Quando você fica horas sem comer — dormindo, jejuando ou em exercício prolongado — sua glicemia precisa se manter estável para alimentar o cérebro e as hemácias, que dependem de glicose. É aí que entra a gliconeogênese: a via que fabrica glicose nova a partir de fontes que não são carboidratos. É, em essência, a glicólise ao contrário — mas com três desvios importantes.
Neste guia: o que é, onde ocorre, os substratos, as 4 enzimas-chave que contornam a glicólise, o ciclo de Cori e a regulação hormonal.
- Ocorre principalmente no fígado (e um pouco nos rins), no citosol e mitocôndria.
- Substratos: lactato, glicerol e aminoácidos (especialmente alanina).
- É a glicólise invertida, mas com 4 enzimas próprias que contornam as 3 reações irreversíveis da glicólise.
- Ativada no jejum pelo glucagon; inibida no estado alimentado pela insulina.
- Gasta energia (6 ATP por glicose) — é uma via anabólica.
As 4 enzimas que contornam a glicólise
Como 3 reações da glicólise são irreversíveis, a gliconeogênese precisa de enzimas exclusivas para “dar a volta” nelas:
| ENZIMA | CONVERTE | ONDE |
|---|---|---|
| Piruvato carboxilase | Piruvato → Oxaloacetato | Mitocôndria |
| PEPCK | Oxaloacetato → PEP | Citosol |
| Frutose-1,6-bisfosfatase | F-1,6-bisP → Frutose-6-P | Citosol |
| Glicose-6-fosfatase | Glicose-6-P → Glicose | Retículo endoplasmático (fígado/rim) |
O músculo NÃO tem glicose-6-fosfatase — por isso não consegue liberar glicose no sangue.
No exercício, o músculo produz lactato (glicólise anaeróbia). Esse lactato vai pelo sangue até o fígado, onde é reconvertido em glicose pela gliconeogênese e devolvido ao músculo. Esse vai-e-volta é o ciclo de Cori — um clássico de prova.
Regulação: o jogo glucagon × insulina
- Jejum (glucagon alto): ativa a gliconeogênese e inibe a glicólise — o fígado vira “fábrica de glicose”.
- Alimentado (insulina alta): inibe a gliconeogênese e ativa a glicólise — a glicose é estocada, não fabricada.
- A frutose-2,6-bisfosfato é o sinalizador central: alta = glicólise; baixa = gliconeogênese.
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Correlações clínicas
| CONDIÇÃO | MECANISMO |
|---|---|
| Doença de von Gierke (tipo I) | Deficiência de glicose-6-fosfatase → hipoglicemia grave de jejum + hepatomegalia. |
| Hipoglicemia alcoólica | O álcool aumenta NADH e bloqueia a gliconeogênese — hipoglicemia no etilista em jejum. |
| Diabetes tipo 2 | Gliconeogênese hepática descontrolada contribui para a hiperglicemia (alvo da metformina). |
Conclusão
A gliconeogênese é a contrapartida da glicólise: fabrica glicose no jejum para manter o cérebro e as hemácias funcionando. Dominar as 4 enzimas exclusivas, o ciclo de Cori e a regulação glucagon × insulina conecta vários temas de metabolismo — e explica desde a hipoglicemia do etilista até o mecanismo da metformina.
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