Toda cirurgia tem um inimigo silencioso: a infecção de sítio cirúrgico (ISC). E o que decide o risco dela não é só a técnica do cirurgião — começa antes, na classificação da ferida. Quem entende que cada classe carrega um risco diferente já sabe quando indicar antibiótico, quando não, e por que a profilaxia tem hora marcada. Esse é o raciocínio que a prova e o centro cirúrgico cobram.
- 4 classes de ferida por potencial de contaminação, com risco crescente de ISC: limpa → limpa-contaminada → contaminada → infectada.
- Limpa (~1–2%): eletiva, sem inflamação, sem abrir TGI/respiratório/genitourinário.
- Infectada/suja (>25%): pus, víscera perfurada, tecido desvitalizado — já é antibiótico terapêutico, não profilaxia.
- ISC pode ser superficial, profunda ou de órgão/cavidade; ocorre até 30 dias (ou 90 dias se houver prótese/implante).
- Antibioticoprofilaxia: até 60 minutos antes da incisão, dose certa, geralmente dose única. Depois da incisão, não funciona.
Na prática: por que classificar a ferida muda a conduta
Imagine dois pacientes na mesma sala. Um faz uma herniorrafia eletiva (ferida limpa, sem abrir víscera); o outro chega com apendicite perfurada e pus na cavidade (ferida suja). O primeiro provavelmente nem precisa de antibiótico; o segundo já entra em antibioticoterapia, porque a infecção já está instalada. A diferença entre eles não é o bisturi — é a classe da ferida.
Por isso o raciocínio cirúrgico parte sempre da mesma pergunta: qual o potencial de contaminação desta operação? A resposta define o risco esperado de ISC e, com ele, a decisão de indicar profilaxia, terapia ou nada. Classificar a ferida é o primeiro passo lógico — tudo o mais decorre daí.

As 4 classes de ferida
A classificação clássica organiza as feridas pelo grau de contaminação no momento da cirurgia. Quanto mais contaminada, maior o risco de infecção. Decore a sequência de risco crescente:
| CLASSE | DEFINIÇÃO | EXEMPLO | RISCO ISC |
|---|---|---|---|
| Limpa | Eletiva, sem inflamação, técnica asséptica preservada; não abre TGI, respiratório ou genitourinário | Herniorrafia, tireoidectomia, mastectomia | ~1–2% |
| Limpa-contaminada | Abre víscera oca de forma controlada, sem extravasamento grosseiro de conteúdo | Colecistectomia eletiva, gastrectomia, histerectomia | ~3–10% |
| Contaminada | Extravasamento grosseiro de conteúdo, trauma recente (< 4–6 h) ou inflamação aguda não purulenta | Ferida traumática recente, enterotomia com derrame, apendicite sem pus | ~10–15% |
| Infectada / suja | Pus presente, víscera perfurada, ou trauma antigo com tecido desvitalizado | Apendicite perfurada, abscesso, peritonite fecal | >25% |
O que é infecção de sítio cirúrgico (ISC)
ISC é a infecção que ocorre na região operada. Ela não é uma coisa só: classifica-se pela profundidade do plano acometido — e isso importa porque muda a gravidade, a investigação e o tratamento. Outro ponto-chave de prova é a janela de tempo para considerar uma infecção como ISC:
| TIPO | PLANO ACOMETIDO | EXEMPLO TÍPICO |
|---|---|---|
| Superficial | Pele e tecido subcutâneo | Celulite/secreção na incisão, deiscência superficial |
| Profunda | Fáscia e músculo | Abscesso na parede, deiscência aponeurótica com pus |
| Órgão / cavidade | Qualquer órgão ou espaço manipulado na cirurgia | Abscesso intra-abdominal, empiema, fístula anastomótica |
| Janela de tempo | Até 30 dias da cirurgia; até 90 dias se houver prótese/implante | Infecção tardia em prótese de quadril, tela de hérnia |

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Antibioticoprofilaxia: quando e como
Profilaxia é o antibiótico dado antes de a infecção existir, para reduzir o risco de ISC. A regra de ouro é o tempo: a dose precisa atingir nível tecidual adequado no momento da incisão. Por isso administra-se até 60 minutos antes de cortar. Quem indica é a classe da ferida somada aos fatores de risco do paciente:
| CLASSE | CONDUTA ANTIBIÓTICA | OBSERVAÇÃO |
|---|---|---|
| Limpa | Geralmente NÃO precisa | Exceção: prótese/implante ou alto risco (faz profilaxia) |
| Limpa-contaminada | Profilaxia indicada | Dose única na maioria; antes da incisão |
| Contaminada | Profilaxia indicada | Pode estender conforme contexto cirúrgico |
| Infectada / suja | Antibiótico TERAPÊUTICO (não é profilaxia) | A infecção já existe — trata por dias, não dose única |
Sobre o como: escolha o agente conforme a flora esperada da cirurgia, na dose correta (ajustada ao peso quando indicado), dose única na maioria dos casos. Repita a dose intraoperatória se a cirurgia for prolongada (geralmente além de 2 meias-vidas do fármaco) ou se houver sangramento volumoso.
“Limpa → Limpa-contaminada → Contaminada → Infectada”
A ordem das classes é também a ordem do risco de infecção (de ~1–2% até >25%). Quanto mais à direita, maior a contaminação — e mais provável a indicação de antibiótico (profilático nas do meio, terapêutico na última).
Pérola de prova e a armadilha clássica
Profilaxia tem hora marcada: até 60 minutos ANTES da incisão. O objetivo é ter o antibiótico em nível tecidual adequado no momento do corte. Dado depois da incisão, não funciona como profilaxia. E não adianta prolongar no pós-operatório sem necessidade — não reduz ISC e só aumenta efeitos adversos.
Não confunda profilaxia com terapia. Ferida contaminada ou infectada/suja com infecção estabelecida exige antibiótico TERAPÊUTICO (por dias), não dose única profilática. E prolongar a profilaxia desnecessariamente aumenta a resistência bacteriana sem reduzir a ISC.
O que levar para a prova e o centro cirúrgico
Fixe a lógica em três passos: (1) classifique a ferida pelo potencial de contaminação — limpa, limpa-contaminada, contaminada ou infectada — e leia o risco de ISC nela embutido; (2) lembre que ISC pode ser superficial, profunda ou de órgão/cavidade, dentro de 30 dias (90 se prótese); (3) decida o antibiótico: profilaxia até 60 min antes da incisão nas classes indicadas, e terapia quando a infecção já existe. Com isso, qualquer questão de ferida e ISC vira eliminação direta — e a conduta no centro cirúrgico fica segura.
Manual de Cirurgia Geral
O material visual que organiza a cirurgia do jeito que a prova e o centro cirúrgico cobram — classificação de feridas, profilaxia, ISC, pré e pós-operatório, tudo em fluxos de raciocínio ilustrados e prontos para revisar.



