
O sistema colinérgico é a parte da neurotransmissão que usa a acetilcolina como mensageiro químico — e é alvo de uma quantidade impressionante de fármacos. Quando você entende o sistema colinérgico, passa a compreender desde o colírio que trata o glaucoma até o antídoto usado na intoxicação por agrotóxicos, passando pelos remédios da doença de Alzheimer e pelos broncodilatadores da DPOC. A acetilcolina atua no sistema nervoso central, na junção neuromuscular, em todos os gânglios autonômicos e em todos os alvos do parassimpático.
Dominar o sistema colinérgico significa saber onde estão seus receptores (muscarínicos e nicotínicos), o que cada um faz e como os fármacos os ativam ou bloqueiam. Este post organiza a síntese e a degradação da acetilcolina, os subtipos de receptor, os colinérgicos (que imitam o parassimpático), os anticolinérgicos (que o bloqueiam) e a intoxicação por organofosforados — um dos quadros mais cobrados e mais perigosos da clínica.
- A acetilcolina é sintetizada pela colina acetiltransferase e degradada pela acetilcolinesterase.
- Dois tipos de receptor: muscarínicos (M1-M5, GPCR) e nicotínicos (Nm e Nn, canais iônicos).
- Colinérgicos imitam o parassimpático: diretos (pilocarpina, betanecol) e indiretos/anticolinesterásicos (neostigmina, donepezila).
- Anticolinérgicos bloqueiam receptores muscarínicos: atropina, escopolamina, ipratrópio, oxibutinina.
- Intoxicação por organofosforados = excesso de acetilcolina (síndrome colinérgica, SLUDGE/DUMBELS); antídoto = atropina + pralidoxima.
O sistema colinérgico e a acetilcolina
O sistema colinérgico gira inteiramente em torno do ciclo de vida da acetilcolina. Ela é sintetizada dentro do terminal nervoso pela enzima colina acetiltransferase (ChAT), que junta colina (captada do meio extracelular) com um grupo acetil doado pela acetil-CoA. A acetilcolina pronta é armazenada em vesículas e, quando chega o potencial de ação, é liberada na fenda sináptica para agir nos receptores pós-sinápticos.
O ponto crucial é o fim da história: a acetilcolina é rapidamente quebrada pela acetilcolinesterase (AChE), presente na fenda sináptica, que a separa de volta em colina e acetato. Essa degradação ultrarrápida é o que encerra o sinal. Por isso, fármacos que inibem a acetilcolinesterase prolongam a ação da acetilcolina — e venenos que a inibem irreversivelmente (organofosforados) causam um excesso colinérgico potencialmente fatal. Quase toda a farmacologia indireta do sistema mira nessa enzima.
Receptores muscarínicos e nicotínicos
A acetilcolina age em duas grandes famílias de receptores, batizadas pelos agonistas que as identificaram. Os muscarínicos (M1 a M5) são GPCRs — receptores acoplados à proteína G, de resposta mais lenta e moduladora. Os nicotínicos (Nm e Nn) são canais iônicos, de resposta rápida. Saber a localização de cada subtipo é o que diferencia uma resposta certa de uma errada na prova.
| RECEPTOR | LOCALIZAÇÃO | EFEITO PRINCIPAL |
|---|---|---|
| M1 | SNC, gânglios, células parietais do estômago | Excitação neural; ↑ secreção gástrica (ácido) |
| M2 | Coração | ↓ Frequência cardíaca (bradicardia) |
| M3 | Músculo liso, glândulas exócrinas, olho | Contração (brônquio, bexiga, pupila); ↑ secreções |
| Nm | Junção neuromuscular (placa motora) | Contração do músculo esquelético |
| Nn | Gânglios autonômicos, medula adrenal, SNC | Transmissão ganglionar; secreção de adrenalina |

Repare na utilidade clínica: o M2 cardíaco explica por que estimular o vago causa bradicardia (e por que a atropina, ao bloqueá-lo, acelera o coração). O M3 explica a tríade do parassimpático nos órgãos — broncoconstrição, contração da bexiga e miose — e também as secreções. Os nicotínicos, por sua vez, são o elo entre o sistema colinérgico e a contração muscular voluntária (Nm) e a transmissão nos gânglios autonômicos (Nn).
Fármacos colinérgicos (parassimpaticomiméticos)
Os fármacos colinérgicos imitam a ação da acetilcolina e, portanto, reproduzem os efeitos do parassimpático. Dividem-se em diretos (agonistas que ativam o receptor diretamente) e indiretos (anticolinesterásicos, que inibem a AChE e deixam a acetilcolina endógena acumular). Veja os representantes que mais aparecem:
| FÁRMACO | TIPO | USO CLÍNICO |
|---|---|---|
| Pilocarpina | Direto (agonista muscarínico) | Glaucoma (miose, ↑ drenagem); xerostomia |
| Betanecol | Direto (agonista muscarínico) | Retenção urinária / atonia de bexiga e intestino |
| Neostigmina | Indireto (anticolinesterásico) | Miastenia gravis; reversão de bloqueio neuromuscular |
| Fisostigmina | Indireto (atravessa o SNC) | Antídoto da intoxicação anticolinérgica (atropina) |
| Donepezila / Rivastigmina | Indireto (ação central) | Doença de Alzheimer (↑ acetilcolina no SNC) |
Note dois detalhes de prova: a neostigmina não atravessa a barreira hematoencefálica (carga quaternária), por isso age na periferia — ótima para miastenia gravis. Já a fisostigmina, terciária, entra no SNC e é o antídoto do delirium anticolinérgico. Os fármacos da doença de Alzheimer (donepezila, rivastigmina, galantamina) também são anticolinesterásicos centrais, aumentando a acetilcolina no córtex.
