AINEs e analgesia: mecanismo, escada da dor e cuidados — Amo Resumos

AINEs e analgesia: mecanismo, escada da dor e cuidados

Entender os AINEs é entender uma única enzima: a ciclo-oxigenase. Quase toda pergunta de prova sobre AINEs — do efeito analgésico à úlcera gástrica, da nefrotoxicidade ao risco cardiovascular — sai desse mesmo mecanismo. Por isso o tema é campeão de recorrência no ENAMED: quem domina a lógica da COX responde questões de farmacologia, clínica e até emergência sem decorar lista de fármacos.

Neste post você vai montar o raciocínio completo: como os AINEs agem, por que os efeitos adversos são previsíveis pelo mecanismo, e como encaixar tudo na escada analgésica da OMS. Também separo o paracetamol, que sempre aparece como pegadinha. Se quiser aprofundar depois, veja os Materiais de Farmacologia do Amo Resumos.

resumo de 30 segundos
  • Mecanismo: inibem a ciclo-oxigenase (COX) → ↓ prostaglandinas → efeito analgésico, anti-inflamatório e antitérmico.
  • COX-1 é constitutiva (protege mucosa gástrica, agrega plaqueta, mantém fluxo renal); COX-2 é induzível (inflamação).
  • Efeitos adversos previsíveis: gastrolesão (COX-1), nefrotoxicidade (↓ fluxo renal) e risco cardiovascular (coxibes).
  • Escada da OMS: 1 não-opioide → 2 opioide fraco → 3 opioide forte, sempre ± adjuvante.
  • Paracetamol analgésico/antitérmico, quase sem ação anti-inflamatória; overdose = hepatotoxicidade (antídoto N-acetilcisteína).

Um caso rápido para fixar o mecanismo

Idoso de 78 anos, hipertenso em uso de losartana, chega com lombalgia e vinha tomando ibuprofeno por conta própria há dez dias. Estava com pouca ingesta hídrica no calor. Exames mostram creatinina subindo. O que aconteceu? Os AINEs bloquearam as prostaglandinas que dilatam a arteríola aferente renal — justamente o mecanismo compensatório de quem está desidratado ou usa bloqueador do sistema renina-angiotensina. Resultado: injúria renal aguda (IRA) pré-renal. Nenhum detalhe desse caso é aleatório; todos derivam da inibição da COX.

AINEs: inibição da COX na via do ácido araquidônico — ilustração Amo Resumos
O AINE alivia porque bloqueia a COX — e é justamente por isso que agride estômago e rim.

Guarde a lógica central: a ciclo-oxigenase converte o ácido araquidônico em prostaglandinas e tromboxano. As prostaglandinas medeiam dor, febre e inflamação — mas também têm funções “de casa” (proteger o estômago, manter perfusão renal, modular plaquetas). Ao inibir a enzima, o AINE alivia sintomas e, ao mesmo tempo, tira essas proteções. Aí nascem os efeitos adversos.

COX-1 versus COX-2: a tabela que explica tudo

A maioria dos AINEs tradicionais (ibuprofeno, naproxeno, diclofenaco, cetoprofeno) inibe as duas isoformas. Os coxibes (celecoxibe, etoricoxibe) foram desenhados para poupar a COX-1 e reduzir a gastrolesão — mas essa seletividade tem preço no sistema cardiovascular. Entender a divisão de trabalho abaixo resolve a maior parte das questões.

COX-1 × COX-2
CARACTERÍSTICA COX-1 COX-2
Expressão Constitutiva (sempre presente) Induzível (na inflamação)
Função principal Proteção da mucosa gástrica, agregação plaquetária, fluxo renal Mediar dor, febre e inflamação
Inibição gera Úlcera/gastrolesão, ↓ perfusão renal, ↓ agregação Efeito anti-inflamatório desejado
Exemplos que a inibem AAS, ibuprofeno, naproxeno (não seletivos) Coxibes (seletivos); também os não seletivos
Risco associado Digestivo (sangramento, úlcera) Cardiovascular (trombose, com coxibes)

Repare na simetria que a prova adora cobrar: quanto mais seletivo para COX-2, menos gastrolesão e mais risco cardiovascular; quanto menos seletivo, mais proteção cardiovascular relativa (caso do naproxeno) e mais risco digestivo. O AAS é o extremo: inibe irreversivelmente a COX-1 plaquetária, por isso serve como antiagregante.

Efeitos adversos: todos saem do mecanismo

Não decore uma lista solta — deduza. Gastrolesão: a COX-1 mantém muco, bicarbonato e fluxo sanguíneo da mucosa; sem prostaglandinas, aparece úlcera e sangramento, muitas vezes indolor no idoso. Nefrotoxicidade: as prostaglandinas dilatam a arteríola aferente; em desidratado, idoso, cardiopata ou usuário de IECA/BRA e diurético (a “tríplice” nefrotóxica), o AINE precipita IRA. Retenção hidrossalina: menos prostaglandinas renais significa mais sódio e água retidos — daí edema e piora do controle pressórico. Cardiovascular: o desequilíbrio entre prostaciclina (vasodilatadora) e tromboxano favorece eventos trombóticos, sobretudo com coxibes e uso prolongado.

