Na frente do campo cirúrgico, ninguém tem tempo de “lembrar a teoria”. Ou você sabe qual fio usar em cada tecido — e por quê — ou trava. A boa notícia: a escolha do fio não é decoreba de marca. É raciocínio por duas perguntas simples (some ou não some? fio único ou trançado?) que te entrega quase tudo. Quem entende a lógica acerta até num fio que nunca viu na vida.
- 1ª pergunta: o fio é absorvível (some sozinho) ou inabsorvível (fica / precisa retirar)?
- Absorvível → planos profundos, subcutâneo, mucosa, aponeurose (ex.: Vicryl, Monocryl, PDS, categute).
- Inabsorvível → pele, vasos, tendões, parede (ex.: náilon, Prolene, seda, aço).
- 2ª pergunta: monofilamentar (fio único, menos infecção) ou multifilamentar (trançado, mais reação)?
- Calibre (USP): quanto mais zeros, mais fino (5-0 é mais fino que 2-0).
Na prática: o fio resolve dois problemas ao mesmo tempo
Todo fio de sutura tem uma só missão: manter os tecidos coaptados pelo tempo necessário até a cicatrização. A partir daí surgem as escolhas. Um plano profundo que vai cicatrizar e nunca mais será visto não precisa de um fio eterno — ele só atrapalharia. Já a pele, que precisa de sustentação até a retirada dos pontos e fica exposta ao ambiente, pede um fio que deslize fácil e provoque pouca reação.
Por isso a decisão se reduz a duas perguntas em sequência: (1) o tecido vai cicatrizar e dispensar o fio — então absorvível; ou precisa de sustentação prolongada / o fio será retirado — então inabsorvível. E (2) o tecido tolera reação inflamatória — pode ser trançado; ou está contaminado / muito exposto — exige monofilamentar. Responda as duas e o fio quase se escolhe sozinho.

1ª divisão: absorvível × inabsorvível
Esta é a bifurcação que mais define a escolha. A pergunta é uma só: o organismo vai reabsorver o fio, ou ele permanece? Cada lado tem indicações próprias e fios clássicos que caem em prova e aparecem no campo.
| TIPO | EXEMPLOS | ONDE USAR |
|---|---|---|
| Absorvível — naturais | Categute simples e cromado (reabsorvidos por digestão enzimática, mais reação tecidual) | Mucosa, planos profundos de baixa exigência |
| Absorvível — sintéticos | Poliglactina (Vicryl), poliglecaprona (Monocryl), polidioxanona (PDS) — reabsorvidos por hidrólise | Subcutâneo, mucosa, aponeurose, planos profundos |
| Inabsorvível | Náilon (mononylon), polipropileno (Prolene), seda, aço | Pele, vasos, tendões, parede abdominal (sustentação prolongada) |
2ª divisão: monofilamentar × multifilamentar
Dentro de cada grupo, a próxima pergunta é sobre a estrutura do fio: é um filamento único ou vários fios trançados? Essa diferença muda o deslizamento, a segurança do nó e — o que mais importa em ferida — o risco de infecção.
| CARACTERÍSTICA | MONOFILAMENTAR | MULTIFILAMENTAR (trançado) |
|---|---|---|
| Estrutura | Fio único, liso | Vários filamentos trançados |
| Deslizamento no tecido | Desliza fácil, menos trauma | Mais atrito (“serra” o tecido) |
| Segurança do nó | Menor — precisa de mais nós | Maior — nó firme, melhor manuseio |
| Reação / infecção | MENOS infecção (sem interstícios para bactéria) | MAIS reação e infecção (abriga bactérias) |
| Exemplos | Náilon, Prolene, Monocryl, PDS | Seda, Vicryl (poliglactina) |

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Qual fio em cada tecido
Com as duas divisões na cabeça, encaixe o fio em cada tecido. E lembre do calibre (USP): quanto mais zeros, mais fino — pele de face pede fios finos (5-0, 6-0); aponeurose pede algo mais grosso. Esta é a tabela que resolve a maioria das situações de campo:
| TECIDO | FIO DE ESCOLHA | POR QUÊ |
|---|---|---|
| Pele | Inabsorvível mono — náilon (mononylon) ou Prolene | Pouca reação, retirado depois; face usa 5-0 / 6-0 |
| Subcutâneo | Absorvível — Vicryl, Monocryl | Plano profundo: some sozinho, sem precisar retirar |
| Mucosa | Absorvível — Vicryl, categute | Não há como retirar pontos; reabsorve |
| Aponeurose / parede | PDS ou Vicryl (absorvível de longa duração); calibre mais grosso | Precisa de sustentação prolongada até cicatrizar |
| Vaso | Inabsorvível mono — Prolene (polipropileno) | Liso, mínima reação, não fragmenta na parede vascular |
“Mais zeros = mais fino”
Na escala USP, cada zero a mais deixa o fio mais delgado: 6-0 < 5-0 < 4-0 < 3-0 < 2-0 < 0 < 1. Pele de face = finíssimo (5-0, 6-0). Aponeurose e parede = mais grosso (0, 1).
Pérola de prova e a armadilha clássica
Memorize os “queridinhos” de cada lugar: Prolene (polipropileno) é o fio dos vasos e da parede abdominal — monofilamentar, liso e de mínima reação; o náilon é o fio clássico da pele, retirado após a cicatrização. Acertar esses dois pares já resolve a maioria das questões sobre fios.
Fio trançado em ferida contaminada é cilada. O multifilamentar (clássico: a seda) tem interstícios entre os filamentos que abrigam bactérias e aumentam a infecção. Em ferida suja/contaminada, prefira monofilamentar. Não use seda achando que “segura melhor” — em meio contaminado, ela favorece a infecção do sítio cirúrgico.
O que levar para o centro cirúrgico
Não decore marca de fio. Decore as duas perguntas em sequência: (1) o tecido vai cicatrizar e dispensar o fio (absorvível) ou precisa de sustentação / será retirado (inabsorvível)? (2) o tecido tolera reação (trançado) ou está exposto/contaminado (monofilamentar)? Ajuste o calibre pela delicadeza do tecido — mais zeros, mais fino. Com isso, pele pede náilon, subcutâneo e mucosa pedem absorvível, aponeurose pede PDS/Vicryl e vaso pede Prolene. A escolha vira reflexo.
Manual de Cirurgia Geral
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