Anticolinérgicos (antimuscarínicos)
Os anticolinérgicos — mais precisamente antimuscarínicos — bloqueiam os receptores muscarínicos e produzem o oposto do parassimpático: taquicardia, midríase, broncodilatação, retenção urinária, boca seca e diminuição das secreções. Os principais representantes:
| FÁRMACO | USO CLÍNICO |
|---|---|
| Atropina | Bradicardia sintomática; antídoto de organofosforados; pré-anestésico |
| Escopolamina | Cinetose (enjoo de movimento); antiespasmódico |
| Ipratrópio / Tiotrópio | Broncodilatação na DPOC e na asma (inalatórios) |
| Oxibutinina | Bexiga hiperativa (relaxa o detrusor) |
Os efeitos adversos dos antimuscarínicos seguem a regra mnemônica clássica: “cego como morcego, seco como osso, vermelho como pimentão, quente como brasa e louco como um chapeleiro” — visão borrada, boca/pele secas, rubor por vasodilatação cutânea compensatória, hipertermia (sem suor) e confusão/delirium. São o espelho exato da síndrome colinérgica.
Intoxicação por organofosforados/inseticidas
A intoxicação por organofosforados e carbamatos (inseticidas, “chumbinho”, gases dos nervos) é uma emergência que cai muito em prova porque exemplifica todo o sistema colinérgico em colapso. Esses agentes inibem a acetilcolinesterase, fazendo a acetilcolina se acumular em todas as sinapses colinérgicas — muscarínicas, nicotínicas e centrais. O resultado é uma crise colinérgica: o paciente literalmente “vaza” por todos os orifícios.
O quadro muscarínico é resumido pelos mnemônicos SLUDGE ou DUMBELS: salivação, lacrimejamento, sudorese, miose, broncorreia, broncoespasmo, bradicardia, vômitos, diarreia e incontinência. A causa de morte é a insuficiência respiratória por broncoespasmo, secreções e fraqueza muscular (efeito nicotínico). O tratamento combina atropina (que bloqueia os receptores muscarínicos e seca as secreções, mas não reverte o componente nicotínico) com a pralidoxima (que reativa a acetilcolinesterase, desde que administrada antes do “envelhecimento” da enzima).
SLUDGE = Salivação, Lacrimejamento, Urina (incontinência), Diarreia, GI (cólicas/motilidade) e Emese. É o retrato do excesso colinérgico muscarínico na intoxicação por organofosforados. Antídoto: atropina (controla o muscarínico) + pralidoxima (reativa a acetilcolinesterase antes de ela “envelhecer”).
“SLUDGE” ou “DUMBELS”
SLUDGE: Salivation, Lacrimation, Urination, Diarrhea, GI distress, Emesis. DUMBELS: Defecação, Urinação, Miose, Bradicardia/Broncorreia/Broncoespasmo, Êmese, Lacrimejamento, Salivação/Sudorese. Os dois descrevem a mesma síndrome colinérgica muscarínica — escolha o que você lembrar melhor na hora da prova.
- Manual de Farmacologia — material recomendado do Amo Resumos para se aprofundar
- Sistema Nervoso Autônomo — a anatomia funcional do simpático e parassimpático que sustenta tudo isso
- Sistema Adrenérgico — o contraponto simpático: receptores α e β e seus fármacos
- Agonistas e Antagonistas — a base que distingue colinérgicos diretos de anticolinérgicos
Perguntas frequentes sobre Sistema colinérgico
O que é o sistema colinérgico?
É a parte da neurotransmissão que usa a acetilcolina como mensageiro químico. Ela atua no sistema nervoso central, na junção neuromuscular, em todos os gânglios autonômicos e em todos os alvos do parassimpático. A acetilcolina é sintetizada pela colina acetiltransferase e degradada pela acetilcolinesterase, sendo alvo de inúmeros fármacos colinérgicos e anticolinérgicos.
Qual a diferença entre fármacos colinérgicos e anticolinérgicos?
Os colinérgicos imitam a acetilcolina e reproduzem o parassimpático; podem ser diretos (pilocarpina, betanecol) ou indiretos, os anticolinesterásicos (neostigmina, donepezila). Os anticolinérgicos, ou antimuscarínicos (atropina, escopolamina, ipratrópio, oxibutinina), bloqueiam receptores muscarínicos e produzem o oposto: taquicardia, midríase, broncodilatação, retenção urinária e boca seca.
Como é a intoxicação por organofosforados e seu tratamento?
Os organofosforados inibem a acetilcolinesterase, fazendo a acetilcolina se acumular em todas as sinapses colinérgicas e gerando uma crise colinérgica. O quadro muscarínico é resumido pelos mnemônicos SLUDGE ou DUMBELS (salivação, lacrimejamento, urina, diarreia, GI e êmese). O tratamento combina atropina, que bloqueia receptores muscarínicos, com pralidoxima, que reativa a enzima.
Conclusão
O sistema colinérgico é um dos capítulos com melhor relação custo-benefício da farmacologia: poucos conceitos centrais — síntese e degradação da acetilcolina, localização dos receptores muscarínicos e nicotínicos, e os eixos colinérgico versus anticolinérgico — explicam dezenas de fármacos e a temida intoxicação por organofosforados. Quem fixa a tabela de receptores e o mnemônico SLUDGE responde com segurança a uma faixa enorme de questões, do glaucoma ao Alzheimer e à toxicologia.
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