/PCR se suspeita de arterite |
| Febre + rigidez de nuca | Meningite / encefalite | Punção lombar (após TC se sinal focal/HIC) |
| Papiledema / sinais de HIC | Hipertensão intracraniana, tumor, trombose venosa | Neuroimagem (TC/RM) antes de qualquer PL |
| Déficit neurológico focal | Lesão expansiva, AVC, processo estrutural | Neuroimagem dirigida |
| Piora com Valsalva / postural | Hipertensão intracraniana, lesão de fossa posterior | Neuroimagem (preferir RM) |
| Câncer, HIV ou imunossupressão | Metástase, infecção oportunista, abscesso | Neuroimagem com contraste; investigar conforme contexto |
| Mudança do padrão habitual | Cefaleia conhecida que mudou caráter/frequência | Reavaliar e considerar neuroimagem |
2ª passo: as secundárias graves que não podem passar
Quando há red flag, a investigação mira nas secundárias que matam ou deixam sequela. Estas são as que o ENAMED mais cobra — reconheça o gatilho clínico e a conduta de cada uma.
| DIAGNÓSTICO | GATILHO NA QUESTÃO | CONDUTA-CHAVE |
|---|---|---|
| Hemorragia subaracnóidea | Thunderclap + “pior cefaleia da vida” + rigidez de nuca | TC de crânio; se normal e alta suspeita → PL com xantocromia |
| Meningite | Febre + cefaleia + rigidez de nuca (Kernig/Brudzinski) | Punção lombar (após TC se sinal focal/HIC); ATB precoce |
| Hipertensão intracraniana / tumor | Papiledema, cefaleia que piora ao deitar/de manhã, vômitos | Neuroimagem (TC/RM); NÃO fazer PL antes da imagem |
| Arterite temporal (de células gigantes) | Idoso, claudicação de mandíbula, dor temporal, alteração visual | VHS muito alto; corticoide imediato; biópsia da temporal |

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As cefaleias primárias
Descartadas as red flags, sobram as primárias — as mais frequentes na prática e na prova. Aqui o diagnóstico é clínico, pelo padrão da dor. Compare as três:
| CARACTERÍSTICA | ENXAQUECA | TENSIONAL | EM SALVAS (CLUSTER) |
|---|---|---|---|
| Localização | Unilateral (pode alternar) | Bilateral, holocraniana | Periorbitária, estritamente unilateral |
| Caráter da dor | Pulsátil / latejante | Em aperto / peso (não pulsátil) | Excruciante, “em facada” |
| Intensidade | Moderada a forte | Leve a moderada | Muito intensa |
| Sintomas associados | Náusea, foto/fonofobia, com ou sem aura | Sem náusea; sem foto/fonofobia marcantes | Autonômicos: lacrimejamento, rinorreia, ptose, miose |
| Atividade física | Piora; paciente prefere repouso no escuro | Não piora | Paciente fica agitado, sem conseguir parar |
| Padrão temporal | Crises de 4–72 h | Episódica ou crônica | Surtos curtos (15–180 min), em “salvas” diárias |
Conduta inicial
O raciocínio sindrômico também organiza a abordagem — você não pede neuroimagem para todo mundo, segue a árvore:
- Caracterizar a cefaleia — início, instalação, localização, caráter, intensidade, duração, fatores de melhora/piora e sintomas associados.
- Buscar ativamente red flags — anamnese e exame neurológico dirigidos (consciência, sinais meníngeos, fundoscopia, déficit focal).
- Se houver red flag → neuroimagem (TC ou RM) e exames conforme a suspeita: punção lombar (HSA, meningite), VHS/PCR (arterite temporal).
- Sequência crítica: se houver sinal de hipertensão intracraniana ou déficit focal, faça neuroimagem ANTES da punção lombar.
- Sem red flag + padrão típico de primária → diagnóstico clínico e tratamento da cefaleia (sem neuroimagem).
“As 6 sentinelas: SÚBITO, IDADE, FEBRE, FOCO, PRESSÃO, PADRÃO”
Súbito (thunderclap → HSA) · Idade nova após 50 anos (arterite/tumor) · Febre + rigidez de nuca (meningite) · Foco neurológico/papiledema (lesão estrutural) · Pressão intracraniana (piora ao deitar/Valsalva) · Padrão que mudou / paciente com câncer/HIV. Qualquer uma = investigar.
Pérola de prova e a armadilha clássica
A “pior cefaleia da vida”, de início súbito (thunderclap), é hemorragia subaracnóidea até prova em contrário — solicite TC de crânio sem contraste urgente. Se a TC for normal mas a suspeita persistir (sensibilidade cai com o tempo), prossiga com punção lombar em busca de xantocromia. Nunca dê alta com analgésico sem antes descartar a HSA.
São sinais de que a cefaleia é secundária grave e exige ação imediata: rebaixamento do nível de consciência, sinais de hipertensão intracraniana (papiledema, vômitos, piora ao deitar), sinais meníngeos (rigidez de nuca, Kernig/Brudzinski) e déficit neurológico focal. Qualquer um desses tira o paciente do trilho “primária” e o coloca em investigação de emergência.
NÃO faça punção lombar antes da TC se houver sinal de hipertensão intracraniana (papiledema, vômitos, rebaixamento) ou déficit neurológico focal. Retirar líquor com pressão intracraniana elevada pode precipitar herniação cerebral. A neuroimagem vem primeiro; só então, se segura, a PL.
O que levar para a prova
Não decore lista de cefaleias. Decore a sequência de perguntas: (1) há red flag? Se sim, investigue a secundária grave (e neuroimagem antes da PL quando houver HIC ou foco). (2) Se não, e o padrão for típico, é primária — enxaqueca, tensional ou em salvas, com diagnóstico clínico. O thunderclap é hemorragia subaracnóidea até prova em contrário. Com essa árvore, qualquer questão de cefaleia do ENAMED vira um exercício de eliminação — exatamente o que a abordagem sindrômica foi feita para resolver.
Fichas Sindrômicas de Clínica Médica
O caderno visual que ensina o ENAMED por síndrome, não por doença solta. Cada ficha é uma árvore de raciocínio ilustrada — cefaleia, icterícia, dispneia, AVE, febre e mais, do jeito que a prova cobra.



