Infecções fúngicas matam mais de 1,5 milhão de pessoas por ano no mundo — quase o mesmo que a tuberculose. Mas enquanto a TB recebe enorme atenção, as micoses permanecem subestimadas, subdiagnosticadas e subtratadas. Para o médico clínico, saber reconhecer Candida, Aspergillus, Cryptococcus e os dermatófitos não é detalhe de especialista — é competência básica essencial, especialmente em pacientes imunossuprimidos.
Neste guia você vai entender o que distingue fungos de bactérias, os principais fungos patogênicos para humanos, seus mecanismos de doença, como diagnosticá-los e como tratá-los — com foco nos fungos mais cobrados em provas de medicina e nos cenários clínicos que mais aparecem.
- Fungos são eucariontes: têm núcleo, mitocôndria e parede de quitina (não peptidoglicano). Resistem aos antibióticos bacterianos.
- Leveduras (unicelulares): Candida, Cryptococcus. Bolores (hifas): Aspergillus, dermatófitos. Dimórficos: bolores no ambiente, leveduras no corpo humano (Histoplasma, Coccidioides).
- Antifúngicos atuam principalmente no ergosterol da membrana fúngica (azóis, anfotericina B, equinocandinas na síntese de β-glucana).
- Candida albicans: causa de candidíase oral, esofágica, vaginal, candidemia. Forma tubo germinativo — diferencia de outras espécies de Candida.
- Aspergillus fumigatus: aspergilose invasiva em neutropênicos. Cryptococcus neoformans: meningite criptocócica em HIV+ com CD4 <100.
Fungos vs bactérias: diferenças fundamentais
Fungos são eucariontes — têm núcleo definido com membrana, organelas, ribossomos 80S e mitocôndrias. Isso os torna radicalmente diferentes das bactérias (procariontes) e explica por que antibióticos bacterianos são completamente ineficazes contra fungos. As diferenças-chave que definem os alvos terapêuticos:

| CARACTERÍSTICA | FUNGO | BACTÉRIA | HUMANO |
|---|---|---|---|
| Tipo celular | Eucarionte | Procarionte | Eucarionte |
| Parede celular | Quitina + β-glucana | Peptidoglicano | Ausente |
| Membrana celular | Ergosterol | Sem esterol (exceto Mycoplasma) | Colesterol |
| Ribossomos | 80S | 70S | 80S |
| Alvo antifúngico | Ergosterol, quitina, β-glucana | — | — |
Candida: o fungo mais comum em UTI
Candida albicans faz parte da microbiota normal de mucosas (oral, vaginal, intestinal). Quando as defesas caem — imunossupressão, uso prolongado de antibióticos de amplo espectro, cateter venoso central, nutrição parenteral, cirurgia abdominal — ela se converte em patógeno oportunista. As manifestações vão da candidíase oral superficial à candidemia com disseminação hematogênica para olhos, rins, coração e cérebro.
| FORMA | POPULAÇÃO DE RISCO | TRATAMENTO |
|---|---|---|
| Candidíase oral (sapinho) | RN, HIV, corticoide inalatório sem bochechar | Nistatina tópica, fluconazol |
| Esofagite por Candida | HIV (CD4 <200), imunossuprimidos | Fluconazol VO |
| Candidíase vulvovaginal | Gestantes, uso de antibióticos, DM | Fluconazol dose única, nistatina tópica |
| Candidemia / Candidíase invasiva | UTI, neutropênicos, CVC, NP total | Equinocandinas (caspofungina) — primeira linha; anfotericina B |
Aspergillus: o bolor das vias aéreas
Aspergillus fumigatus é um bolor ubíquo no ambiente — seus conídios (esporos) são inalados diariamente por todos. Em imunocompetentes, o sistema imune os elimina sem dificuldade. Em neutropênicos profundos (leucemia em quimioterapia, transplantados) e em pacientes com doença granulomatosa crônica, os conídios germinam e produzem hifas que invadem vasos sanguíneos e tecido pulmonar — é a aspergilose invasiva, com mortalidade de 40–80%.
Além da forma invasiva, o Aspergillus causa outros quadros: aspergiloma (bola fúngica em cavidade pré-existente, como caverna de TB), ABPA (aspergilose broncopulmonar alérgica, em asmáticos e fibrose cística) e otomicose.
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Cryptococcus: meningite em imunossuprimidos
Cryptococcus neoformans é uma levedura encapsulada encontrada em excretas de pombos. A infecção ocorre por inalação, mas raramente causa doença em imunocompetentes. Em pacientes com HIV com CD4 <100 ou transplantados com imunossupressão intensa, causa meningoencefalite criptocócica — com apresentação insidiosa: cefaleia progressiva, febre baixa, alterações visuais e cognitivas. O diagnóstico clássico é a tinta nanquim no LCR, que revela leveduras encapsuladas com halo claro característico.
Dermatófitos: as micoses superficiais
Dermatófitos são fungos que infectam estruturas queratinizadas (pele, pelo, unhas). Os três gêneros principais são Trichophyton, Microsporum e Epidermophyton. As doenças que causam são chamadas de tineas, classificadas pelo local acometido:
| NOME | LOCAL | TRATAMENTO |
|---|---|---|
| T. capitis | Couro cabeludo | Griseofulvina VO (tópico não penetra no folículo) |
| T. corporis | Corpo (tinha do corpo, “impigem”) | Azol tópico (clotrimazol, miconazol) |
| T. pedis | Pés (“pé de atleta”) | Azol tópico; terbinafina tópica |
| T. unguium (onicomicose) | Unhas | Terbinafina VO (longa duração) |
| T. cruris | Virilha | Azol tópico |
Antifúngicos: mecanismos de ação
| CLASSE | MECANISMO | EXEMPLOS / USO |
|---|---|---|
| Azóis | Inibem lanosterol 14α-demetilase → ↓ síntese de ergosterol | Fluconazol (Candida, criptococose), Voriconazol (Aspergillus), Itraconazol |
| Polienos | Ligam ao ergosterol → formam poros na membrana → fungicida | Anfotericina B (sistêmica grave), Nistatina (tópica) |
| Equinocandinas | Inibem β-(1,3)-glucana sintase → destrói parede fúngica | Caspofungina, Micafungina (candidemia grave, aspergilose) |
| Alilaminas | Inibem esqualeno epoxidase → ↓ síntese de ergosterol | Terbinafina (onicomicose, tinha) |
Mnemônico: fungos dimórficos
“No Barro (ambiente) sou Bolor, no Corpo (37°C) viro Levedura”
Os fungos dimórficos: Histoplasma capsulatum, Blastomyces dermatitidis, Coccidioides immitis, Paracoccidioides brasiliensis, Sporotrix schenckii. Todos são bolores no solo/ambiente e leveduras no corpo humano a 37°C — exceto Coccidioides (forma esférulas no tecido).
Conclusão
Micoses são subdiagnosticadas porque os médicos pensam nelas tarde. O paciente neutropênico com febre persistente apesar de antibióticos precisa ter aspergilose invasiva considerada. O paciente HIV+ com cefaleia progressiva e CD4 baixo precisa ter punção lombar com nanquim. A candidúria no cateterizado não é “contaminação” em todo imunossuprimido. Conhecer os fungos mais importantes, seus nichos e seus antivirais é a diferença entre o diagnóstico precoce e a morte por infecção tratável.
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