Micologia Médica Básica — ilustração hand-draw — Amo Resumos

Micologia Médica: fungos e antifúngicos

Infecções fúngicas matam mais de 1,5 milhão de pessoas por ano no mundo — quase o mesmo que a tuberculose. Mas enquanto a TB recebe enorme atenção, as micoses permanecem subestimadas, subdiagnosticadas e subtratadas. Para o médico clínico, saber reconhecer Candida, Aspergillus, Cryptococcus e os dermatófitos não é detalhe de especialista — é competência básica essencial, especialmente em pacientes imunossuprimidos.

Neste guia você vai entender o que distingue fungos de bactérias, os principais fungos patogênicos para humanos, seus mecanismos de doença, como diagnosticá-los e como tratá-los — com foco nos fungos mais cobrados em provas de medicina e nos cenários clínicos que mais aparecem.

resumo de 30 segundos
  • Fungos são eucariontes: têm núcleo, mitocôndria e parede de quitina (não peptidoglicano). Resistem aos antibióticos bacterianos.
  • Leveduras (unicelulares): Candida, Cryptococcus. Bolores (hifas): Aspergillus, dermatófitos. Dimórficos: bolores no ambiente, leveduras no corpo humano (Histoplasma, Coccidioides).
  • Antifúngicos atuam principalmente no ergosterol da membrana fúngica (azóis, anfotericina B, equinocandinas na síntese de β-glucana).
  • Candida albicans: causa de candidíase oral, esofágica, vaginal, candidemia. Forma tubo germinativo — diferencia de outras espécies de Candida.
  • Aspergillus fumigatus: aspergilose invasiva em neutropênicos. Cryptococcus neoformans: meningite criptocócica em HIV+ com CD4 <100.

Fungos vs bactérias: diferenças fundamentais

Fungos são eucariontes — têm núcleo definido com membrana, organelas, ribossomos 80S e mitocôndrias. Isso os torna radicalmente diferentes das bactérias (procariontes) e explica por que antibióticos bacterianos são completamente ineficazes contra fungos. As diferenças-chave que definem os alvos terapêuticos:

Mecanismos de ação dos antifúngicos: azóis, anfotericina B, equinocandinas e 5-FC
Antifúngicos e seus alvos: ergosterol (azóis e anfotericina), parede fúngica (equinocandinas) e DNA (5-FC).
fungos vs bactérias vs células humanas
CARACTERÍSTICA FUNGO BACTÉRIA HUMANO
Tipo celularEucarionteProcarionteEucarionte
Parede celularQuitina + β-glucanaPeptidoglicanoAusente
Membrana celularErgosterolSem esterol (exceto Mycoplasma)Colesterol
Ribossomos80S70S80S
Alvo antifúngicoErgosterol, quitina, β-glucana

Candida: o fungo mais comum em UTI

Candida albicans faz parte da microbiota normal de mucosas (oral, vaginal, intestinal). Quando as defesas caem — imunossupressão, uso prolongado de antibióticos de amplo espectro, cateter venoso central, nutrição parenteral, cirurgia abdominal — ela se converte em patógeno oportunista. As manifestações vão da candidíase oral superficial à candidemia com disseminação hematogênica para olhos, rins, coração e cérebro.

candidíase · formas clínicas e populações de risco
FORMA POPULAÇÃO DE RISCO TRATAMENTO
Candidíase oral (sapinho)RN, HIV, corticoide inalatório sem bochecharNistatina tópica, fluconazol
Esofagite por CandidaHIV (CD4 <200), imunossuprimidosFluconazol VO
Candidíase vulvovaginalGestantes, uso de antibióticos, DMFluconazol dose única, nistatina tópica
Candidemia / Candidíase invasivaUTI, neutropênicos, CVC, NP totalEquinocandinas (caspofungina) — primeira linha; anfotericina B

Aspergillus: o bolor das vias aéreas

Aspergillus fumigatus é um bolor ubíquo no ambiente — seus conídios (esporos) são inalados diariamente por todos. Em imunocompetentes, o sistema imune os elimina sem dificuldade. Em neutropênicos profundos (leucemia em quimioterapia, transplantados) e em pacientes com doença granulomatosa crônica, os conídios germinam e produzem hifas que invadem vasos sanguíneos e tecido pulmonar — é a aspergilose invasiva, com mortalidade de 40–80%.

