Sutura no plantão, drenagem de abscesso, biópsia de pele — quase tudo na cirurgia geral começa com uma seringa de lidocaína. Parece simples, mas é justamente aqui que mora a pegadinha de prova e o erro de bancada: qual a dose máxima? Pode usar adrenalina no dedo? E quando o paciente começa a sentir gosto metálico na boca, o que está acontecendo? Quem domina três números e duas regras anestesia com segurança — e gabarita a questão.
- Amidas (lido, bupi, ropi) têm dois “i” no nome, metabolismo hepático e quase não dão alergia.
- Ésteres (procaína, tetracaína, benzocaína) são metabolizados no plasma e dão mais alergia (metabólito PABA).
- Lidocaína: ~4,5 mg/kg sem vaso · ~7 mg/kg com adrenalina. Decore esses dois.
- Adrenalina prolonga o efeito e reduz sangramento — mas NUNCA em extremidade (dedo, nariz, orelha, pênis).
- Intoxicação (LAST): começa no SNC (gosto metálico, zumbido) e evolui para cardiotoxicidade. Antídoto: emulsão lipídica 20%.
Na prática: a lógica do anestésico local
O anestésico local bloqueia o canal de sódio da fibra nervosa, impedindo a propagação do impulso doloroso. A partir daí, toda decisão de bancada se resume a três perguntas: qual droga (amida ou éster), quanto posso injetar (dose máxima pelo peso) e uso ou não vasoconstritor (depende da região). Errar a primeira gera alergia; errar a segunda gera intoxicação; errar a terceira pode necrosar um dedo.
Exemplo clássico de plantão: paciente de 70 kg precisa de sutura extensa em laceração de coxa. Sem vaso, o teto é 4,5 mg/kg × 70 = ~315 mg de lidocaína. Com adrenalina, sobe para 7 mg/kg × 70 = ~490 mg — você ganha volume, duração e campo mais seco. A conta tem que estar na ponta da língua antes de aspirar a seringa.

Amidas × ésteres: como diferenciar
Todo anestésico local cai em um de dois grupos. A diferença não é decoreba pura — ela determina onde a droga é metabolizada e quem tem mais risco de alergia.
| CARACTERÍSTICA | AMIDAS | ÉSTERES |
|---|---|---|
| Exemplos | Lidocaína, bupivacaína, ropivacaína | Procaína, tetracaína, benzocaína |
| Metabolismo | Hepático (microssomal) | Plasmático (colinesterase) |
| Risco de alergia | Baixo (raríssima) | Maior — metabólito PABA |
| Pista do nome | Tem dois “i” (lidocaína) | Tem um “i” só (procaína) |
A dose máxima (decore esta)
A dose máxima é sempre calculada pelo peso (mg/kg) e muda conforme o uso de adrenalina. A adrenalina retarda a absorção sistêmica, então permite injetar mais. Atenção especial à bupivacaína: dose menor e muito mais cardiotóxica.
| DROGA | SEM VASOCONSTRITOR | COM ADRENALINA |
|---|---|---|
| Lidocaína | ~4,5 mg/kg | ~7 mg/kg |
| Bupivacaína | ~2 mg/kg | ~2,5 mg/kg |
| Lembrete-chave | Sempre multiplique pelo peso do paciente | Bupi = mais cardiotóxica, dose menor |

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Vasoconstritor: quando usar e onde NÃO
A adrenalina associada ao anestésico tem três vantagens claras — mas uma contraindicação clássica que o ENAMED adora cobrar: áreas de circulação terminal, onde a vasoconstrição pode causar isquemia e necrose.
| TÓPICO | O QUE ACONTECE |
|---|---|
| Prolonga a duração | Vasoconstrição mantém a droga no local por mais tempo |
| Reduz sangramento | Campo mais seco — útil em sutura e pequenos procedimentos |
| Reduz absorção sistêmica | Permite usar dose maior com mais segurança |
| NÃO usar em extremidade | Dedo, nariz, orelha, pênis — risco de isquemia/necrose |
“Amida tem 2 i”
Lidocaína · bupivacaína · ropivacaína — dois “i” no nome = amida (metabolismo hepático, pouca alergia). Um “i” só = éster (plasmático, mais alergia por PABA).
Pérola, armadilha e intoxicação (gravidade)
A dose máxima da lidocaína é o número mais cobrado: 4,5 mg/kg sem vasoconstritor e 7 mg/kg com adrenalina. Decore essa dupla e sempre multiplique pelo peso do paciente — é a conta que separa anestesia segura de intoxicação.
A toxicidade sistêmica do anestésico local (LAST) começa pelo SNC: gosto metálico, zumbido, parestesia perioral, tontura e convulsão. Se progride, vem a cardiotoxicidade — arritmia e colapso cardiovascular. Tratamento: suporte avançado + emulsão lipídica a 20% (antídoto que “sequestra” a droga). Parar a injeção ao primeiro sintoma salva o paciente.
Adrenalina em extremidade nunca. Dedo, nariz, orelha e pênis têm circulação terminal — a vasoconstrição pode necrosar. E o segundo erro fatal: ultrapassar a dose máxima calculada pelo peso leva direto à intoxicação (LAST). Os dois deslizes mais cobrados estão exatamente aqui.
O que levar para o plantão
Anestesia local é três números e duas regras. Amida tem dois “i” (hepático, pouca alergia); lidocaína 4,5 / 7 mg/kg (sem e com adrenalina); vaso prolonga e reduz sangramento, mas nunca em extremidade. E ao primeiro gosto metálico ou zumbido, pense em LAST e tenha a emulsão lipídica à mão. Com isso, você anestesia com segurança e ainda gabarita a questão.
Manual de Cirurgia Geral
O guia ilustrado que organiza a cirurgia geral para o plantão e a prova: anestesia local, doses, técnicas, condutas de emergência e as armadilhas que mais caem — direto ao ponto, do jeito que você precisa na bancada.