As interações também são mecanísticas. Com anti-hipertensivos (IECA, BRA, diuréticos), os AINEs reduzem a eficácia e somam risco renal. Com anticoagulantes e outros antiagregantes, aumentam o sangramento — efeito plaquetário mais lesão de mucosa. Por isso a pergunta clássica junta “AINE + varfarina + idoso” para cobrar hemorragia digestiva. Vale lembrar ainda a interação com o próprio AAS em dose antiagregante: o ibuprofeno pode competir pelo sítio da COX-1 plaquetária e reduzir o efeito cardioprotetor do ácido acetilsalicílico, algo relevante em quem faz prevenção secundária. Some a isso o risco em asmáticos com a tríade de Samter, em que a inibição da COX desvia o araquidonato para leucotrienos e desencadeia broncoespasmo.

★ mnemônico

“RIM SANGRA e CORAÇÃO”

RIM (nefrotoxicidade/IRA e retenção hídrica), SANGRA (gastrolesão e sangramento por COX-1) e CORAÇÃO (risco cardiovascular dos coxibes). Os três grandes danos dos AINEs, todos derivados da inibição da COX.

Escada analgésica da OMS: onde os AINEs entram

A escada analgésica organiza o tratamento da dor por intensidade. Os AINEs e o paracetamol são a base — o degrau 1 —, e podem (devem) ser mantidos junto com opioides nos degraus seguintes, porque somam mecanismos diferentes. Adjuvantes (antidepressivos, anticonvulsivantes, corticoide) entram em qualquer degrau, principalmente na dor neuropática.

escada analgésica da OMS
DEGRAU INTENSIDADE FÁRMACOS
1 Dor leve Não-opioide: AINE ou paracetamol ± adjuvante
2 Dor moderada Opioide fraco (codeína, tramadol) ± não-opioide ± adjuvante
3 Dor intensa Opioide forte (morfina, oxicodona) ± não-opioide ± adjuvante

Dois pontos que a banca gosta: a escada é bidirecional (sobe ou desce conforme a dor) e o não-opioide da base costuma ser mantido em todos os degraus. Além disso, na dor intensa aguda (por exemplo, oncológica ou pós-operatória grave), é legítimo iniciar direto pelo degrau forte, sem “subir degrau por degrau”.

Paracetamol: o falso AINE

Aqui mora a pegadinha mais frequente. O paracetamol (acetaminofeno) é analgésico e antitérmico, mas tem ação anti-inflamatória fraca/insignificante — logo, não é um AINE clássico. Sua vantagem é o baixo risco gástrico e renal em doses corretas, o que o torna primeira escolha em idoso, gestante e nefropata. O perigo é a dose: na overdose, o metabólito NAPQI satura a glutationa e causa hepatotoxicidade grave. O antídoto é a N-acetilcisteína, que repõe glutationa. Comparado aos AINEs, ele troca o risco digestivo/renal pelo risco hepático em superdosagem.

💡 pérola de prova

Em idoso, desidratado, cardiopata ou usuário de IECA/BRA + diurético, um AINE pode precipitar injúria renal aguda pré-renal. Diante de creatinina subindo com AINE recente, suspenda a droga e hidrate antes de pensar em outra causa.

⚠️ armadilha

Manter AINE por tempo prolongado sem proteção gástrica (inibidor de bomba de prótons no paciente de risco) e sem reavaliar a função renal. A úlcera por AINE costuma ser silenciosa no idoso e se apresentar direto como hemorragia digestiva.

O que levar para a prova

Fixe o eixo: AINEs inibem a ciclo-oxigenase, derrubam prostaglandinas e, com isso, entregam analgesia, ação anti-inflamatória e antitérmica — mas cobram o preço da COX-1 (estômago, rim, plaqueta) e, nos coxibes, da COX-2 (coração). Encaixe-os no degrau 1 da escada da OMS, mantidos junto de opioides quando a dor sobe. Lembre que o paracetamol não é AINE clássico e que sua toxicidade é hepática, revertida com N-acetilcisteína. Com esse raciocínio, os AINEs deixam de ser decoreba e viram questão resolvida. Para revisar farmacologia de forma esquemática, vale conferir os materiais recomendados abaixo.

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Materiais de Farmacologia do Amo Resumos

Resumos esquematizados de farmacologia com tabelas, mnemônicos e pérolas de prova — feitos para o raciocínio do ENAMED.

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Referências: Goodman & Gilman — As Bases Farmacológicas da Terapêutica; Katzung — Farmacologia Básica e Clínica; World Health Organization — Cancer Pain Relief / Escada Analgésica. Conteúdo de revisão para fins didáticos.