Além da forma invasiva, o Aspergillus causa outros quadros: aspergiloma (bola fúngica em cavidade pré-existente, como caverna de TB), ABPA (aspergilose broncopulmonar alérgica, em asmáticos e fibrose cística) e otomicose.

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Cryptococcus: meningite em imunossuprimidos

Cryptococcus neoformans é uma levedura encapsulada encontrada em excretas de pombos. A infecção ocorre por inalação, mas raramente causa doença em imunocompetentes. Em pacientes com HIV com CD4 <100 ou transplantados com imunossupressão intensa, causa meningoencefalite criptocócica — com apresentação insidiosa: cefaleia progressiva, febre baixa, alterações visuais e cognitivas. O diagnóstico clássico é a tinta nanquim no LCR, que revela leveduras encapsuladas com halo claro característico.

Dermatófitos: as micoses superficiais

Dermatófitos são fungos que infectam estruturas queratinizadas (pele, pelo, unhas). Os três gêneros principais são Trichophyton, Microsporum e Epidermophyton. As doenças que causam são chamadas de tineas, classificadas pelo local acometido:

tineas · localização e tratamento
NOME LOCAL TRATAMENTO
T. capitisCouro cabeludoGriseofulvina VO (tópico não penetra no folículo)
T. corporisCorpo (tinha do corpo, “impigem”)Azol tópico (clotrimazol, miconazol)
T. pedisPés (“pé de atleta”)Azol tópico; terbinafina tópica
T. unguium (onicomicose)UnhasTerbinafina VO (longa duração)
T. crurisVirilhaAzol tópico

Antifúngicos: mecanismos de ação

antifúngicos · mecanismo e indicações
CLASSE MECANISMO EXEMPLOS / USO
AzóisInibem lanosterol 14α-demetilase → ↓ síntese de ergosterolFluconazol (Candida, criptococose), Voriconazol (Aspergillus), Itraconazol
PolienosLigam ao ergosterol → formam poros na membrana → fungicidaAnfotericina B (sistêmica grave), Nistatina (tópica)
EquinocandinasInibem β-(1,3)-glucana sintase → destrói parede fúngicaCaspofungina, Micafungina (candidemia grave, aspergilose)
AlilaminasInibem esqualeno epoxidase → ↓ síntese de ergosterolTerbinafina (onicomicose, tinha)

Mnemônico: fungos dimórficos

“No Barro (ambiente) sou Bolor, no Corpo (37°C) viro Levedura”

Os fungos dimórficos: Histoplasma capsulatum, Blastomyces dermatitidis, Coccidioides immitis, Paracoccidioides brasiliensis, Sporotrix schenckii. Todos são bolores no solo/ambiente e leveduras no corpo humano a 37°C — exceto Coccidioides (forma esférulas no tecido).

Conclusão

Micoses são subdiagnosticadas porque os médicos pensam nelas tarde. O paciente neutropênico com febre persistente apesar de antibióticos precisa ter aspergilose invasiva considerada. O paciente HIV+ com cefaleia progressiva e CD4 baixo precisa ter punção lombar com nanquim. A candidúria no cateterizado não é “contaminação” em todo imunossuprimido. Conhecer os fungos mais importantes, seus nichos e seus antivirais é a diferença entre o diagnóstico precoce e a morte por infecção tratável.

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Fontes consultadas: Murray PR et al. — Microbiologia Médica (Elsevier); Mandell GL et al. — Principles and Practice of Infectious Diseases; Brooks GF — Jawetz Microbiologia Médica. Conteúdo revisado para fins didáticos.