Fios de Sutura — ilustração hand-drawn — Amo Resumos

Fios de sutura: absorvíveis × inabsorvíveis e como escolher

Na frente do campo cirúrgico, ninguém tem tempo de “lembrar a teoria”. Ou você sabe qual fio usar em cada tecido — e por quê — ou trava. A boa notícia: a escolha do fio não é decoreba de marca. É raciocínio por duas perguntas simples (some ou não some? fio único ou trançado?) que te entrega quase tudo. Quem entende a lógica acerta até num fio que nunca viu na vida.

resumo de 30 segundos
  • 1ª pergunta: o fio é absorvível (some sozinho) ou inabsorvível (fica / precisa retirar)?
  • Absorvível → planos profundos, subcutâneo, mucosa, aponeurose (ex.: Vicryl, Monocryl, PDS, categute).
  • Inabsorvível → pele, vasos, tendões, parede (ex.: náilon, Prolene, seda, aço).
  • 2ª pergunta: monofilamentar (fio único, menos infecção) ou multifilamentar (trançado, mais reação)?
  • Calibre (USP): quanto mais zeros, mais fino (5-0 é mais fino que 2-0).

Na prática: o fio resolve dois problemas ao mesmo tempo

Todo fio de sutura tem uma só missão: manter os tecidos coaptados pelo tempo necessário até a cicatrização. A partir daí surgem as escolhas. Um plano profundo que vai cicatrizar e nunca mais será visto não precisa de um fio eterno — ele só atrapalharia. Já a pele, que precisa de sustentação até a retirada dos pontos e fica exposta ao ambiente, pede um fio que deslize fácil e provoque pouca reação.

Por isso a decisão se reduz a duas perguntas em sequência: (1) o tecido vai cicatrizar e dispensar o fio — então absorvível; ou precisa de sustentação prolongada / o fio será retirado — então inabsorvível. E (2) o tecido tolera reação inflamatória — pode ser trançado; ou está contaminado / muito exposto — exige monofilamentar. Responda as duas e o fio quase se escolhe sozinho.

Fios de sutura absorvíveis e inabsorvíveis — ilustração hand-drawn
Absorvíveis (planos profundos, mucosa) × inabsorvíveis (pele, estruturas que precisam de força duradoura); mono = menos infecção, multi = mais manuseio.

1ª divisão: absorvível × inabsorvível

Esta é a bifurcação que mais define a escolha. A pergunta é uma só: o organismo vai reabsorver o fio, ou ele permanece? Cada lado tem indicações próprias e fios clássicos que caem em prova e aparecem no campo.

o fio some ou fica?
TIPO EXEMPLOS ONDE USAR
Absorvível — naturaisCategute simples e cromado (reabsorvidos por digestão enzimática, mais reação tecidual)Mucosa, planos profundos de baixa exigência
Absorvível — sintéticosPoliglactina (Vicryl), poliglecaprona (Monocryl), polidioxanona (PDS) — reabsorvidos por hidróliseSubcutâneo, mucosa, aponeurose, planos profundos
InabsorvívelNáilon (mononylon), polipropileno (Prolene), seda, açoPele, vasos, tendões, parede abdominal (sustentação prolongada)

2ª divisão: monofilamentar × multifilamentar

Dentro de cada grupo, a próxima pergunta é sobre a estrutura do fio: é um filamento único ou vários fios trançados? Essa diferença muda o deslizamento, a segurança do nó e — o que mais importa em ferida — o risco de infecção.

fio único ou trançado?
CARACTERÍSTICA MONOFILAMENTAR MULTIFILAMENTAR (trançado)
EstruturaFio único, lisoVários filamentos trançados
Deslizamento no tecidoDesliza fácil, menos traumaMais atrito (“serra” o tecido)
Segurança do nóMenor — precisa de mais nósMaior — nó firme, melhor manuseio
Reação / infecçãoMENOS infecção (sem interstícios para bactéria)MAIS reação e infecção (abriga bactérias)
ExemplosNáilon, Prolene, Monocryl, PDSSeda, Vicryl (poliglactina)
Esquema — Fios de Sutura
O esquema da decisão em um olhar.
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Qual fio em cada tecido

Com as duas divisões na cabeça, encaixe o fio em cada tecido. E lembre do calibre (USP): quanto mais zeros, mais fino — pele de face pede fios finos (5-0, 6-0); aponeurose pede algo mais grosso. Esta é a tabela que resolve a maioria das situações de campo:

o fio certo por tecido
TECIDO FIO DE ESCOLHA POR QUÊ
PeleInabsorvível mono — náilon (mononylon) ou ProlenePouca reação, retirado depois; face usa 5-0 / 6-0
SubcutâneoAbsorvível — Vicryl, MonocrylPlano profundo: some sozinho, sem precisar retirar
MucosaAbsorvível — Vicryl, categuteNão há como retirar pontos; reabsorve
Aponeurose / paredePDS ou Vicryl (absorvível de longa duração); calibre mais grossoPrecisa de sustentação prolongada até cicatrizar
VasoInabsorvível mono — Prolene (polipropileno)Liso, mínima reação, não fragmenta na parede vascular
★ mnemônico — calibre do fio

“Mais zeros = mais fino”

Na escala USP, cada zero a mais deixa o fio mais delgado: 6-0 < 5-0 < 4-0 < 3-0 < 2-0 < 0 < 1. Pele de face = finíssimo (5-0, 6-0). Aponeurose e parede = mais grosso (0, 1).

Pérola de prova e a armadilha clássica

💡 pérola de prova

Memorize os “queridinhos” de cada lugar: Prolene (polipropileno) é o fio dos vasos e da parede abdominal — monofilamentar, liso e de mínima reação; o náilon é o fio clássico da pele, retirado após a cicatrização. Acertar esses dois pares já resolve a maioria das questões sobre fios.

⚠️ armadilha

Fio trançado em ferida contaminada é cilada. O multifilamentar (clássico: a seda) tem interstícios entre os filamentos que abrigam bactérias e aumentam a infecção. Em ferida suja/contaminada, prefira monofilamentar. Não use seda achando que “segura melhor” — em meio contaminado, ela favorece a infecção do sítio cirúrgico.

O que levar para o centro cirúrgico

Não decore marca de fio. Decore as duas perguntas em sequência: (1) o tecido vai cicatrizar e dispensar o fio (absorvível) ou precisa de sustentação / será retirado (inabsorvível)? (2) o tecido tolera reação (trançado) ou está exposto/contaminado (monofilamentar)? Ajuste o calibre pela delicadeza do tecido — mais zeros, mais fino. Com isso, pele pede náilon, subcutâneo e mucosa pedem absorvível, aponeurose pede PDS/Vicryl e vaso pede Prolene. A escolha vira reflexo.

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Referências: Townsend CM et al. — Sabiston — Tratado de Cirurgia (22ª ed, 2025). Goffi FS et al. — Técnica Cirúrgica: Bases Anatômicas, Fisiopatológicas e Técnicas da Cirurgia (versão vigente). Conteúdo de revisão para fins didáticos.