Cefaleias — capa Sindrômica Visual ENAMED

Cefaleias no ENAMED: primária × secundária

Cefaleia é um dos sintomas mais comuns da medicina — e justamente por isso o ENAMED adora. A prova não quer saber se você decorou os critérios de cada cefaleia primária; ela quer saber se você consegue, diante de um paciente com dor de cabeça, separar o banal do letal. Quem raciocina por síndrome pergunta primeiro “isso é primária ou secundária?” e caça red flags antes de qualquer outra coisa. Quem decora doença solta pede tomografia para enxaqueca e perde hemorragia subaracnóidea.

resumo de 30 segundos
  • 1ª bifurcação: cefaleia primária (sem doença estrutural) ou secundária (sintoma de doença subjacente)?
  • A separação começa pela busca ativa de red flags (sinais de alarme) — a presença de qualquer uma exige investigação.
  • Início súbito “em trovão” (thunderclap) = hemorragia subaracnóidea até prova em contrário → TC de crânio urgente.
  • Primárias (mais comuns): enxaqueca (pulsátil, foto/fonofobia), tensional (aperto bilateral) e em salvas (periorbitária + sintomas autonômicos).
  • Sem red flags + padrão típico de primária = diagnóstico clínico, sem neuroimagem.

O caso que o ENAMED adora

Homem de 48 anos, durante esforço físico, refere início súbito da “pior cefaleia da vida”, holocraniana, de intensidade máxima em segundos, acompanhada de náuseas, vômitos e fotofobia. Ao exame: consciente, mas com rigidez de nuca e fotofobia; sem déficit focal. Pressão arterial 170×100 mmHg.

Antes de pensar em “qual cefaleia primária”, o raciocínio sindrômico já te trava: o início em trovão (thunderclap) e a pior cefaleia da vida são red flags clássicas de hemorragia subaracnóidea. A conduta não é analgésico e alta — é TC de crânio sem contraste urgente; se normal e a suspeita persistir, punção lombar em busca de xantocromia. A síndrome aponta o perigo antes de qualquer exame.

Cefaleia secundária com red flags (HSA, meningite, hipertensão intracraniana) versus primária — ilustração Sindrômica Visual
A pergunta que organiza tudo: tem red flag? Se sim, é secundária grave até prova em contrário.

A pergunta que organiza tudo: primária ou secundária?

Toda cefaleia se encaixa em um de dois mundos. Entender essa divisão é o que evita tanto o excesso (tomografar enxaqueca) quanto a falha grave (liberar uma meningite).

  • Cefaleia primária → a dor é a doença. Não há lesão estrutural subjacente. São as mais comuns: enxaqueca, tensional e em salvas (cluster). Diagnóstico é clínico, baseado no padrão.
  • Cefaleia secundária → a dor é sintoma de outra doença (vascular, infecciosa, neoplásica, inflamatória). Exige investigação dirigida. É aqui que moram as emergências.

O pulo do gato: você não decide entre os dois mundos pelo “tipo de dor”, e sim pela presença ou ausência de sinais de alarme. Cefaleia primária é a regra estatística — mas qualquer red flag obriga a descartar a secundária grave primeiro.

1ª bifurcação: os sinais de alarme (red flags)

Diante de qualquer cefaleia, o primeiro movimento é buscar ativamente red flags. A presença de uma só já muda a conduta de “tratar como primária” para “investigar com neuroimagem e exames dirigidos”.

o que liga o alerta: investigar
RED FLAG O QUE SUGERE CONDUTA
Início SÚBITO “em trovão” (thunderclap)Hemorragia subaracnóidea; pior cefaleia da vidaTC de crânio urgente; se normal, punção lombar
Cefaleia NOVA após os 50 anosArterite temporal, tumor, lesão estruturalNeuroimagem; VHS/PCR se suspeita de arterite
Febre + rigidez de nucaMeningite / encefalitePunção lombar (após TC se sinal focal/HIC)
Papiledema / sinais de HICHipertensão intracraniana, tumor, trombose venosaNeuroimagem (TC/RM) antes de qualquer PL
Déficit neurológico focalLesão expansiva, AVC, processo estruturalNeuroimagem dirigida
Piora com Valsalva / posturalHipertensão intracraniana, lesão de fossa posteriorNeuroimagem (preferir RM)
Câncer, HIV ou imunossupressãoMetástase, infecção oportunista, abscessoNeuroimagem com contraste; investigar conforme contexto
Mudança do padrão habitualCefaleia conhecida que mudou caráter/frequênciaReavaliar e considerar neuroimagem

2ª passo: as secundárias graves que não podem passar

Quando há red flag, a investigação mira nas secundárias que matam ou deixam sequela. Estas são as que o ENAMED mais cobra — reconheça o gatilho clínico e a conduta de cada uma.

as que não podem passar
DIAGNÓSTICO GATILHO NA QUESTÃO CONDUTA-CHAVE
Hemorragia subaracnóideaThunderclap + “pior cefaleia da vida” + rigidez de nucaTC de crânio; se normal e alta suspeita → PL com xantocromia
MeningiteFebre + cefaleia + rigidez de nuca (Kernig/Brudzinski)Punção lombar (após TC se sinal focal/HIC); ATB precoce
Hipertensão intracraniana / tumorPapiledema, cefaleia que piora ao deitar/de manhã, vômitosNeuroimagem (TC/RM); NÃO fazer PL antes da imagem
Arterite temporal (de células gigantes)Idoso, claudicação de mandíbula, dor temporal, alteração visualVHS muito alto; corticoide imediato; biópsia da temporal
Esquema de raciocínio sindrômico — Cefaleias
A árvore de decisão da síndrome em um olhar.
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As cefaleias primárias

Descartadas as red flags, sobram as primárias — as mais frequentes na prática e na prova. Aqui o diagnóstico é clínico, pelo padrão da dor. Compare as três:

enxaqueca × tensional × em salvas
CARACTERÍSTICA ENXAQUECA TENSIONAL EM SALVAS (CLUSTER)
LocalizaçãoUnilateral (pode alternar)Bilateral, holocranianaPeriorbitária, estritamente unilateral
Caráter da dorPulsátil / latejanteEm aperto / peso (não pulsátil)Excruciante, “em facada”
IntensidadeModerada a forteLeve a moderadaMuito intensa
Sintomas associadosNáusea, foto/fonofobia, com ou sem auraSem náusea; sem foto/fonofobia marcantesAutonômicos: lacrimejamento, rinorreia, ptose, miose
Atividade físicaPiora; paciente prefere repouso no escuroNão pioraPaciente fica agitado, sem conseguir parar
Padrão temporalCrises de 4–72 hEpisódica ou crônicaSurtos curtos (15–180 min), em “salvas” diárias

Conduta inicial

O raciocínio sindrômico também organiza a abordagem — você não pede neuroimagem para todo mundo, segue a árvore:

  1. Caracterizar a cefaleia — início, instalação, localização, caráter, intensidade, duração, fatores de melhora/piora e sintomas associados.
  2. Buscar ativamente red flags — anamnese e exame neurológico dirigidos (consciência, sinais meníngeos, fundoscopia, déficit focal).
  3. Se houver red flag → neuroimagem (TC ou RM) e exames conforme a suspeita: punção lombar (HSA, meningite), VHS/PCR (arterite temporal).
  4. Sequência crítica: se houver sinal de hipertensão intracraniana ou déficit focal, faça neuroimagem ANTES da punção lombar.
  5. Sem red flag + padrão típico de primária → diagnóstico clínico e tratamento da cefaleia (sem neuroimagem).
★ mnemônico — red flags de cefaleia

“As 6 sentinelas: SÚBITO, IDADE, FEBRE, FOCO, PRESSÃO, PADRÃO”

Súbito (thunderclap → HSA) · Idade nova após 50 anos (arterite/tumor) · Febre + rigidez de nuca (meningite) · Foco neurológico/papiledema (lesão estrutural) · Pressão intracraniana (piora ao deitar/Valsalva) · Padrão que mudou / paciente com câncer/HIV. Qualquer uma = investigar.

Pérola de prova e a armadilha clássica

💡 pérola de prova

A “pior cefaleia da vida”, de início súbito (thunderclap), é hemorragia subaracnóidea até prova em contrário — solicite TC de crânio sem contraste urgente. Se a TC for normal mas a suspeita persistir (sensibilidade cai com o tempo), prossiga com punção lombar em busca de xantocromia. Nunca dê alta com analgésico sem antes descartar a HSA.

🚨 sinal de gravidade

São sinais de que a cefaleia é secundária grave e exige ação imediata: rebaixamento do nível de consciência, sinais de hipertensão intracraniana (papiledema, vômitos, piora ao deitar), sinais meníngeos (rigidez de nuca, Kernig/Brudzinski) e déficit neurológico focal. Qualquer um desses tira o paciente do trilho “primária” e o coloca em investigação de emergência.

⚠️ armadilha

NÃO faça punção lombar antes da TC se houver sinal de hipertensão intracraniana (papiledema, vômitos, rebaixamento) ou déficit neurológico focal. Retirar líquor com pressão intracraniana elevada pode precipitar herniação cerebral. A neuroimagem vem primeiro; só então, se segura, a PL.

O que levar para a prova

Não decore lista de cefaleias. Decore a sequência de perguntas: (1) há red flag? Se sim, investigue a secundária grave (e neuroimagem antes da PL quando houver HIC ou foco). (2) Se não, e o padrão for típico, é primária — enxaqueca, tensional ou em salvas, com diagnóstico clínico. O thunderclap é hemorragia subaracnóidea até prova em contrário. Com essa árvore, qualquer questão de cefaleia do ENAMED vira um exercício de eliminação — exatamente o que a abordagem sindrômica foi feita para resolver.

material recomendado

Fichas Sindrômicas de Clínica Médica

O caderno visual que ensina o ENAMED por síndrome, não por doença solta. Cada ficha é uma árvore de raciocínio ilustrada — cefaleia, icterícia, dispneia, AVE, febre e mais, do jeito que a prova cobra.

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Referências: Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3) — International Headache Society. Diretrizes da Academia Brasileira de Neurologia / Sociedade Brasileira de Cefaleia (versão vigente). Kasper DL et al. — Medicina Interna de Harrison. Conteúdo de revisão para fins didáticos.